Dinheiro
16/04/2008 - 19h43

BC sobe juros básicos após três anos e taxa vai a 11,75%

EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília

O BC (Banco Central) anunciou nesta quarta-feira (16) o primeiro aumento da taxa básica de juros desde maio de 2005. O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu elevar, por unanimidade, a Selic em meio ponto percentual, de 11,25% para 11,75% ao ano. É a maior taxa desde junho de 2007, quando a Selic era de 12%.

A decisão foi duramente criticada por representantes do comércio, da indústria e pelas centrais sindicais. Após a decisão, o mercado já espera outras altas nas próximas reuniões.

"Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectiva para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, elevar a taxa Selic para 11,75% ao ano, sem viés. O comitê entende que a decisão de realizar, de imediato, parte relevante do movimento da taxa básica de juros irá contribuir para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário e, como conseqüência, para reduzir a magnitude do ajuste total a ser implementado", afirma comunicado divulgado pelo Copom.

Embora a alta dos juros já fosse esperada, a maioria dos economistas apostava em um aumento menor, de 0,25 ponto percentual. Uma parte do mercado avaliava, no entanto, que o BC deveria promover um aumento mais forte dos juros agora para evitar que a inflação ficasse fora de controle.

O aumento dos juros era esperado desde a divulgação da ata da última reunião do Copom, quando o BC mostrou estar preocupado com o crescimento da inflação nos últimos meses e informou que uma elevação da taxa fora discutida pelo grupo.

Arte Folha /Arte Folha

A decisão de hoje deve promover grande movimentação amanhã no mercado financeiro, já que a decisão foi divulgada depois do fechamento dos negócios na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo).

Os fundos de renda fixa, por exemplo, devem registrar perdas nos próximos dias. O mesmo pode acontecer com a Bolsa, já que os juros maiores reduzem os ganhos das empresas. É possível também que haja mudanças nos juros bancários --que já registraram alta recentemente, antecipando a decisão do Copom-- e nas taxas praticadas no comércio.

Também se espera uma queda maior da cotação do dólar. A moeda norte-americana acelerou a tendência de baixa nas últimas semanas e fechou hoje no menor nível desde maio de 1999 ante o real. Isso acontece porque, com o aumento dos juros por aqui, fica mais atrativo para os investidores estrangeiros trazerem dinheiro para o Brasil.

Independentemente da decisão de hoje, o Brasil continuaria como o país com a maior taxa real de juros do planeta. Com elevação de 0,5 ponto percentual, segundo estudo da UpTrend Consultoria Econômica, o país passa a ter juro real de 7,1% ao ano. Em segundo lugar no ranking aparece a Turquia, com taxa real de 5,6%.

Meta de inflação

Apesar da preocupação do governo com o enfraquecimento do dólar, pesou na avaliação do BC os riscos inflacionários. O BC utiliza a taxa básica de juros como instrumento para manter a inflação dentro da meta, que é de 4,5% para este ano, com tolerância de dois pontos percentuais para baixo ou para cima. Com juros maiores, fica mais caro comprar; e com demanda menor, os preços também sobem menos.

A última divulgação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), indicador do IBGE utilizado no sistema de metas de inflação, mostrava um aumento de preços de 4,73% no acumulado dos últimos 12 meses. Ou seja, acima do centro da meta para este ano.

O crescimento recente da inflação está sendo motivado pelo aumento na cotação das matérias-primas internacionais (as chamadas commodities) e pelo aquecimento da economia brasileira (mais gente comprando) --o PIB deve crescer cerca de 5% neste ano, segundo previsões do governo.

Há dúvidas, no entanto, sobre o impacto do aumento dos juros sobre a economia do país. Para alguns analistas, os juros mais altos impedem a alta da inflação e garantem o crescimento sustentado do país. Para outros, a alta da Selic pode prejudicar o desempenho da economia, principalmente se a taxa continuar a subir, pois afeta os investimentos das indústrias para atender a alta da demanda.

O último relatório Focus, pesquisa do BC realizada com analistas financeiros, mostrou que o mercado aposta que a Selic irá terminar 2008 em 12,75% ao ano. Isso significa que ainda são esperados outros aumentos nos próximos meses.

Comentários dos leitores
Ronaldo Pignataro (23) 10/06/2008 09h44
Ronaldo Pignataro (23) 10/06/2008 09h44
SALVADOR / BA
A quem interessa altas taxas de juros?
Evidentemente para quem aplica recursos porque para quem toma não interessa absolutamente essa política.
Quem aplica é a comunidade internacional, então, me parece lógico que ouviremos elogios da imprensa internacional como um estímulo no sentido das taxas crescentes. Ainda, quando as taxas sobem o real é valorizado o que facilita a entrada de produtos importados (eles ficam mais baratos) Também, quando a nossa moeda é valorizada, as multinacionais turbinam seus lucros, na moeda do país de origem, com a variação cambial.
Claro que o aumento da taxa de juros é um mecanismo para controle da inflação. Baseia-se na inibição do investimento na produção e consumo, quando se estimula a poupança. Funciona, sem dúvida, e é uma ferramenta da chamada "política ortodoxa" de combate a inflação. Porém, há limitações. A primeira limitação, e que agrega um bom número de analistas é que o nosso nível de taxas praticadas de dois dígitos(a maior do mundo) está fora do "range" em que alguma variação teria eficácia.
Segundo, a inflação que hoje assistimos não tem raízes internas, então seria o cúmulo da pretensão querer parar a inflação mundial com essa politica-de-fundo-de-quintal, mesmo que ousada e brava, o fim seria o mesmo dos kamikazes. Terceiro, a alta dos juros não é uma ferramenta conveniente pelos motivos em que comecei essa exposição.
Os homens do poder sempre foram sensíveis às bajulações e por elas fazem todo o tipo de "tonterias", mesmo que bem intencionados, se esquecem dos fundamentos e economizam nas justificativas como forma de monopólio do saber e para o sustento da soberba, mas acabam entregando o ouro. O nosso ouro.
sem opinião
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José Alberto (15) 22/04/2008 16h11
José Alberto (15) 22/04/2008 16h11
Cadê o lula para comentar o deficit nas importações, já fugiu para o exterior ou ainda esta no BRASIL, em alguma toca o lula ve se aparece agora pois comentar é uma coisa enfrentar a situação e vive-la é outra pois rato é assim na primeira chuva se esconde em algum buraco. 3 opiniões
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Rodrigo Riul (25) 18/04/2008 12h24
Rodrigo Riul (25) 18/04/2008 12h24
Francisco disse: "Se a taxa de juros, simplesmente fizesse a inflação cair, os países adiantados teriam altas taxas de juros o que não ocorre"
Discordo. Não dá para comparar laranja com banana. Os países adiantados não têm esses desvios que você mesmo apontou e que causam ineficiência na economia. E não os têm porque as leis não são cheias de brechas, o judiciário faz seu trabalho direito, a estrutura política dos governos não permite abusos e as políticas fiscal e tributária não oneram tanto a produção. Por isso eles podem ter taxas mais baixas.
É obrigação do Lula e do Congresso criar essa infra-estrutura. E ele não tem cumprido com essa obrigação. Ele fez sim avanços na área social, mas nenhum na parte econômica.
Taxa de juros do Banco Central não deve ser tratada como causa, mas como consequência.
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