Dinheiro
10/06/2008 - 17h22

Inflação e endividamento das famílias devem segurar PIB em 2008

CIRILO JUNIOR
da Folha Online, no Rio

O consumo das famílias, um dos principais vetores do crescimento econômico nos últimos meses, deverá desacelerar ao longo deste ano, diante de um quadro inflacionário mais intenso e do maior endividamento da população. É o que apontam economistas ouvidos pela Folha Online, que projetam, ainda assim, crescimento em torno de 5% neste ano no país.

"A inflação é um ponto decisivo, já que está chegando no bolso do consumidor agora. Acho difícil que o desempenho da economia desabe este ano, mas a inflação poderá ter um efeito um pouco maior", afirma o diretor executivo do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), Júlio Gomes de Almeida.

Alan Marques/Folha Imagem
Mantega vê desaceleração positiva e mantém previsão do PIB em 5% para este ano
Mantega vê desaceleração positiva e mantém previsão do PIB em 5% para este ano

Para o sócio-diretor da RC Consultores, Fábio Silveira, o crescimento de 0,3% do consumo das famílias na passagem do quarto trimestre de 2007 para o primeiro trimestre desse ano já demonstra uma pequena desaceleração, causada pelo aumento do endividamento.

"O cenário é de redução da renda nominal, com o aumento do grau de endividamento. A expansão do crédito foi muito forte", avalia.

Na comparação com os três primeiros meses do ano passado, o consumo das famílias cresceu 6,6% neste primeiro trimestre.

Cenário semelhante ocorreu com a economia, que cresceu 5,8% na comparação com o primeiro trimestre de 2007, e registrou incremento de 0,7% em relação ao trimestre imediatamente anterior.

Troca de atores

Silveira acrescenta que haverá uma "troca dos atores" na dinâmica do PIB (Produto Interno Bruto). Isso quer dizer que ao mesmo tempo em que a expansão do consumo das famílias será menor, os gastos do governo crescerão. Ele destaca ainda a manutenção de nível mais elevado da taxa de investimento.

Jorge Araujo/Folha Imagem
Para Lula, PIB vai ajudar no equilíbrio entre a oferta e demanda e a controlar a inflação
Para Lula, PIB vai ajudar no equilíbrio entre a oferta e demanda e a controlar a inflação

"O crescimento da economia será menor do que no ano passado, mas ainda se manterá em nível alto. Depois do resultado de hoje, reduzimos nossa previsão de crescimento no ano de 5,5% para 5%", disse.

Júlio Gomes de Almeida tem a mesma previsão, mas não estima elevação relevante do consumo do governo. Ele lembra que os gastos do governo têm um peso três vezes menor do que o consumo das famílias, e considera que o forte incremento constatado de janeiro a março ocorreu em função do calendário eleitoral, que limita os gastos do Executivo durante a campanha eleitoral.

"Aparentemente, o crescimento está estabilizado em um bom patamar, que não é explosivo como alguns apontavam. A economia desacelerou, o consumo das famílias também, mas o investimento se manteve", explica Almeida.

Capacidade produtiva

O professor da escola de pós-graduação em economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Fernando Holanda Barbosa, destaca que o crescimento da economia nos patamares que vinham sendo registrados eram insustentáveis diante da limitação da capacidade produtiva do país. Diante disso, sustenta, a desaceleração é natural.

Raimundo Pacco/Folha Imagem
Construção civil impulsiona crescimento do PIB no 1º trimestre, segundo IBGE
Construção civil impulsiona crescimento do PIB no 1º trimestre, segundo IBGE

"A desaceleração vai levar a um crescimento mais consistente e permanente. Vejo um crescimento sustentado nos próximos trimestres", afirmou.

Barbosa cobra redução dos gastos do governo, e ampliação do investimento público, para garantir a elevação da taxa de investimento do país. Para ele, o atual nível de investimento -- representa 18,3% do PIB -- é baixo.

Fábio Silveira aponta ainda preocupação em relação à influência do cenário externo na economia. Ele lembra que o desempenho do primeiro trimestre já não foi positivo, e que o aprofundamento da crise pode influenciar a expansão da economia brasileira.

Resultados

O PIB, que mostra o comportamento de uma economia, é a soma das riquezas produzidas por um país --é formado pela indústria, agropecuária e serviços. O PIB também pode ser analisado a partir do consumo, ou seja, pelo ponto de vista de quem se apropriou do que foi produzido. Neste caso, é dividido pelo consumo das famílias, pelo consumo do governo, pelos investimentos feitos pelo governo e empresas privadas e pelas exportações.

O destaque principal da economia brasileira no início de 2008 foi o setor industrial, que cresceu 6,9% em relação ao primeiro trimestre de 2007. Na comparação com o quarto trimestre, a indústria teve expansão de 1,6%. Somente a construção civil teve crescimento de 8,8% de janeiro a março, na comparação com igual período em 2007.

Já o setor de serviços registrou incremento de 5% frente ao primeiro trimestre de 2007 e de 1% em relação ao quarto trimestre do ano passado. O setor agropecuário cresceu 2,4%, na comparação com o período de janeiro a março do ano passado. Em relação ao último trimestre de 2007, porém, a agropecuária teve queda de 3,5%.

O investimento, medido pela chamada formação bruta de capital fixo (FBCF), cresceu 15,2% de janeiro a março, se comparado a igual período no ano anterior. Na comparação com o quarto trimestre de 2007, houve incremento de 1,3%. O IBGE também registrou que a taxa de investimento em relação ao PIB foi a mais alta para um primeiro trimestre desde 2000: 18,3%.

O consumo das famílias, por sua vez, aumentou 6,6% no primeiro trimestre na comparação com igual período em 2007, e 0,3% na comparação com o período entre outubro e dezembro do ano passado. É o 18º mês consecutivo de crescimento do consumo familiar no país. Este item teve participação de 60,9% na formação do PIB, o que significa R$ 412,3 bilhões em valores absolutos.

O consumo do governo registrou alta de 5,8% no primeiro trimestre deste ano, se comparado a igual período em 2007. Em relação ao último trimestre de 2007, o consumo do governo aumentou 4,5%.

As importações de bens e serviços --mais um indicativo da alta do consumo-- cresceram 18,9% no trimestre, representando R$ 83,9 bilhões. Já as exportações somaram R$ 79,2 bilhões, queda de 2,1% rente ao 1º trimestre de 2007.

Arte Folha Online
Comentários dos leitores
Felipe Santos (147) 10/07/2008 08h54
Felipe Santos (147) 10/07/2008 08h54
SAO PAULO / SP
Sr. Carlos Lobitsky a inflação tem suas causas no preço do petróleo e commodities, mas temos a demanda interna pressionando-a também, já que o Brasil sempre teve gargalos no seu meio produtivo. Nunca conseguimos crescer sem inflação por causa destes gargalos. O sr. parece entender de política, então me diga uma política tomada pelo governo para o crescimento sustentável do país. A única coisa feita até agora foi a manutenção na taxa de juros que é totalmente independente do governo. Agora, não tivemos a tão falada reforma tributária, os investimentos necessários para tornar o país eficiente não estão sendo feitos e sim só usados como campanha política. Bolsa-família não faz país nenhum crescer, o que faz gerar crescimento é tornar nossas empresas competitivas para que estas contratem e não só dependam da taxa de juros. Nossa participação no mercado internacional só vem caindo e çom certeza não é só por causa do dólar. A questão não é jogar contra o governo é faze-lo abrir os olhos, pois outra oportunidade foi perdida. sem opinião
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Felipe Santos (147) 07/07/2008 08h37
Felipe Santos (147) 07/07/2008 08h37
SAO PAULO / SP
Agora vamos ver se o PT sabe administrar e governar mesmo, pois o cenário internacional mudou e como exaustivamente dito neste forum, o governo não aproveitou o momento bom da economia mundial para tomar decisões importantes para o Brasil, ao invez disto, só se gastou e se tomou medias com fins políticos, a única coisa feita foi a manutenção da taxa de juros. Poderiamos ter tornado a nossa industria eficiente, etc. O Brasil é tão frágil ainda que em poucos meses já se tem uma deterioração grande dos seus indicadores economicos. A inflação voltou, já se projeta crescimento abaixo da média da América Latina e toda aquela novela que já conhecemos e que tanto foi avisada e contada neste forum. sem opinião
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M Mig (195) 30/06/2008 21h25
M Mig (195) 30/06/2008 21h25
SAO PAULO / SP
Esse indice de crescimento é uma piada, já fomos passados para trás por varios paises considerados economicamente piores que o Brasil. Já ouvimos muitas histórias ou estórias sobre ter dinheiro para saldar a divida externa e recordes de arrecadação... mas na pratica ainda não vimos nada... só medidas com fins eleitoreiros e que não podem ser consideradas. Que tal investir em produção interna?? Afinal a melhoria no nivel de risco para investimentos extrangeiros tão festejada não pôs dinheiro no bolso do trabalhador.... mas investimentos internos sim... Alias, que o tal presidente olhar um pouco pelo trabalhador brasileiro ao invés de fazer tanta propaganda vã ?? 5 opiniões
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