ONU se reúne para elaborar plano de combate à crise alimentar
da France Presse
da Folha Online
O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, e dirigentes de 27 agências da organização, iniciaram nesta segunda-feira em Berna (Suíça) uma reunião a portas fechadas dedicada à crise provocada pela alta de preços dos alimentos básicos.
"É um momento apaixonante para a ONU, mas também um momento em que somos colocados diante do desafio de fazer tudo o que pudermos para responder às expectativas que o mundo depositou em nós", disse o secretário-geral.
Na semana passada, ele classificou a alta nos preços dos alimentos como uma "crise global". "Esse forte aumento nos preços dos alimentos se tornou uma crise global real", disse, em uma conferência em Viena (Áustria). "A ONU está muito preocupada, bem como todos os países-membros", afirmou, e destacou que a comunidade internacional precisa tomar uma ação imediata.
O arroz registrou alta de 141% em seu preço desde janeiro, o trigo custa 130% a mais que há 12 meses e o milho nunca esteve tão caro em 12 anos: a disparada do custo dos alimentos, que tem provocado protestos violentos em muitos países, aumentou o número de famintos em dezenas de milhões.
No Brasil, na última quarta-feira (23), o ministro Reinhold Stephanes (Agricultura) informou a suspensão das exportações do estoque público e afirmou que conversaria com produtores para suspender também as vendas externas privadas. Ontem, no entanto, Stephanes disse que o país só adotará medidas para restringir a exportação de arroz em "casos extremos".
A ONU e suas agências devem ajudar de maneira urgente as populações que passam fome e buscar soluções a longo prazo. Para isso, terá de atuar como mediadora entre os defensores do protecionismo e os que defendem a abertura dos mercados, e inclusive entre os partidários dos biocombustíveis e seus detratores.
O Programa Mundial de Alimentos da ONU, que alimenta 73 milhões de pessoas em 78 países e é considerado a última barreira entre os famintos e a inanição, deve ser reforçado em pelo menos US$ 756 milhões adicionais, segundo seus dirigentes.
O encontro começou na sede da União Postal Universal. Depois das discussões da manhã, os dirigentes da ONU prosseguirão com as reuniões à tarde no hotel Bellevue, no centro de Berna.
Oportunidade
O diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), Jacques Diouf afirmou na sexta-feira (25) que o encontro de líderes mundiais em Roma programado para os dias 3 a 5 de junho será a oportunidade para que o mundo possa repensar suas políticas e agir. "Os fatos são claros. Um, precisamos providenciar dinheiro e alimentos para que as pessoas possam ter o que comer e para reduzir os custos para os pobres, de modo que eles possam ter acesso aos alimentos", disse Diouf, segundo a agência de notícias Associated Press (AP). "Dois, temos de ajudar os agricultores a ter acesso ao que eles precisam para produzir."
Segundo ele, seria necessário US$ 1,7 bilhão para financiar essa ajuda. "Todos estão dizendo 'vamos alimentar as pessoas e vamos dar mais ajuda', o que, é claro, também é importante (...) Mas a atual safra e a próxima deveriam ser o foco neste momento', disse --acrescentando que, se não for assim, 'estaremos perdendo o passo de novo".
Solução óbvia
O Brasil é uma "óbvia solução" para a situação de crise em que se encontra a segurança alimentar mundial, ameaçada pela alta dos preços, mas vem sendo "em grande parte ignorado", segundo reportagem do diário financeiro britânico "Financial Times" ("FT").
O jornal destaca, no entanto, que o Brasil tem sua parcela de culpa. "O país tem sido notavelmente lento em fazer campanha junto aos países desenvolvidos e em divulgar sua enorme capacidade produtiva", diz o texto, mas destaca também que os países desenvolvidos têm sido "propositalmente míopes" para as oportunidades apresentadas pelo Brasil e diz que a intensificação da produção de gado no país a fim de liberar terra para a agricultura "irritaria os agricultores ricos dos EUA e da Europa --um preço que aparentemente não vale a pena pagar".
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