EUA dizem ser preciso abandonar retórica e prosseguir com Rodada Doha
VINICIUS ALBUQUERQUE
da Folha Online
A representante comercial dos EUA, Susan Schwab, desfez hoje a imagem de que o comentário do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, sobre o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, serviria para desviar a atenção do foco, que é a retomada das negociações da Rodada Doha.
Comentário: Declaração infeliz expõe má vontade em negociar
"Esta não é a hora nem a semana para cair de novo em retórica ultrapassada --destinada a perpetuar velhas divisões e criar outras novas", disse Schwab, durante entrevista no primeiro dia da retomada das negociações da Rodada Doha de liberalização do comércio mundial. "Estamos esperando para ver contribuições de outros, inclusive dos mercados emergentes mais significativos" para que se chegue a uma conclusão bem sucedida da rodada, afirmou.
Saiba mais sobre a OMC e a Rodada Doha
Neste sábado (19), Amorim comparou a resistência dos países ricos em negociar com a atitude do chefe da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels --o ministro lembrou que, em sua estratégia, Goebbels dizia que uma mentira contada muitas vezes acaba sendo aceita como verdade.
| Efe |
![]() |
| Chanceler brasileiro, Celso Amorim, e representante dos EUA, Susan Schwab |
Schwab --que é descendente de sobreviventes do holocausto-- foi a primeira a reagir, através de seu porta-voz Sean Spicer. Ela disse que "no momento em que tentamos encontrar um resultado bem sucedido para as negociações, esse tipo de declaração é altamente infeliz". "Para alguém que é ministro de Relações Exteriores, ele devia estar mais atento para alguns pontos sensíveis". Spícer ainda afirmou: "[Amorim] fazer declarações desse tipo é incrivelmente errado. Elas são insultuosas."
Amorim pediu desculpas ontem pela declaração, mas sustentou que "repetir uma distorção faz com que as pessoas acreditem que ela é a verdade".
O diário americano "The Wall Street Journal" disse em um artigo que a declaração de Amorim é "absurda e realmente preocupante, vinda de um diplomata moderado".
Já o jornal americano "The New York Times" diz que a rodada está viva "através de aparelhos". O diário diz que a Índia e o Brasil "se recusam a reduzir suas tarifas devido ao medo das economias movidas a exportações, como a China".
O jornal "The New Zealand Herald" disse que a declaração de Amorim é "potencialmente um incidente diplomático". "O comentário motivou uma pronta resposta dos EUA, cuja representante comercial, Susan Schwab, é filha de sobreviventes do holocausto".
Negociações travadas
Por mais inoportuno que tenha sido o comentário, as negociações comerciais na Rodada Doha já estavam estagnadas muito antes desse episódio. A obstrução de fato é causada pela dificuldade que o governo norte-americano tem de enfrentar o lobby agrícola --um dos mais poderosos do país-- e cortar os subsídios aos produtores do país. Tanta atenção a um comentário mal colocado seria uma forma de desviar o foco do que realmente é o caso em Genebra: evitar que a rodada seja declarada oficialmente morta --como disse o prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz, em seu livro "Globalização: Como Dar Certo".
No sábado, Amorim disse que os líderes dos países ricos se baseiam em fórmulas diferentes de redução de alíquotas ao se referir às negociações, o que daria a entender que as concessões que poderão fazer em agricultura são muito maiores que as que os países em desenvolvimento estão dispostos a aceitar no capítulo industrial. "Essa é uma afirmação sob medida para aqueles que não querem fazer sua parte em agricultura", afirmou.
Ele disse ainda que é um "mito" a crença de que a questão agrícola já está fechada, e que a OMC só está à espera de que os países do Sul demonstrem sua boa vontade em relação aos produtos industrializados para que se alcance o acordo esperado. "Ainda resta muito a fazer na agricultura", ressaltou --prevendo que um fracasso da reunião ministerial iniciada hoje pode adiar a conclusão de um acordo de livre comércio em três ou quatro anos.
Leia mais
- Brasil pode esperar até 4 anos por melhor acordo de Doha, diz Amorim
- Banco Mundial diz que acordo em Doha deve acontecer "agora ou nunca"
- Lula diz ter esperanças por êxito da Rodada Doha
- Rodada Doha neste ano é possível, mas difícil, diz Amorim
- França critica Brasil e China por dificultar acordo na OMC
- Entenda o que é a Rodada Doha
Livraria da Folha
- Livros da "The Economist" explicam termos essenciais de economia e negociação
- Livro ensina como se preparar para obter sucesso em negociações
- MBA compacto mostra como importar e exportar de forma segura
- Folha Explica o dólar, a especulação financeira e o euro, veja capítulos
Especial



avalie fechar
Celso Amorin tá mau hein? Pede pra sair!
avalie fechar
Nisso pelo menos a Argentina, mesmo com mil problemas, está mil anos na nossa frente.
Comparem a história da política externa brasileira com a da Argentina. Eles sempre foram mais resistentes, enquanto nós, ou melhor, nossas elites, sempre mais vendidas.
Vocês já leram "Germinal", de Émile Zola, escrito na efervescência econômica e social francesa?Pois bem, o patrão tentava negociar com os trabalhadores seus salários. Sempre na posição do mais forte, tentava justificar que "sua posição" era benéfica para o mundo dos negócios. Era melhor os trabalhadores aceitarem as propostas ao perder o emprego.
No meio dos trabalhadores havia um líder, esperto e forte. O patrão, assim q percebeu q o líder era uma ameaça passou a cooptá-lo. O líder virou capataz em troca de merrecas e tentava convencer os colegas era melhor ceder do que lutar.
O Brasil faz a mesma coisa. Engana os países vizinhos, pois sabe que ele, por ser o mais forte da região, será o menos prejudicado. Da mesma forma, se vende com facilidade aos interesses dos EUA, na tentativa de ganhar algo com isso. [2]
avalie fechar