Alta dos alimentos deve mudar formas de combater pobreza mundial, diz ONU
da Folha Online
A alta dos preços dos alimentos não permite mais que a fome no mundo seja combatida apenas com a distribuição de alimentos baratos e isso irá exigir dos líderes mundiais encontrem novas formas de enfrentar a pobreza, disse nesta terça-feira o chefe do Ifad (Fundo Internacional da ONU para o Desenvolvimento Agrícola, na sigla em inglês), Lennart Bage.
Bage disse esperar que na próxima semana, quando ocorrer a conferência sobre a segurança alimentar mundial em Roma (Itália), a comunidade internacional reconheça que os desafios impostos pela pobreza mudaram e concordem em reverter anos de negligência em relação aos agricultores pobres.
"Eles [governos e doadores] tomaram como dados os alimentos baratos no mercado internacional. Não podemos mais fazer isso e temos de entender que se trata de um problema estrutural", disse, na noite desta segunda-feira (26).
Para ele, o período de abundância global, que durou 25 anos desde 1980, fez com que alguns países se tornassem complacentes. "Fomos induzidos à complacência, à idéia de que há comida abundante e barata à disposição", afirmou. "Muitos líderes africanos me disseram: 'Por que deveríamos usar nossos recursos escassos para a agricultura quando há comida barata e abundante disponível no mercado internacional'."
Em abril, o secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), Ban Ki-moon, disse que a alta nos preços dos alimentos já chegou ao nível de uma crise global.
Neste mês, o chefe dos conselheiros econômicos da Casa Branca, Edward Lazear, destacou alguns dos números que mostram a situação dos preços dos alimentos tanto nos EUA como nos mercados mundiais. Segundo ele, a inflação dos preços dos alimentos no mercado mundial foi de 43% nos 12 meses encerrados em março. As despesas dos americanos com alimentos foi de menos de 14% de seus gastos totais no período, enquanto na África essa proporção chegou a 43% --e entre as populações mais pobres da região da África subsaariana a proporção pode chegar a 70%.
O conselheiro da Casa Branca informou que os preços do trigo subiram 123% no período, enquanto os da soja subiram 66%; os do milho, 37%; e os do arroz, 36%. A Casa Branca considera que os altos preços dos alimentos ao redor do mundo devem persistir por mais dois ou três anos, até que os estoques mundiais consigam ser reabastecidos.
Bage disse ainda que os desafios fundamentais do crescimento da população e da elevação da demanda não desaparecerão. "Nunca em nenhum período da história tantas pessoas conseguiram deixar a pobreza quanto nos últimos 20 anos. Isso é bom, mas precisamos torná-la viável de um modo sustentável com o ambiente", disse.
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