Meirelles diz que inflação vai além de alimentos e BC vai agir com vigor
EDUARDO CUCOLO
da Folha Online, em Brasília
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, disse nesta terça-feira que a instituição vai agir com "vigor" para evitar que a inflação dos preços no atacado contamine toda a economia brasileira.
Em audiência na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos) do Senado, Meirelles rebateu a tese de que a inflação estaria concentrada apenas nos preços dos alimentos e de outros produtos básicos no mercado internacional, como o petróleo. Para ele, o aumento do consumo das famílias brasileiras é outro fator que ajuda a puxar os preços para cima.
Essa avaliação é contrária ao entendimento que há dentro de algumas áreas do governo, que avaliam que a inflação está ligada aos alimentos e que não há descompasso entre demanda e oferta de produtos.
"Mesmo tirando alimentos e preços administrados, nós ainda temos um índice de 5,38% [inflação medida pelo IPCA em 12 meses, cuja meta é de 4,5%]", afirmou. "Existe de fato uma inflação internacional. Mas existe uma inflação que cresceu no Brasil, fortemente influenciada pelos alimentos, sim, mas também em um ambiente de demanda forte."
Ilusão
Meirelles voltou a afirmar que o BC vai atuar para que a inflação caminhe para o centro da meta de 4,5%.
"Os preços no atacado estão subindo, o BC e o governo estão tomando medidas para evitar que, em uma economia muito aquecida, haja repasse dos preços do atacado para o varejo."
O presidente do BC disse também que o aumento da taxa básica de juros tem como objetivo garantir o crescimento da economia sem a disparada da inflação, o que evitaria uma queda no poder de compra do trabalhador.
"É uma ilusão pensar que a inflação mais elevada não vai levar a uma queda da atividade econômica, pois vai levar a uma queda no poder de compra do trabalhador", afirmou.
"O BC entende que não há vantagem em se conviver com taxas de inflação elevadas. A sociedade deve ter segurança e não deve ter dúvidas de que o BC saberá responder vigorosamente à mudança nos cenário de inflação."
Sobe e desce da Selic
Meirelles afirmou que o aumento recente da taxa básica de juros (Selic) não é fruto apenas de vontade do BC, mas de uma necessidade de segurar a inflação e evitar que os juros no mercado financeiro disparem com a descrença no combate inflacionário.
Neste ano, a Selic já subiu de 11,25% ao ano para 12,25% ao ano. A expectativa do mercado financeiro, segundo pesquisa do BC, é que termine 2008 em 14,50% ao ano.
"No momento em que a expectativa de inflação se deteriora, as taxas de mercado sobem antes da Selic. As pessoas pensam que bastaria o BC deixar a Selic mais baixa. Aí aumenta a inflação, aumenta a expectativa de inflação e sobem as taxas de juros no mercado, o que impacta a atividade econômica."
O presidente do BC disse também que "subir e descer juros" é um movimento normal e que acontece em todas as economias do mundo. O importante seria o fato de a Selic estar hoje em patamares bem inferiores do que no início da década.
"Nós estamos fazendo isso em patamares menores através da passagem dos anos. Estamos trabalhando com nível de renda, emprego e produção cada vez maiores e níveis de taxas de juros cada vez menores."
Atividade
Meirelles destacou que vários dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) recentemente mostram que a economia brasileira continua aquecida.
O presidente do BC utilizou a palavra "robusta" várias vezes para descrever os números do comércio divulgados hoje, para falar sobre o aumento no consumo das famílias e também para comentar os números do PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país) no primeiro trimestre deste ano.
"Nós temos um comércio crescendo a taxas muito robustas", afirmou. "Há ainda, até o primeiro trimestre, um crescimento robusto do consumo das famílias."
No primeiro trimestre de 2008, o PIB cresceu 5,8% em relação ao mesmo período de 2007. A demanda interna cresceu 8,5% na mesma comparação e consumo das famílias, 6,7%.
Leia mais
- Alta de preço dos alimentos impulsiona receitas de supermercados
- Meirelles diz que vendas do comércio crescem a taxas robustas
- Meirelles diz que crise nos EUA tende a se prolongar
- Meirelles diz que inflação voltará para o centro da meta em 2009
- Economistas prevêem inflação no limite da meta em 2008, diz pesquisa do BC
Livraria da Folha
- Coleção "Biblioteca Valor" explica principais conceitos de economia
- Jornalista explica em livro papel do sistema financeiro; leia capítulo
- Conheça os alimentos do futuro
- Livro ensina famílias a organizar o orçamento da casa
Especial

