Brasil pode esperar até 4 anos por melhor acordo de Doha, diz Amorim
da France Presse, em Genebra
O Brasil está disposto a esperar três ou quatro anos para obter um melhor acordo do que o negociado atualmente na OMC para a liberalização do comércio mundial, afirmou neste sábado o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
Amorim considerou que um fracasso da reunião ministerial que será iniciada segunda-feira na sede da OMC (Organização Mundial do Comércio) em Genebra adiaria a conclusão de um acordo de livre comércio em três ou quatro anos.
Mas o ministro brasileiro afirmou que este novo atraso nas complicadas negociações da Rodada de Doha não representaria algo negativo: "Se esperarmos, obteremos um acordo melhor que este', disse o ministro brasileiro em uma entrevista coletiva à imprensa na cidade suíça.
Já o diretor da OMC e organizador da reunião que será aberta na segunda-feira, Pascal Lamy, depositou suas esperanças em uma conclusão ainda neste ano da Rodada de negociações lançada em 2001.
"A opinião pública muda em nosso favor", explicou o ministro brasileiro, ao se referir aos subsídios agrícolas dos países ricos, que aumentam os preços mundiais e prejudicam os agricultores dos países em desenvolvimento.
Amorim, que desde o início das negociações desempenha o papel de porta-voz das nações emergentes, acusou os países desenvolvidos de não abrir suficientemente seu setor agrícola e de exigir muitas mudanças aos países do Sul.
"Não se pode tirar o máximo dos mais fracos e dar somente o mínimo em troca", considerou o chanceler brasileiro.
A reunião de segunda-feira em Genebra, da qual participarão os ministros de trinta países, está destinada a superar as principais divergências que bloqueiam a Rodada de Doha --os subsídios agrícolas e as tarifas alfandegárias sobre os produtos agrícolas e industriais--, para que se possa avançar para a conclusão de um acordo global antes do final do ano.
O chefe de Estado francês e presidente interino da União Européia, Nicolas Sarkozy, considerou no final de maio que o bloco não havia obtido "nada" dos países emergentes no que diz respeito aos produtos industriais e serviços, enquanto que já haviam sido feitas muitas concessões em matéria agrícola.
A respeito desse ponto, Amorim argumentou que as bases do acordo que são negociadas atualmente obrigariam o Brasil a reduzir seus direitos alfandegários para a metade de suas linhas tarifárias (para os produtos importados) e que seus direitos mais elevados seriam reduzidos a um terço, de 25% a 35%.
Quanto aos serviços, o chanceler anunciou que o Brasil apresentará uma oferta durante uma conferência prevista para quinta-feira entre os países envolvidos neste setor, depois de três dias de negociações dedicadas à agricultura e aos produtos industrializados.
O chefe da diplomacia brasileira classificou de "mito" a crença de que a questão agrícola já está fechada e que a OMC só está à espera de que os países do Sul demonstrem sua boa vontade em relação aos produtos industrializados para que se alcance o acordo esperado.
"Ainda resta muito a fazer na agricultura", ressaltou Amorim, citando o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, ("Uma mentira repetida muitas vezes se torna uma verdade").
O chanceler, que neste sábado se reuniu com Pascal Lamy, disse que pediu para que este desse tempo suficiente aos Estados para que possam negociar eventuais mudanças nos projetos de acordo sobre a mesa.
"Do contrário, corremos o risco de repetir o cenário de Cancun", advertiu, em referência à conferência ministerial da OMC realizada em 2003, que serviu apenas para evidenciar um estéril confronto entre Norte e Sul.
Amorim encerrou sua entrevista coletiva à imprensa com um sinal de esperança, ao assegurar que havia ido a Genebra para "obter um acordo".
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