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Dinheiro
28/07/2008 - 17h25

Negociações de Doha entram na etapa final e tensão aumenta na OMC

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da France Presse, em Genebra
da Folha Online

A tensão aumentou nesta segunda-feira na OMC (Organização Mundial do Comércio), com Estados Unidos, Índia e China se acusando mutuamente de bloquear a conclusão de um acordo, no início da segunda semana de discussões sobre a Rodada Doha de liberalização do comércio mundial.

"O maior problema é manter o sangue-frio", declarou o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, na abertura de uma reunião das sete maiores potências comerciais do planeta (Estados Unidos, União Européia, Brasil, Índia, Japão, Austrália e China).

Apesar das advertências do diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, de que "a hora está passando e chegou a hora de mostrar flexibilidade", as sete potências não conseguiram amenizar suas divergências para finalizar sete anos de negociações sobre a liberalização do comércio.

"Estamos muito preocupados com a orientação que tomaram dois países", acusou a representante americana para o Comércio, Susan Schwab.

Entenda o que é a Rodada Doha

"Estávamos sexta-feira no caminho de uma conclusão frutífera da rodada de Doha, e estamos agora em uma situação em que um dos países voltou atrás nos compromissos que assumiu", criticou.

Um pacote de propostas sobre a agricultura e os produtos industrializados apresentado sexta-feira por Lamy foi aprovado pela maioria das grandes potências comerciais. Entretanto, a Índia não concordou com o texto, assim como vários países emergentes preocupados com suas indústrias ou seus agricultores.

A China aderiu sábado à posição da Índia. Pequim avisou que pretende proteger sua produção de arroz, de algodão e de açúcar, produtos sobre os quais se recusa a reduzir suas tarifas aduaneiras.

"Não estamos bloqueando as negociações", afirmou o ministro indiano do Comércio, Kamal Nath, criticando os Estados Unidos, que segundo ele "querem multiplicar por dois os subsídios concedidos atualmente". "O que os americanos falam é: "queremos ter o direito de dobrar nossos subsídios, mas não vamos triplicá-los. O que vocês dão em troca?'", denunciou.

No fim da tarde desta segunda-feira, Nath se disse "ainda otimista" sobre a conclusão das negociações, lamentando a falta de avanços em setores como o algodão, os subsídios que prejudicam a liberalização do comércio e a cláusula de salvaguarda.

Pequim, por sua vez, se insurgiu contra os ataques americanos. O embaixador chinês na OMC, Sun Zhenyu, criticou o fato de Washington não ter assumido "o compromisso de reduzir de forma significativa os subsídios sobre o algodão".

Estes subsídios "afetaram drasticamente os produtores de algodão nos países emergentes", denunciou.

"Consideramos que os Estados Unidos não podem discutir com os países emergentes sobre as tarifas impostas ao algodão enquanto não eliminam os subsídios", disse o embaixador chinês.

A França, que exerce atualmente a presidência da União Européia (UE), informou que não assinará o atual projeto da OMC, evocando "a defesa de nossos interesses industriais europeus frente aos países emergentes".

Em Roma, o chefe do governo italiano, Silvio Berlusconi, confirmou "a preocupação da Itália com a ausência de progressos sobre a questão das menções geográficas dos produtos assim como sobre a o aceso aos mercados industriais dos países emergentes".

"Voluntários"

Nove países da União Européia --os mais contrários às propostas de Pascal Lamy-- se reuniram na noite desta segunda-feira em Genebra para tentar estabelecer uma posição comum, informou uma fonte diplomática italiana.

A reunião conta com a presença dos negociadores da Itália, da França, da Irlanda, da Polônia, da Hungria, da Grécia, de Portugal, da Lituânia e de Chipre.

O porta-voz do ministro delegado ao Comércio italiano Adolfo Urso disse que estes países se batizaram o "clube dos voluntários", e que a reunião da noite desta segunda-feira é uma reunião política antes da reunião do conselho (dos ministros europeus do Comércio) de amanhã (terça-feira).

Segundo uma fonte italiana, "muitas nuvens pairam sobre as negociações, principalmente sobre a questão do acesso aos mercados dos países emergentes como a China, a Índia e o Brasil".

A proposta apresentada por Lamy foi considerada pelo grupo "muito desequilibrada, com uma Europa que dá muito, talvez até demais, e que obtém pouco".

"Traição"

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o Brasil aceitou a série de medidas propostas por Lamy e classificou de "grande passo" na direção de um acordo as discussões desta sexta-feira em Genebra para destravar a Rodada Doha, sobre a liberalização do comércio mundial.

"O Brasil é o primeiro país a aceitar o texto de Pascal Lamy", disse o ministro na sexta-feira (25). "Minha opinião sobre as chances de chegar a um acordo passaram de 50% a 65%", afirmou.

A imagem do Brasil ao aceitar a proposta recebeu crítica do jornal argentino "La Nación", que classificou a posição do país como uma "traição" frente aos demais membros do Mercosul. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou neste sábado (26) que a posição favorável do Brasil à proposta da OMC (Organização Mundial do Comércio) tenha criado um mal-estar seja com o G20 seja com a Argentina.

"O G20 não sairá rachado porque isso não faz parte da estratégia que montamos. Mas temos de respeitar as diferenças que existem entre os países (...) O Brasil não quebrou nenhuma solidariedade. Nós participamos do G20, queremos que um acordo seja do interesse do G20, mas há de se convir que dentro do grupo temos assimetrias, temos disparidades enormes entre os países", disse Lula.

Já Amorim negou que a aceitação da proposta pelo Brasil tenha criado um racha com a Argentina. "Eu tive hoje [sábado] uma reunião com o ministro [argentino das Relações Exteriores, Jorge] Taiana e não me pareceu que houvesse mal-estar", disse Amorim. "Embora sejamos sócios, irmãos, amigos, aliados, cada um tem sua cabeça, cada um joga com sua cabeça."

 

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