Baixa renda deve liderar faturamento de cartões de crédito em 2009
DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online
Os consumidores de baixa da renda deverão ser os principais responsáveis pela expansão do mercado de cartões de crédito neste ano. Nem mesmo a ameaça de um quadro inflacionário e o cenário de aumento da taxa de juros deve prejudicar o desempenho deste segmento, que, nos últimos cinco anos, cresceu 142%, e deve ultrapassar, no final de 2009, o grupo das demais rendas na participação do faturamento da indústria de cartões.
Em 2007, o grupo de consumidores de baixa renda (renda familiar de até R$ 1.499, conforme definição da pesquisa Itaucard) respondeu por 47,8% do faturamento do mercado de cartões de crédito, contra 52,2% das demais rendas (renda familiar acima de R$ 1.500). Em 2006, os índices foram de 45,8% e 54,2%, respectivamente.
"Ao final de 2009 e começo de 2010, a baixa renda deve ultrapassar a de demais rendas na participação de faturamento em cartões. Eles [baixa renda] já são 65,1% do número de cartões emitidos", disse Fernando Chacon, diretor de marketing de cartões do Banco Itaú.
Entre 2003 e 2007 (base da pesquisa Itaucard, com dados do mercado), foi vendido o dobro de cartões para a baixa renda (60 milhões de unidades) em comparação com as demais rendas (32 milhões). No período, a quantidade de cartões para baixa renda saltou 111% e a de demais renda, 96%.
Em relação ao faturamento nos últimos cinco anos, enquanto a baixa renda anotou alta de 142%, o grupo de demais renda cresceu 85%, contra a taxa média do mercado, de 108%. Só em 2007, o faturamento da indústria de cartões de crédito com a baixa renda subiu 26,5% em relação a 2006, enquanto a do grupo de demais rendas, avançou 16,5%.
"A baixa renda tem puxado a expansão do mercado de cartões de crédito. (...) E será assim neste ano também. A penetração [de mercado] para este público ainda é muito baixa [cerca de 40% contra 60% para renda superiores]. A inflação e o desemprego são ameaças, mas ainda assim, deve ser o mercado de maior expansão neste ano", disse Chacon.
Oportunidades
Segundo o executivo, pesquisa realizada pela Itaucard com famílias de baixa renda (com e sem conta em banco, e não restrita a clientes do Itaú), em capitais e cidades do interior, apontou que esses consumidores utilizam o cartão de crédito, principalmente, para aproveitar ofertas, em emergências (compra de remédios em farmácias) e no parcelamento (de alimentos, roupas e bens duráveis).
"O mês não tem 30 dias para a renda do consumidor de baixa renda. Para a renda dele, o mês é mais curto e o cartão de crédito é importante para compensar a falta de dinheiro", explica Chacon, que aposta em um crescimento cada vez maior do uso dos cartões para o pagamento de alimentos, principal vilão da alta de preços no país desde o ano passado.
Segundo Chacon, a inadimplência entre os consumidores de baixa renda não é um problema. Ele lembrou que as taxas vêm em queda há três anos [o mercado não divulga índice de inadimplência] e que as financiadoras e bancos empregam suas ferramentas para evitar a falta de pagamento das faturas. Uma delas é o parcelamento da fatura --no momento do pagamento da fatura, e não da realização da compra--, que permite o consumidor a dividir sua dívida, independentemente de ainda não estar inadimplente.
"O parcelamento da fatura representa 20% do total do volume financiado na indústria. O valor da parcela sendo conhecido previamente é favorável. O que é ruim é o consumidor não saber o que vai pagar [por sua dívida]", avaliou o executivo.
Projeções
A expectativa do setor é que o faturamento com os meios eletrônicos de pagamento neste ano alcance R$ 223 bilhões, alta de 21,4% sobre o ano passado.
"Prevemos 21,4% de crescimento do faturamento neste ano. No primeiro semestre, a expansão será de 22,4%. Isso quer dizer que o mercado de cartão de crédito não deve crescer tanto no segundo semestre", afirmou.
Para Chacon, o crescimento menor no segundo semestre ocorrerá por conta da base maior de faturamento registrada na segunda metade do ano passado. Ele descartou que o mercado de cartões sofra reflexos negativos com a inflação e a taxa de juros maiores.
"O efeito da inflação não é negativo só para a indústria de cartões, mas devastador para o país. Há indícios de aumento de preços, mas o quadro inflacionário ainda não se configurou. Em momentos de apertos da economia, os meios de financiamento são mais necessários e se concentram mais riscos. Para a baixa renda, a perda do emprego é devastador. Mas não entendemos que o faturamento deva ser afetado. Mas estamos muito atentos", disse.
Caso o quadro inflacionário e de alta de juros se confirme, segundo Chacon, as financeiras e os bancos devem controlar a emissão de cartões de crédito. "O que tende a acontecer se a situação piorar é haver controle de limite de crédito."
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