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Dinheiro
17/03/2002 - 07h25

Sem investimento, risco de apagão persiste

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FÁTIMA FERNANDES
da Folha de S.Paulo

O susto do apagão passou com o fim do racionamento de energia elétrica anunciado pelo governo. Mas, se depender do andamento dos projetos das termelétricas -usinas destinadas a expandir a oferta de energia-, o país corre o risco de ter enfrentar novamente o sufoco da falta de eletricidade já em 2004. Especialmente se são Pedro não ajudar.

Os projetos de instalação de termelétricas no Brasil não são poucos. Levantamento da Abdib (Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base) mostra que os investimentos previstos somam US$ 6,75 bilhões entre 2002 e 2004 para acrescentar mais 9.653 MW à capacidade do país -que hoje gera 75,4 mil MW.

Só que há dúvida, entre especialistas e investidores em energia, se esses projetos vão para a frente. O ânimo que se viu no ano passado para investir em termelétricas, como solução para minimizar o efeito da falta de água e, como consequência, da oferta de energia das hidrelétricas, já passou.

A Folha apurou que só as usinas termelétricas em fase final de operação estão com as obras andando e, mesmo assim, em ritmo lento. Os projetos que estavam no papel devem ir para a gaveta.

"Está todo mundo dando para trás, seguindo o caminho da Petrobras, que decidiu rever seus investimentos em termelétricas. Ficou no ar a sensação de que pode ter até super-oferta de energia no país. O investidor se retraiu", diz Ildo Sauer, professor de pós-graduação em energia da USP.

Os projetos de hidrelétricas, tocados em sua maioria pelo governo, já não serão afetados. Segundo a Abdib, as hidrelétricas deverão colocar no mercado mais 9.266 MW de 2002 a 2004. Mas os especialistas lembram que parte dessa energia será direcionada ao consumo próprio de indústrias.

O que está incomodando os investidores em termelétricas, segundo a Folha apurou, é o fato de eles não terem garantias do governo de remuneração do capital investido. Isto é, eles querem a segurança de poder vender energia o tempo todo ou de receber por ela mesmo sem operar.

"É impossível o governo dar essa garantia, pois às vezes vai precisar da energia das termelétricas, que é mais cara, e às vezes não", afirma Roberto Schaeffer, professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia) da UFRJ.

Dar essa garantia, diz ele, seria o governo aceitar jogar fora a água, usada pelas hidrelétricas, para utilizar a energia mais cara das térmicas, que usam combustíveis. Mais: se comprometer a elevar o preço da energia quando precisar.

"Falta regulamentação do governo para garantir ao investidor a venda da energia que ele vai produzir no país", diz Henrik Norström, diretor da ABB Equity Ventures, braço investidor da ABB, um dos sócios da Termobahia.

A Termobahia foi planejada para ter capacidade de gerar 450 MW e absorver investimentos de US$ 250 milhões. Em agosto, a primeira fase da usina será concluída (190 MW). Mas já não há mais data marcada para seu término. "Os próximos investimentos dependem da clareza das regras do governo para o setor de energia", afirma Norström.

A El Paso, que está no Brasil desde 97 para explorar, transportar e gerar energia elétrica a partir do gás natural, também decidiu diminuir o apetite para novos investimentos no país. "Estamos mais seletivos", diz Roberto Almeida, vice-presidente de relações institucionais.

Licença como desculpa
Alguns investidores ouvidos pela Folha que têm projetos em início ou só no papel admitiram que a demora na liberação de licenças ambientais para dar andamento às obras vale hoje como desculpa pelo atraso dos investimentos.

O suprimento e o preço do gás também preocupam os investidores em termelétricas. Primeiro, porque as usinas têm de estar próximas dos gasodutos e hoje só o gasoduto Brasil-Bolívia está em operação. Segundo, porque uma parte do gás vem da Bolívia e o preço, portanto, é dolarizado.

Os investidores se desanimaram ainda com a decisão do governo de interferir no MAE (Mercado Atacadista de Energia), criado para ser livre. "Os investidores achavam que iam ganhar com a escassez de energia e viram que não é bem assim", diz Schaeffer.

Com as chuvas, o preço da energia despencou no mercado livre. Todo esse desinteresse tem a ver com o sistema de base hídrica do país, já que 90% da energia gerada vem das hidrelétricas. "Um ano chove muito e outro, pouco. Isso faz o preço da energia oscilar."

Para ter idéia dessa variação, vale lembrar que no auge do racionamento o preço da energia chegou a perto de R$ 700 o MW/h no MAE. Hoje varia de R$ 4 a R$ 6.

O erro do governo brasileiro, para especialistas, foi tentar montar um modelo competitivo entre hidrelétricas e termelétricas. "Agora ficou claro que elas são incompatíveis. O governo deve planejar as obras e chamar a iniciativa privada a participar por licitações. Energia é algo sério para deixar nas mãos de investidores."

O ritmo mais lento das obras das termelétricas não deve afetar a oferta de energia em 2002 e 2003, segundo os especialistas, por causa das usinas emergenciais móveis que estão sendo importadas pelo governo para operar por um período de três anos.
 

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