Preço no leilão de Jirau veio abaixo do esperado, dizem analistas
YGOR SALLES
da Folha Online
Os analistas do setor elétrico ficaram surpresos com o preço que o consórcio liderado por Suez e Camargo Corrêa ofereceu para ganhar o leilão da usina hidrelétrica de Jirau, a ser construída no rio Madeira.
O grupo ofereceu R$ 71,40/MWh, valor 21,54% inferior ao preço máximo, que era de R$ 91/MWh. Segundo especialistas ouvidos pela Folha Online, esperava-se um preço entre R$ 80,00/MWh e R$ 85/MWh.
"A principal tônica [do leilão] foi o número baixo de concorrentes, apenas dois", disse André Segadilha, analista da Prósper Corretora. "Por isso era esperado um preço mais alto."
Já Rosângela Ribeiro, analista da SLW, o fato do vencedor ter sido o consórcio Suez/Camargo Corrêa e com um preço abaixo do esperado surpreende ainda mais.
"Neste nível de preço, esperava que a Odebrecht [em parceria com Furnas] ganhasse", explica. Isso porque as duas empresas já ganharam o leilão da usina de Santo Antônio --que forma com Jirau o complexo hidrelétrico do rio Madeira-- e porque foram responsáveis pelo estudo de viabilidade das obras, o que lhes dariam alguma vantagem na formação do preço.
Com a vitória, a Suez passa a ganhar força no mercado energético nacional. "Agora ficará em quarto lugar entre as geradoras", lembra Rosângela.
O fato da empresa franco-belga estar interessada em ampliar sua participação no mercado brasileiro fez com que Segadilha não se surpreendesse com a vitória. "A Suez é muito forte. Como não era muito acirrado, era possível que o consórcio dela com a Camargo Corrêa ganhasse", explicou.
Apesar de ter ficado abaixo do esperado, os analistas não acreditam que o preço oferecido para vencer o leilão não inviabilizará o projeto de Jirau.
"A proposta foi viável. Os projetos [em andamento] da Suez sinalizam alta na rentabilidade", disse Rosângela. "Ainda não temos o detalhamento de como farão, mas as iniciativas anteriores mostram que eles têm estratégia."
Porém, a corretora Ativa avaliou que o preço indicará baixa rentabilidade. Devido a essa previsão e à falta de esclarecimentos para justificar um preço baixo como o oferecido, decidiu retirar as ações da Tractebel (empresa de energia controlada pela Suez) de sua carteira sugerida.
Abdib
A Abdib (Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base) informou em comunicado que o leilão de Jirau "consolida o modelo de concessões de infra-estrutura".
"A iniciativa privada mantém forte interesse em construir a infra-estrutura do Brasil quando há bons projetos ofertados e também regras de competição claras, realistas e estáveis", disse a entidade.
Ela também lembrou que a construção da usina é importante para o setor energético brasileiro. "A construção dessa nova usina significará mais segurança energética para suportar o crescimento econômico no longo prazo", disse.
Leilão
O consórcio liderado pelas empresas Suez e Camargo Corrêa venceu nesta segunda-feira o leilão da usina de Jirau, no rio Madeira. O grupo ofereceu R$ 71,40/MWh, valor 21,54% inferior ao preço máximo, que era de R$ 91/MWh. O leilão durou sete minutos e foi encerrado com um lance único.
O grupo informou que venderá 30% do total gerado --o valor máximo permitido-- para o mercado livre (grandes indústrias, shopping, etc, que compram energia diretamente da usina). Com isso, o preço final para as distribuidoras fica em R$ 71,37 por MWh. Pelo cálculo, quanto maior a quantidade vendida ao mercado livre, menor o preço para a distribuidora.
Suez e Camargo Corrêa integram o consórcio Energia Sustentável do Brasil --Suez Energy (50,1%), Camargo Corrêa Investimentos em Infra-Estrutura (9,9%), Eletrosul Centrais Elétricas (20%) e Chesf (20%).
Eles venceram o grupo Jirau Energia-- com Furnas Centrais Elétricas (39%), Odebrecht Investimentos em Infra-Estrutura (17,6%), Construtora Norberto Odebrecht (1%), Andrade Gutierrez Participações (12,4%), Cemig Geração e Transmissão (10%) e Fundo de Investimentos e Participações Amazônia Energia II, formado pelos bancos Banif e Santander, (20%).
No leilão de Santo Antônio, o grupo com Odebrecht ofereceu R$ 78,90, valor 35% menor do que o teto.
A usina de Jirau é considerada prioritária pelo governo e faz parte do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). A obra terá capacidade para gerar 3.300 MW e entrará em funcionamento a partir de 2013, com custo previsto de R$ 8,7 bilhões.
No total, a obra terá 44 turbinas, suficientes para abastecer 9,8 milhões de casas mensalmente. A usina está localizada a 135 quilômetros de Porto Velho e deverá gerar 13 mil empregos diretos e 50 mil empregos indiretos.
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