Brasil e Índia defendem postura protecionista de suas indústrias
da Efe, em Genebra (Suíça)
O Brasil e a Índia defenderam nesta quarta-feira --terceiro dia da retomada das negociações da Rodada Doha de liberalização comercial, em Genebra (Suíça)-- uma posição protecionista de seus mercados industriais diante da ofensiva dos países desenvolvidos, que pedem uma maior abertura.
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"Os países em desenvolvimento têm indústrias micro e pequenas. Não devemos esquecer que os países emergentes lutam para poder se industrializar, e muitos outros em desenvolvimento não puderam se industrializar por causa dos atuais fluxos comerciais", disse o ministro indiano do Comércio, Kamal Nath, ao lado do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.
"Temos que conseguir que qualquer resultado [da rodada] leve em conta a industrialização dos países em desenvolvimento", acrescentou o ministro indiano.
"Lembremos que buscamos e queremos uma rodada do desenvolvimento", acrescentou Amorim.
Os dois ministros responderam, assim, aos reiterados pedidos dos países desenvolvidos que solicitam às nações pobres e emergentes que façam um gesto e abram mais seus mercados industriais.
Os países em desenvolvimento argumentam que já estão fazendo concessões suficientes e lembram aos ricos que suas incipientes e frágeis indústrias estarão em perigo se reduzirem de forma drástica as tarifas.
Conscientes dessa postura, os países desenvolvidos pedem que pelo menos seja incluída no acordo uma cláusula de anticoncentração --que limitariam o nível de flexibilidade com o qual os países em desenvolvimento poderiam proteger determinados setores da indústria na hora de aplicar os cortes de tarifas. Os países emergentes rejeitam a proposta.
"A anticoncentração não está no acordo marco. Todos os países em desenvolvimento devem proteger as indústrias micro e pequenas, e, se isso impede o acordo, pois assim será", disse Nath.
Celso Amorim foi um pouco mais cauteloso, mas deixou claro que o que foi possível até agora foi graças à unidade dos emergentes. "Todos os senhores que acompanharam a rodada todos estes anos sabem que nunca estivemos onde estamos hoje, e isso é graças ao G20 [grupo de países emergentes liderado por Brasil e Índia] e a nossa unidade", disse.
Subsídios
No setor agrícola, os EUA propuseram ontem estabelecer para seus pagamentos de subsídios aos agricultores americanos um teto de US$ 15 bilhões por ano. O valor foi considerado muito alto por Amorim. "Poderíamos iniciar negociações se eles chegarem ao nível mais baixo contemplado. Dentro do politicamente viável, US$ 13 bilhões se aproxima do razoável", afirmou o ministro.
"Mostramos [aos Estados Unidos] que a proposta é o mesmo que duas vezes o que eles gastaram este ano e mais ou menos US$ 2,5 bilhões mais que a média [dos subsídios concedidos] desde 2002, incluindo 2008", disse.
Bom sinal
Para Amorim, a intensidade das reuniões de ontem foi um bom sinal da disposição geral para se chegar a uma conclusão. "Alguns podiam ter ido embora, mas todo mundo continuou aqui negociando", disse. O comentário contrasta com a avaliação feita pelo ministro na segunda-feira (21), quando as negociações foram retomadas: ele classificou o primeiro dia do encontro como "totalmente inútil". "Sem surpresas, mas também sem idéias. Estamos no mesmo ponto anterior da reunião", afirmou.
Comentário: Declaração infeliz expõe má vontade em negociar
O primeiro dia também foi marcado pelas críticas da representante comercial americana, Susan Schwab, feitas ao comentário de Amorim, que no sábado (19) comparou a resistência dos países ricos em negociar com a atitude do chefe da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels. O ministro lembrou que, em sua estratégia, Goebbels dizia que uma mentira contada muitas vezes acaba sendo aceita como verdade.
Mais cedo, ela desfez a imagem de que o comentário de Amorim sobre o chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, serviria para desviar a atenção do foco, que é a retomada das negociações da Rodada Doha. "Esta não é a hora nem a semana para cair de novo em retórica ultrapassada --destinada a perpetuar velhas divisões e criar outras novas", disse. "Estamos esperando para ver contribuições de outros, inclusive dos mercados emergentes mais significativos" para que se chegue a uma conclusão bem sucedida da rodada, afirmou.
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