Pão francês aumenta 20% com escassez de trigo
KAREN CAMACHO
Editora-assistente de Dinheiro da Folha Online
A escassez do trigo provocou um aumento no preço do produto no mercado internacional e o Brasil, que importa 70% do insumo utilizado pela indústria, sofre com as altas. Quem ajuda a pagar a conta, claro, é o consumidor. O pão francês já teve alta de 20%, em média, nos últimos 12 meses, segundo dados das entidades ligadas ao setor.
As massas também subiram neste mesmo período, em média 25%, e os biscoitos e bolachas, mesmo as doces, estão cerca de 21% mais salgadas.
O estoque mundial do trigo do ano comercial 2007/2008 é o menor dos últimos 20 anos com 112 milhões de toneladas, 10% abaixo da safra de 2006/2007, segundo a Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo) e entidades parceiras.
O preço do trigo nacional, de acordo com o levantamento, subiu 25,55% em 2008, na comparação com o ano passado, passando de R$ 522 a tonelada para R$ 656. Em 2006, o produto custava R$ 410 a tonelada.
O trigo argentino está ainda mais caro. A tonelada passou de R$ 447 em 2007 para R$ 688 em 2008, uma alta de 54%. Em 2006, a tonelada custava R$ 357.
Para este ano, segundo o presidente da Abima (Associação Brasileira das Indústria de Massas Alimentícias), Claudio Zanão, não há perspectiva de redução de preço. O consumo tem crescido em todo o mundo, principalmente na Ásia.
"Não há trigo para vender. Houve um aumento do consumo e o estoque está reduzido. Tivemos um 2007 muito bom e esperávamos o mesmo para 2008, mas não será. Precisamos de medidas para atenuar os aumentos de preços", afirmou Zanão.
O preço da farinha de trigo brasileira na indústria, segundo a Abima, passou de R$ 1.066 para R$ 1.312 a tonelada, entre 2007 e 2008, uma alta de 23,07%. No ano passado, o item já havia subido 19,33% na comparação com 2006.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de biscoitos, com faturamento anual de R$ 7,41 bilhões. No setor de massas, o país é o terceiro produtor do mundo, com faturamento de R$ 4,67 bilhões.
Pacote
No aperto, as entidades recorreram ao governo e entregaram uma lista de medidas que podem socorrer o setor em toda a cadeia, do produtor ao consumidor final.
Entre elas está a suspensão temporária do recolhimento do AFRMM (Adicional de Frete para Recuperação da Marinha Mercante), que corresponde a 25% sobre o valor do frete.
Eles também querem a inclusão dos produtos derivados de trigo no projeto de reforma tributária e a desoneração, mesmo que temporária, do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) incidente sobre o trigo e ser derivados.
"Não queremos benefícios e nem benesses, apenas igualdade de competição, inclusive com outros alimentos. O resto pode deixar com a gente", afirmou Zanão.
Para ele, deve valer a velha regra: com aumento de preços, diminui o consumo e as vendas de produtos. Ele descarta, no entanto, risco de desabastecimento do produto nos pontos de venda.
Argentina
O Brasil consome, segundo dados de 2007, cerca de 10,5 milhões de toneladas de trigo por ano na indústria, mas produz apenas 3 milhões --podendo subir para 3,8 milhões neste ano. Para atender a demanda, a indústria importa, principalmente, da Argentina. Pelo menos importava, já que o país vizinho tem evitado as exportações e as últimas remessas foram feitas quase a conta-gotas.
Em dezembro, de 2007 o governo argentino liberou 7 milhões de toneladas de trigo para exportação, sendo 3,2 milhões de toneladas para o Brasil.
No início deste mês a Argentina liberou mais 1,2 milhão de toneladas, parceladas em três meses. O Brasil tem preferência por oferecer o melhor preço ao produtor argentino.
Outra mudança acertada em abril, durante o encontro entre os governos do Brasil e da Argentina, foi o aumento do imposto de importação da farinha de trigo argentina, de 10% para 18%. O grão continua pagando imposto de 28%. Portanto, a diferença entre os dois itens fica menor, o que pode oferecer a indústria brasileira maior competitividade ao produto argentino.
Sem o trigo da Argentina, o Brasil passou a importar dos Estados Unidos e Canadá, a preços e custos de frete maiores. O governo brasileiro suspendeu a TEC (Tarifa Externa Comum), incidente sobre as importações de trigo de países não-associados ao Mercosul, até a quantidade de 1 milhão de toneladas, o que deve ser alcançado em junho.
As entidades ligadas ao setor pedem a retirada da tarifa, pelo menos por mais duas ou três toneladas. Essa medida representaria uma redução de 10% no custo de aquisição do produto importado.
Macarrão com mandioca
Apesar das altas dos preços ao consumidor e a perspectiva de que os reajustes devem continuar no segundo semestre, Zanão descarta a possibilidade de o consumidor deixar de consumidor derivados de trigo. "É uma questão de hábito. O consumidor não deixará de consumir pão ou macarrão. Ele provavelmente vai preferir produtos mais baratos ou ofertas."
Zanão também não vê possibilidade de acrescentar farinha de macarrão na composição das massas. "O macarrão tem, em sua base, fundamentalmente a farinha de trigo. Se você utilizar a farinha de mandioca, deixa de ser macarrão e passa a ser outro produto", afirmou.
Trigo x milho
Também está na lista de pedidos da indústria do trigo um política de fomento e apoio à triticultura nacional, com o objetivo de reduzir a dependência do país ao trigo estrangeiro.
Entre as possibilidades sugeridas está a garantia de preço ao produtor, que seria oferecida pelo governo. Segundo Zanão, atualmente os produtores preferem o cultivo do milho ao trigo, principalmente em função do álcool.
Inflação
O trigo, assim como outros alimentos, tem sofrido altas em todo o mundo. Por isso, e diante do forte crescimento da demanda no mercado mundial, entidades internacionais já expuseram sua preocupação com o risco da falta de alimentos e a pressão inflacionária.
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