Fed interrompe cortes e mantém taxa de juros nos EUA em 2% ao ano
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
Após sete cortes consecutivos (entre setembro do ano passado e abril deste ano), o Federal Reserve (Fed, o BC americano) manteve nesta quarta-feira sua taxa de juros em 2% ao ano. O banco vem afirmando nas últimas semanas que irá combater as pressões inflacionárias na economia americana --o que foi entendido pelos analistas como sinal de alta da taxa neste ano--, mas os sinais de fraqueza podem dificultar a elevação dos juros.
Dos integrantes do Fed, nove votaram pela manutenção e um pela elevação da taxa. "Condições restritas de crédito, a contínua contração do mercado imobiliário e a alta nos preços da energia devem pesar no crescimento econômico nos próximos trimestres", avalia o Fed em comunicado divulgado após a reunião.
A inflação no país tem mostrado sinais de alta. O CPI (Índice de Preços ao Consumidor, na sigla em inglês) subiu 0,6% em maio, maior variação entre um mês e o mês anterior desde novembro de 2007 (em abril o índice havia registrado alta de 0,2%). O núcleo do índice (que exclui os preços de alimentos e energia) nos últimos 12 meses, no entanto, acumula alta de 2,3%, acima dos 2% considerados adequados pelo Fed.
| Arte/Folha Online | ||
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| Fonte: Federal Reserve |
Os preços dos combustíveis (em particular o da gasolina) e os dos alimentos afetaram o resultado: o preço médio do galão (3,785 litros) de gasolina no país passou de US$ 4; os preços na categoria energia subiram 4,4% e nos últimos 12 meses acumulam alta de 17,4%. Já os preços dos alimentos subiram 0,3% em maio e 5,1% em 12 meses.
No atacado, os preços não apresentaram um cenário melhor. O PPI (Índice de Preços ao Produtor, na sigla em inglês) teve variação de 1,4% em maio, ante 0,2% em abril. O preço médio da gasolina teve incremento de 9,3% em maio, contra uma queda de 4,6% em abril. O indicador geral dos preços de energia mostrou alta de 4,9%, maior desde novembro. Os alimentos subiram 0,8%, maior alta desde março.
Diante da pressão da inflação, o presidente do Fed, Ben Bernanke, já disse que o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto, na sigla em inglês, equivalente ao Copom no Brasil) "resistirá com firmeza a um agravamento das expectativas da inflação a longo prazo, já que isto poderia desestabilizar o crescimento e alimentar a própria inflação".
Os sinais de fraqueza na economia, no entanto, vêm se acumulando. O PIB (Produto Interno Bruto) cresceu apenas 0,9% no primeiro trimestre (dado revisado; antes da revisão, a expansão estimada era de 0,6%, mesma do quarto trimestre de 2007) deste ano, e a expectativa para o segundo trimestre é de um novo dado fraco. O mercado de trabalho também traz pouco alento: foram eliminados 49 mil postos de trabalho no país em maio, e a taxa de desemprego chegou a 5,5%, contra 5% em abril --variação entre um mês e outro não vista desde 1986.
A produção industrial caiu 0,2% em maio, ante um declínio de 0,7%, e a utilização da capacidade instalada caiu, de 79,6% em abril para 79,4% em maio, abaixo das projeções dos analistas (79,7%). Um nível de capacidade instalada muito elevado é um 'sinal amarelo' para pressões inflacionárias.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) estima que a economia americana crescerá 1% neste ano, após a revisão do desempenho do PIB no primeiro trimestre. Para 2009 a expectativa também aumentou, para uma expansão de 0,8%, contra a previsão de 0,6% feita em abril.
O mercado imobiliário também aumenta a preocupação sobre a economia. O Departamento do Comércio informou hoje que as vendas de casas novas nos EUA em maio caíram 3,3%, apontando uma taxa anualizada de 512 mil unidades vendidas. Foi a sexta vez nos últimos sete meses que o indicador apontou recuo ante o mês anterior. O preço médio dos imóveis residenciais novos em maio ficou em US$ 231 mil, com queda de 5,7% sobre o registrado um ano antes.
Outro dado preocupante foi o número de execuções de hipotecas e a taxa de inadimplência no país, que bateram recorde no primeiro trimestre. A taxa de imóveis com hipotecas em processo de execução atingiu 0,99%; já a taxa de inadimplência atingiu 6,35% (inadimplência é a categoria em que são incluídos pagamentos com atrasos de ao menos 30 dias). Segundo a MBA (Associação de Bancos de Hipotecas, na sigla em inglês), as duas taxas são as maiores da série iniciada em 1979.
A queda no mercado imobiliário causou uma crise no mercado de hipotecas de risco, que acabou por afetar o mercado de títulos de crédito de modo geral. Isso provocou uma onda de turbulência nos mercados financeiros, que ainda se faz sentir. A economia americana também foi afetada pela queda na atividade dos setores imobiliário e e construção, o que contribuiu para uma desaceleração da economia como um todo.
Livro Bege
No "Livro Bege" (documento composto de dados econômicos coletados nas 12 divisões regionais do banco) deste mês, o Fed considerou que a economia se aproxima do verão (inverno no Brasil) com um ritmo "em geral fraca", afetada pelos custos da energia e dos alimentos.
Segundo o documento, a economia tem mostrado um desempenho desanimado e preços de energia e alimentos em alta. Os preços altos desses dois itens elevam o risco de que a inflação se espalhe para outros campos e podem prejudicar o crescimento econômico geral.
Neste mês, o presidente do Federal Reserve de Boston, Eric Rosengren, disse que o banco deveria, no longo prazo, basear sua política monetária no índice geral de preços ao consumidor e não no núcleo do índice. "No longo prazo, em minha opinião, é a inflação geral --mais que o núcleo, que exclui os componentes mais voláteis, que são alimentação e energia-- a que deveria receber atenção na política monetária", disse Rosengren.
Recessão e confiança
"O Fed está em uma situação muito difícil", disse à agência de notícias Associated Press (AP) o professor de economia Sung Won Sohn, da Universidade Estadual da California. "A economia parece estar escorregando para uma recessão ao mesmo tempo em que a inflação vem piorando."
Com esse quadro, a confiança do consumidor americano vem caindo continuamente. Neste mês, o índice apurado pelo instituto privado de pesquisa Conference Board caiu para 50,4 pontos, o menor desde fevereiro de 1992. A expectativa de inflação ficou no mesmo patamar de maio, 7,7%. O índice geral já caiu mais da metade em relação ao patamar em que estava em julho do ano passado, 111,90 pontos.
Alguns analistas também criticam o "timing" do Fed nos cortes no ano passado, quando a crise das hipotecas de risco estava em seu auge (entre setembro e dezembro do ano passado, os juros recuaram de 5,25% para 4,25%), e isso forçou a um corte mais drástico neste ano --em janeiro, em uma reunião extraordinária, o Fed fez um corte de 0,75%.
"Se os responsáveis pela política monetária tivessem sido mais agressivos no quarto trimestre, o sistema financeiro e a economia não teriam chegado a esse ponto, e o Fed não teria de responder de modo agressivo", disse o economista-chefe do Moody's Economy, Mark Zandi, à rede americana de TV CNN.
"Não se pode recuperar o tempo perdido exagerando. O remédio das taxas baixas acabou se revelando tóxico", disse o diretor-gerente do Economic Cycle Research Institute, Lakshman Achuthan, à CNN. Segundo ele, os cortes de juros abriram caminho para a inflação, e que o banco não teria tido que ir tão longe com os cortes se não tivesse se arrastado no ano passado.
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