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Dinheiro
21/09/2008 - 08h17

No século 17, tulipas deixaram Amsterdã à beira da bancarrota

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MAURÍCIO MORAES
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Um arranjo de tulipas custa hoje cerca de R$ 30. Mas, na Holanda do século 17, para comprar um só bulbo da flor, era necessário dispor de 24 toneladas de trigo. A conta é assustadora, assim como foi a quebradeira que se seguiu à primeira crise especulativa de que se tem notícia. Quase 400 anos depois, Wall Street vê algumas de suas instituições ruírem. Os tempos e as crises são outras, mas o "espírito animal" que faz as cotações alcançarem preços irreais continua o mesmo.

"Espírito animal" foi o termo usado pelo economista inglês John Keynes (1883-1946) para explicar a euforia que move os investidores em busca do lucro fácil proporcionado pelo mercado financeiro. Assim foi na crise de 1929 e assim foi na rica Amsterdã dos anos 1600. A exótica tulipa, vinda do Oriente, virou mania entre os holandeses, que passaram a colecionar e logo a disputar os bulbos.

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Tamanha valorização fez os produtores (e logo os intermediários) fecharem contratos futuros informalmente, os chamados "windhandel" (negócio de vento). A cada ano, o preço da tulipa se inflacionava e alcançava valores exorbitantes.
"Uma isca dourada fisgou tentadoramente um a um. Todos correram para os mercados de tulipas, como abelhas num pote de mel", descreveu Charles Mackay, num relato do século 19 que celebrizou a tulipamania, como ficou conhecida.

O que foi inicialmente uma vaidade dos ricos holandeses se tornou um negócio milionário. Mackay conta que um marinheiro bêbado passou seis meses na prisão depois de comer um dos valiosos bulbos, pensando se tratar de uma cebola.

Em 1637, a bolha estourou. "Foi um efeito manada", explica o professor Renato Colistete, da FEA-USP. "Os negociantes começaram a vender os contratos e o mercado fictício desapareceu." Assim como evaporaram as propriedades e tudo o que os holandeses empenharam na tulipamania. O relato de Mackay é controverso e muito do que conta pode ser lenda, ou seja, tão real quanto o valor de muitos títulos negociados Bolsas afora. Mas a história ilustra bem a crise que chacoalha Wall Street, tragando instituições de peso como o banco Lehman Brothers e virando a ideologia do livre mercado pelo avesso.

Assim como o governo americano já torrou US$ 1 trilhão para aliviar a crise (e deve gastar em breve outros bilhões), o governo holandês teve de intervir. Os contratos podres eram comprados por 10% de seu valor. Para Colistete, a atual intervenção "é surpreendente". Muito diferente de 1929, quando o governo Herbert Hoover assistiu de braços cruzados à erosão do sistema financeiro. Dinheiro público seria usado só depois, para pagar as frentes de trabalho num país em que 25% da população ficou desempregada.

Um dos efeitos da tulipamania foi a sofisticação do sistema financeiro e a criação de mecanismos como o mercado de opções. Colistete acredita que a atual crise também trará mudanças: "Haverá uma pressão por mais transparência", diz, já que houve uma oferta exacerbada de crédito ao setor imobiliário e os riscos não foram perceptíveis no início.

Sobre a crise atual, o professor não se arrisca, mas parece crer no presidente do Federal Reserve: "Ele está usando o conhecimento acumulado pelos estudos", brinca Colistete. Enquanto acadêmico, Ben Bernanke foi um especialista em Grande Depressão.

Comentários dos leitores
celso assis (77) 03/12/2009 10h03
celso assis (77) 03/12/2009 10h03
Falando ironicamente :
Estou indignado com este Sr Krugman, premio Nobel de Economia, com o que ele falou sobre o Brasil. Ele positivamente não sabe nada, e deveria fazer estágio com:
- certos comentaristas de tele jornais que foram outrora famosos, e boa parte de midia - influenciadores que foram influenciados por algum fator motivacional,
- nossos banqueiros e empresários em que só os otários acreditam,
- pessao ligado a Bovespa, Creci, Secovi que só falam o que lhes interessam.
Afinal de contas Sr. Krugman, nós temos a Copa de 2014, e Olimpiadas de 16, tb com apagões energéticos, aéreos, transito caótico, saneamento básico ruim, dengue, meningite, politicos, etc
Olha tb temos o pré-sal, que produzirá no final da década que ainda vais iniciar-se, o óleo mais "salgado" do mundo. Para extrai-lo vão ser necessário muitos dolares por barril, muitas vezes mais que nos outros Paises. Lógico que qto mais se gasta, menso se ganha.
Bem feito sr. Krugman, o Jornal da Band, e o Nacional boicotaram vc, e nada noticiaram sobre seus palpites furados.
E VIVA NÓIS
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Olmir Antonio de Oliveira (75) 03/12/2009 09h47
Olmir Antonio de Oliveira (75) 03/12/2009 09h47
A repeito da recuperação de mercados..... A dizer da econômia brasileira, no termo equilibrio, travessia, em termos econômicos um bom comparativo, uma ponte, com bons fundamentos (extrutura), tensionada, fortemente exigida, mas com capacidade para resistir, suportar "o uso" e "abusos". Com isto certamente possibilita um avanço significativo em termos econômicos, em ganhos em diversos niveis, um crecimento, uma melhoria de padrão geral, a formação de um novo conceito de solidez, de desenvolvimento como um todo. Imperativo o controle de gastos "em época eleitoral", os famosos desperdicios, as demagogias, erros, politicagem,propaganda enganosa. época que se faz nescessário ampliação de critérios, e cobranças com os gastos, em obras sem útilidade efetiva, e ou duradoura. Do história inicio de ano, época de férias.....atividades reduzidas, coisas se bem pensadas e organizadas podem dar bons resultados aos trabalhadores, empresas, consumidor, já no trimestre seguinte, cautela, controles, agilidade operacional, e de sistemas produtivos, ...... sem opinião
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Italo Martins (3) 03/12/2009 09h00
Italo Martins (3) 03/12/2009 09h00
Cássio,
A inflação de que você fala não é e não será factível, pois mesmo que se esteja aumentando a base monetária, depois da crise está ocorrendo uma desalavancagem dos agentes. Por outros lado, se a China seguir o que os países desenvolvidos estão desesperados para que ela faça (valorizar o Yuan), ai sim creio que teremos um processo inflacionário.
sem opinião
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