Gasto público está no limite e asfixia a economia, diz ex-presidente do BC
EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília
O aumento dos gastos do governo foram apontados pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga como um dos fatores que impedem o Brasil de ter uma taxa de juros mais baixa do que em outros países emergentes.
"Não há banco central que consiga entregar o que se espera dele se não tiver apoio na área fiscal. É preciso trabalhar e controlar o gasto público. Estamos no limite", afirmou Fraga em audiência pública na Câmara dos Deputados.
Para ele, apesar da melhora nas contas do governo, que vem registrando superávits primários recordes (aumento da economia para pagar os juros da dívida), não é possível esperar mais por reformas nessa área. "Isso está asfixiando a economia."
Fraga afirmou que o país teria todas as condições para ter hoje uma taxa básica de juros em torno de 7% a 9% ao ano, abaixo do nível atual (12,25% ao ano).
"Passada essa fase conjuntural em que o BC está procurando impedir o aumento da inflação, o juro vai cair, e se o trabalho for aprofundado no campo fiscal, isso vai se consolidar."
Ele afirmou também que a desaceleração no ritmo de concessões de crédito deve ajudar o BC a controlar a inflação sem precisar aumentar ainda mais os juros. "Parte desse crescimento no crédito não vai continuar para sempre. Chega um ponto em que as pessoas não podem mais pegar crédito e isso vai facilitar a vida do Banco Central."
Fraga afirmou também que a alta taxa de juros preocupa mais do que a queda recente do dólar. "Eu gostaria de ver um juro mais baixo antes mesmo de ver um câmbio mais depreciado", disse Fraga, que, ao ser questionado pelos deputados, falou de vários temas econômicos.
Crise mundial
O ex-presidente do BC defendeu a utilização de um índice cheio como meta de inflação, como é hoje no Brasil, e recusou que se adote um sistema de núcleo, no qual se descarta o comportamento dos preços dos alimentos, por exemplo.
"Uma parte do problema de inflação mundial veio dos bancos centrais prestarem atenção no núcleo e se descuidarem dos índices cheios."
Fundo soberano
Fraga apoiou a criação de um Fundo Soberano com recursos do petróleo, mas disse que não há sentido em fazer essa poupança com dinheiro da dívida interna.
"Financiar com dívida interna é muito caro, mas se seguirmos o caminho que a Noruega seguiu, acho que deveríamos sim poupar esses recursos e formar um fundo."
Reservas
Em relação às reservas internacionais, que se aproximam dos US$ 200 bilhões, o ex-presidente do BC disse que esse número já está muito próximo de algo desejável. "US$ 200 bilhões dá impressão de ser bastante. Minha intuição é que estamos chegando próximos do número."
"Não vejo sentido, em um país que tem taxa de poupança baixa e câmbio flutuante, acumular um tanque de reservas de padrão asiático ou padrão Golfo", disse.
BC independente
Para Fraga, o próximo passo em relação à melhora nas regras sobre o funcionamento do Banco Central seria formalizar a sua autonomia. Ele afirmou que já teve dúvidas sobre a independência do BC e que ela, por si só, não trará resultados mágicos.
"É uma coisa limitada, que não permite devaneios e loucuras", afirmou. "Mas seria muito positivo. Se o Congresso tomar essa decisão, fará um bem para o país."
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