Coleção de inverno deste ano está maior e mais cara
FÁTIMA FERNANDES
da Folha de S. Paulo
A coleção de roupas de inverno que está nas lojas do país está 8% maior em volume de produção, 5% a 10% mais cara e com maior oferta de importados do que a do ano passado.
Com a economia mais aquecida, em decorrência da alta do emprego e da renda, as confecções têm demanda para elevar a produção, além de subir preços acima da inflação, apesar da expansão das importações.
As confecções brasileiras deverão produzir 6,8 bilhões de peças neste ano, 8% a mais do que em 2007. E o preço em dólar por peça na fábrica deve subir 16,7%, de US$ 1,37 para US$ 1,60, segundo levantamento do Sindvest (Sindicato da Indústria do Vestuário).
Pesquisa feita pela Fipe mostra que em abril e maio a inflação do grupo do vestuário subiu 2,20%, enquanto a inflação no período ficou em 1,78%. No caso de roupas para mulheres, a alta foi de 3,68% e, de roupas para homem, de 1,99%.
"Esse aumento de preço reflete a expansão da demanda e do fato de as lojas estarem importando roupas mais caras", afirma Marcio Nakane, coordenador do IPC (Índice de Preço ao Consumidor) da Fipe.
A Comafeld Confecções, que comercializa a marca de roupas infantis Petistil, elevou em 15% o número de peças (para 60 mil peças) da coleção de inverno deste ano na comparação com o volume produzido no ano passado. Por conta dos aumentos de custos, os preços das roupas subiram entre 5% e 6% neste ano, segundo Marcelo Feldman, diretor da empresa.
"A demanda neste momento está cerca de 16% mais alta do que no ano passado até porque o frio está mais intenso", diz.
A Comafeld importa cerca de 30% dos tecidos que utiliza. No caso de peças prontas, a empresa traz do exterior jaquetas e blusões em volume que representa 2% de sua produção.
Ronald Masijah, presidente do Sindvest, diz que o crescimento da produção de roupas reflete, principalmente, a alta de consumo de classes de menor poder aquisitivo, a maior oferta de crédito e prazos mais extensos de financiamento.
"O Brasil vai se especializar em roupas mais populares. Os custos dos artigos chineses são imbatíveis. Existem na China empresas monstruosas, com cerca de 2.000 funcionários, com custos baixos, mesmo pagando bons salários para os empregados. No Brasil, os impostos equivalem a 42% do preço de uma roupa. A tendência, portanto, é acontecer no Brasil o que já ocorre nos Estados Unidos e na Europa. As confecções mantêm as marcas e importam todos os produtos."
As confecções brasileiras já não fabricam mais jaquetas e bermudas de nylon e também estão diminuindo a produção de linhas de alfaiataria (como calças sociais e blazers) e de malhas de tricô, segundo Claudio Kutnikas, diretor-geral da Affiniti Berlan, fabricante de tecidos de malha. "Os grandes magazines estão importando quase tudo, até a linha de camisaria. Os produtos chineses viraram referência de preços para essas redes no país", diz.
A produção de malhas da Affinitti Berlan, segundo ele, deve ser parecida com a do ano passado, e os preços dos tecidos estão 3% mais altos. "Teríamos de subir mais 3% por conta da alta de custos, mas não conseguimos devido à concorrência com os produtos chineses."
O Brasil, segundo ele, importa cerca de 5.000 toneladas por mês de tecidos de malha da China e produz entre 8 mil e 10 mil toneladas mensais. "No caso de roupas prontas, a importação cresce 200% ao ano. Isso vai acabar com o setor no país."
O Brasil importa mais roupas do que exporta. Em 2007, a balança comercial do setor registrou déficit de US$ 217 milhões. A expectativa do Iemi, consultoria especializada no setor têxtil, é que o déficit suba para US$ 450 milhões neste ano.
O Sindvest informa que o setor de vestuário emprega cerca de 1 milhão de pessoas no país, número que já foi o dobro há dez anos. Apesar de forte concorrência com os produtos chineses, a previsão é que esse número cresça 4,5% neste ano, para 1,12 milhão de pessoas.
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