Governo deve evitar ser voluntarioso com juros, diz ex-ministro da Fazenda
YGOR SALLES
da Folha Online
Um governo no Brasil não poderá agir mais com voluntarismo sobre as decisões do Banco Central sobre os juros sob o risco de perder popularidade, alertou nesta terça-feira o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.
Para ele, a atual fase de estabilidade econômica praticamente blindou o BC das influências governamentais, já que a atuação da autoridade monetária foi fundamental para obter essa tranqüilidade na economia do país.
"Passamos a ter um risco político do voluntarismo. Um governo poderia derrubar os juros interferindo no BC, mas correria riscos. A sociedade hoje é intolerante à inflação, não há mais aquela teoria que o crescimento da economia justifica inflação mais alta", disse Nóbrega durante seminário em São Paulo.
O "castigo" para o governante que planejar mudar esse status quo, disse o ex-ministro, será uma aprovação menor a seu governo. "Hoje, o presidente que deixa a inflação subir vai perder popularidade", disse.
Passos já dados
Para Nóbrega, o país vive um momento 'único' porque deixou para trás vários fatores que antes faziam o país sucumbir a quase todas as crises econômicas globais.
Entre esses fatores que atrapalhavam o país estão a instabilidade política, a imprevisibilidade da economia e a vulnerabilidade externa.
Segundo o ex-ministro, o país é bem mais estável politicamente, mais previsível no tocante da economia e com reservas internacionais que reduziram a vulnerabilidade externa.
Por isso, o ex-ministro não acredita que o Brasil deva ser atingido de forma importante na atual crise econômica global. "Não acho que teremos uma outra crise externa. Não é um problema o déficit em conta corrente (...) e as reservas internacionais são maiores do que a dívida externa", explicou.
Por outro lado, Nóbrega admitiu que a questão dos gastos públicos é um problema sério a ser resolvido --e de difícil solução, já que boa parte do orçamento federal possui vinculações obrigatórias criadas pela Constituição de 1988. "A margem de manobra hoje é muito baixa", reclamou. "Adquirimos consciência disso (...) mas não há no curto prazo como fazer um grande corte nos gastos."
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