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Dinheiro
27/05/2008 - 09h57

Economistas dizem que piora da balança comercial não é ameaça

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ROBERTO MACHADO
da Folha de S.Paulo, no Rio

A rapidez com que a balança comercial está "virando", as remessas de lucro de multinacionais e a perspectiva de apreciação do real após o grau de investimento são os principais fatores que fizeram bancos e consultorias projetarem um salto no déficit em transações correntes para 2008 e 2009.

O Unibanco prevê déficit de 2,9% do PIB para o ano que vem. Para 2008, a estimativa anterior era de um déficit de US$ 5,6 bilhões; agora, é de US$ 22,3 bilhões (1,5% do PIB). O Itaú-BBA projeta, para 2009, déficit de 2,6% do PIB e 1,7% neste ano. O Bradesco prevê US$ 23 bilhões (1,4% do PIB) e US$ 29,5 bilhões (1,7%) em 2008 e 2009.

Na década passada, o déficit nas contas externas foi sinônimo de crise e vulnerabilidade externa --em 1999, atingiu 4,3% do PIB. Mas hoje a situação mudou: há consenso entre os economistas de que é conseqüência do bom momento da economia.

O argumento é que o país recebe grandes somas em investimento direto (que compensam o déficit) e tem reservas internacionais suficientes para cobrir o "buraco" por muitos meses --caso haja redução no volume de dólares que entram no país.

Mas há divergências acerca do médio e do longo prazo. Há os que apontam para um "sinal amarelo", dada a velocidade da deterioração das contas. E os que crêem que, depois do grau de investimento, o país não terá problemas para obter financiamento externo.

"O que chama a atenção é mesmo a velocidade. Dependendo do ritmo da balança comercial, o déficit em conta corrente pode chegar a 3% do PIB em 2008", diz Leonardo Miceli.

"O sinal amarelo vem da estonteante deterioração da balança comercial, que pode se aliar ao ritmo de remessas de lucros, que cresceram em função da crise nos EUA", diz Sérgio Valle, da MB associados. A consultoria prevê saldo da balança comercial de "apenas" US$ 8 bi em 2009. Em 2007, foram US$ 40 bi.

Já o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, não vê problemas na alta expressiva das remessas de lucro: "Só remete lucro quem fez investimento, e só se investe onde se pode ganhar dinheiro". Para ele, a redução do saldo comercial também não assusta: "A balança comercial é só metade do déficit em transações correntes, que será financiado em qualquer nível depois do grau de investimento".

É a mesma opinião de Pedro Jobim, economista-chefe do Itaú-BBA: "Diante dos indicadores financeiros e macroeconômicos do país, não preocupa. É uma situação muito diferente da verificada no passado. O país vai bem, as importações estão crescendo com a demanda doméstica e há condições de acumular dívidas em dólar".

A última vez que o Brasil registrou déficit em conta corrente foi em 2002 (1,5% do PIB), último ano do governo de Fernando Henrique Cardoso: 1,5% do PIB. Depois, o ajuste "cambial" promovido pela desvalorização do real, em 1999, resultou em aumento das exportações e o saldo externo passou a ser positivo.

Para a economista Adriana Dupita, da LCA consultores, o câmbio ajudará a corrigir distorções: "A solução está no próprio regime de câmbio flutuante. Se a percepção for de que subiu demais [o déficit em conta corrente], naturalmente haverá depreciação [do real]".

 

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