Em dia histórico, Bovespa fecha em baixa de 9,36%, a pior queda em nove anos
EPAMINONDAS NETO
da Folha Online
A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) fechou com sua pior queda dos últimos nove anos, em meio à concretização do pior pesadelo do mercado financeiro: a rejeição do pacote de resgate financeiro orçado em US$ 700 bilhões. Hoje, a Câmara dos EUA não aprovou o pacote, o que deve levar o Congresso americano a reformar o texto acordado ontem.
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"A queda de hoje não foi um exagero. Todo mundo esperava a aprovação do pacote. O problema é que logo pela manhã já começaram os rumores de que, mesmo aprovado, o pacote não seria suficiente para resolver o problemas. E nesse ponto, a rejeição [do projeto de lei na Câmara] abalou tudo", comentou Mariana Gonçalves, analista da Global Equity.
| Arte Folha Online | ||
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"Hoje de manhã, boa parte do mercado contava com uma melhora do ambiente, com a possível aprovação no Congresso. Para terça-feira, eu já não espero uma abertura positiva", acrescenta.
O termômetro da Bolsa, o Ibovespa, despencou 9,36% no fechamento e desceu para os 46.028 pontos. O giro financeiro foi de R$ 5,76 bilhões. A queda de hoje chega a superar o pregão registrado no dia 11 de setembro de 2001 --data dos atentados terroristas nos EUA.
Nos EUA, epicentro da crise financeira, a Bolsa de Nova York, que tem impacto global, registrou a pior baixa de sua história: um declínio de 6,98% (índice Dow Jones).
No câmbio, o mercado esperou cerca de nove anos para ver uma disparada da dimensão observada hoje: o dólar comercial avançou 6,21% e bateu R$ 1,966 (venda), a cotação mais alta desde setembro de 2007.
| Susan Walsh/AP |
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| Câmara dos EUA rejeitou o pacote de US$ 700 bi e provocou pânico no mercado |
Algumas das ações líderes da Bolsa tiveram quedas bruscas de forma pouco vista no pregão brasileiro. A ação da Petrobras, papel mais movimentado da Bovespa, retraiu 7,56%; a ação da Vale do Rio Doce amargou queda de 12,14%.
A Bolsa não registrou qualquer valorização para as 66 ações que compõem o seu principal indicador. No topo das perdas, a ação ordinária da Rossi Residencial sofreu baixa de 21,06%; a ação da BM&F-Bovespa caiu 20,21%, enquanto a ação da Sabesp perdeu 14,91%.
A Bovespa já abriu os negócios desta segunda-feira em queda, revelando o desconforto dos investidores com a demora na aprovação do pacote financeiro dos EUA. Em poucas horas, o mercado acionário começou a acelerar o ritmo de queda, sob desconfiança das dificuldades do plano na votação da Câmara, onde se concentravam boa parte dos opositores à proposta da Casa Branca.
Essa desconfiança se confirmou no início da tarde, quando a Câmara efetivamente rejeitou o projeto de lei, gerando pânico no mercado financeiro. Às 14h49, o mecanismo do "circuit-breaker" foi acionado quando as perdas superaram os 10%. A Bolsa retomou os negócios meia-hora depois, sem mostrar recuperação e chegou a afundar 13,8% no pior momento do dia.
"É claro que nesses momentos sempre há algum exagero. O problema é que o cenário ainda está muito nebuloso, e ficou ainda pior pelo o que está acontecendo na Europa. O mercado já começou a refletir um contágio ainda maior da economia européia [pela crise dos créditos "subprimes"]", afirmou Marcelo Mello, vice-presidente da Sul América Investimentos, pela manhã.
O fechamento das Bolsas asiáticas já sinalizava o mau humor dos investidores, principalmente com a queda de 4,3% da Bolsa de Hong Kong. Poucas horas depois, o encerramento das Bolsas européias confirmou a tensão dos investidores com o encaminhamento do pacote anticrise no Congresso.
Incertezas
O estresse do mercado financeiro já começou logo de manhã, com a notícia de que o pacote de US$ 700 bilhões somente seria totalmente votado na quarta-feira. Analistas também não apreciaram o fato de que o projeto de lei no Congresso "fatiou" a liberação dos US$ 700 bilhões pedidos pelo Tesouro dos EUA para resgatar o sistema financeiro.
Para piorar o cenário, o noticiário econômico europeu também contribuiu para azedar o humor dos investidores. O banco alemão Hypo Real Estate somente escapou da falência graças a um crédito de 35 bilhões de euros, garantido essencialmente pelo Estado alemão. O britânico Bradford & Bingley (B&B), também é um dos gigantes europeus do setor de hipotecas, também teve que ser salvo pelo governo local.
E nos EUA, o banco Citigroup, um dos maiores grupos financeiros do mundo e um dos mais atingidos pela crise das hipotecas, informou que irá adquirir as operações bancárias do rival Wachovia --quarto maior banco dos EUA--, com a assistência da FDIC (Corporação Federal de Seguro de Depósito, na sigla em inglês), órgão do governo que garante operações do setor bancário americano.
O impasse quanto à aprovação do pacote se arrasta deste a última quinta-feira (25), quando uma reunião na Casa Branca convocada por Bush (e que contou com os candidatos à Presidência dos EUA) terminou sem um acordo, depois que os republicanos rejeitaram a proposta do Tesouro. Horas antes, democratas e republicanos haviam sinalizado com um acordo para aprovação rápida do pacote no Congresso.
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