Dinheiro
22/05/2008 - 11h03

Gigante estatal assusta bancos, dizem analistas

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TONI SCIARRETTA
da Folha de S.Paulo

Divulgada numa véspera de feriado prolongado, a notícia da incorporação da paulista Nossa Caixa pelo Banco do Brasil foi recebida com surpresa pelos bancos privados, que viram na negociação um acordo político sem precedentes entre governos federal e estadual para fortalecer a maior instituição financeira pública e fazer frente aos grandes conglomerados privados, que lideram a expansão do crédito no país.

No mercado, a avaliação é que o negócio saia em cerca de duas vezes o valor do patrimônio líquido da Nossa Caixa, que fechou o primeiro trimestre em R$ 2,8 bilhões.

Na venda do ABN Real para o Santander, último negócio envolvendo bancos no país, as ações saíram por mais de três vezes esse valor. Como o governo paulista tem 71% das ações ON (com direito a voto), a expectativa é que saia por cerca de R$ 4 bilhões.

Agronegócio

Último grande banco estadual ainda não privatizado, a Nossa Caixa tem forte presença no Estado mais rico do país, especialmente o interior paulista, que hoje ganha relevância internacional pelo agronegócio. Suas operações interessavam a todas as instituições financeiras nacionais e estrangeiras.

"A [operação da] Nossa Caixa cai como uma luva para o Banco do Brasil, que mostra seu apetite para aquisições. A Caixa é ainda fraca no crédito, mas está saneada", disse Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da consultoria Austin Ratings.

Até ontem, a expectativa era que o controle fosse vendido em Bolsa, numa operação de pulverização de ações.

Além das ações do governo paulista, o BB deverá fazer uma oferta aos acionistas minoritários. Os papéis da Nossa Caixa fazem parte do Novo Mercado da Bovespa, segmento que zela pela transparência nas negociações e divulgações.

Impedido desde os anos 90 de participar de privatizações, o BB ficou para trás na concorrência bancária, enquanto Bradesco, Itaú e Santander dividiam o mercado entre si. Só no ano passado, o BB começou a viabilizar sua expansão por meio da incorporações de bancos estaduais, como o Besc (Banco de Santa Catarina).

Passou também a comprar --e a absorver-- as folhas de pagamento de prefeituras e de Estados, entrando em rota de colisão com Bradesco, Itaú e Santander, vencedores das principais licitações.

Filé mignon

"Serra [governador José Serra, do PSDB] vai ganhar duas vezes com a folha de pagamentos [dos servidores paulista]. A primeira quando vendeu por R$ 1 bilhão para a Nossa Caixa, e agora, com a incorporação pelo BB. A folha paulista é o filé mignon do funcionalismo", disse Santacreu.

Com exceção da folha de pagamento paulista, há dúvidas sobre o ganho potencial de sinergia e da sobreposição de agências do BB e da Nossa Caixa no interior de São Paulo.

O Sindicato dos Bancários de São Paulo (ligado à CUT) informou ontem que não vai admitir demissões nem o fechamento de agências. Se o direito dos trabalhadores não for respeitado, o sindicato ameaça fazer greves e recorrer à Justiça.

"Vamos exigir da Assembléia Legislativa que, no processo de aprovação, seja considerada a preservação dos empregos", diz o sindicato.

 

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