Dinheiro
30/09/2008 - 19h10

Entenda como a crise dos EUA afeta o Brasil

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da Folha Online

A crise financeira que começou há mais de um ano nos Estados Unidos como uma crise no pagamento de hipotecas se alastrou pela economia e contaminou o sistema mundial. Banco atrás de banco por lá apresentou perdas bilionárias, outros chegaram a quebrar. Na Europa também há vítimas. E no Brasil? Por aqui, a crise não afeta ninguém diretamente --os bancos dizem não possuir papéis ligados às hipotecas--, mas atinge vários setores por causa da forte contração de crédito.

Entenda como começou a crise nos EUA

As quebras e os problemas enfrentados por bancos até então considerados importantes e sólidos geraram o que se chama de "crise de confiança". Num mundo de incertezas, o dinheiro pára de circular --quem possui recursos sobrando não empresta, quem precisa de dinheiro para cobrir falta de caixa não encontra quem forneça. Isso fez cair e encarecer o crédito disponível. E numa economia globalizada, a falta de dinheiro em outro continente afeta empresas no mundo todo.

Marianne Armshaw/AP
Crise financeira começou com a concessão de créditos de alto risco no setor imobiliário
Crise financeira começou com a concessão de créditos de alto risco no setor imobiliário

Com a circulação de dinheiro congelada e o consumo comprometido, o resultado esperado é a contração das economias, uma vez que empresas, pessoas físicas e governos passam a encontrar dificuldade em financiarem seus projetos. Justamente para injetar liquidez (dinheiro nos mercados) os Bancos Centrais fazem leilões de moeda e criam linhas especiais de bilhões de dólares.

No Brasil, é exatamente esse o principal efeito da crise: a dificuldade em se obter dinheiro. Grandes empresas que dependem de financiamento externo passam a encontrar menos linhas de créditos disponíveis, afinal, os bancos têm medo de emprestar em um contexto de crise. Por conseqüência, com a dificuldade em captar no exterior, ficam comprometidos projetos de construção dessas empresas, que por sua vez gerariam empregos e renda ao país.

Até mesmo os bancos começam a sofrer com a dificuldade de captar recursos no exterior, o que deve fazer os empréstimos ficarem mais caros e mais difíceis também para as pessoas físicas. Por conta disso, as instituições de médio e pequeno porte já tiveram ajuda do governo brasileiro.

Para reduzir os efeitos da crise internacional, o BC (Banco Central) anunciou mudanças nos depósitos compulsórios das instituições financeiras, um dos instrumentos usados para controlar a quantidade de dinheiro que circula na economia.

Antônio Gaudério/Folha Imagem
Escassez de dinheiro em circulação dificulta investimentos de governos e empresas
Escassez de dinheiro em circulação dificulta investimentos de governos e empresas

Por meio do depósito compulsório, o órgão obriga os bancos a depositar em uma conta no próprio BC parte dos recursos captados dos seus clientes nos depósitos à vista, a prazo ou poupança. Assim, quando reduz o compulsório, o BC dá aos bancos mais dinheiro para emprestar aos seus clientes.

Ainda na esteira da contração do crédito, outra conseqüência da crise nos EUA é haver alguma desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. Isso porque o consumo das famílias e o investimento das empresas, dois dos principais pilares de expansão da economia nos últimos anos, cresceram justamente pela farta oferta de crédito. Com menos dinheiro, gasta-se menos, produz-se menos e o crescimento é menor.

Também serão afetadas as exportações do país, que devem cair porque os países compradores estão se desaquecendo e possuem menos dinheiro para comprar --e menos população com capacidade de consumir.

Por isso, o governo já estuda linhas especiais de financiamento. Entre as possibilidades está colocar mais dinheiro no Proex (Programa de Financiamento às Exportações) e garantir recursos para ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio), mecanismo que permite às empresas oferecer os dólares que receberão por suas exportações como garantia de empréstimos.

O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também já declarou que o banco de fomento conta com dinheiro suficiente até a primeira metade de 2009 para fazer face à escassez de crédito internacional.

Por fim, pesa a alta do dólar --em momento de crise, a cotação sobe porque a moeda americana, considerada um investimento seguro, tem mais procura. E o dólar mais caro encarece os importados, o que pressiona a inflação e reduz o poder de compra.

Stephen Cernin/Efe
Mercado de capitais de todo o mundo acumula perdas com a crise financeira
Mercado de capitais de todo o mundo acumula perdas com a crise financeira

Bolsa de Valores

Um dos reflexos mais visíveis da crise, porém, é a forte queda nos mercados acionários. Trata-se de um ciclo sem fim: com medo da crise financeira aumentar, os investidores tiram o dinheiro das Bolsas, consideradas investimentos de risco. Então, faltam recursos para as empresas investirem e a crise aumenta, o que faz o investidores tirarem mais dinheiro.

Ou seja, como a crise americana provoca justamente aversão ao risco, os investidores em ações preferem sair das Bolsas, sujeita a oscilações sempre, e aplicar em investimentos mais seguros. Além disso, os estrangeiros que aplicam em mercados emergentes, como o Brasil, vendem seus papéis para cobrir perdas lá fora. Com muita gente querendo vender --oferta elevada--, os preços dos papéis caem e os índices (que refletem os valores das ações) desvalorizam.

Comentários dos leitores
Chris Maria (236) 22/11/2009 11h08
Chris Maria (236) 22/11/2009 11h08
É certo que em vários aspectos Obama não tem conseguido furar o bloqueio e seguir em frente com seus nobres ideais. Isto, devido as fortes pressões que vem sofrendo de certas "fontes de poder" que movidas pela ganância, só enxergam o próprio umbigo. No entanto, no que se refere aos aspectos econômicos, cabe lembrar que não foi ele o responsável pela derrocada econômico-financeira. Aliás, para quem assumiu os EUA num colapso financeiro total, o seu governo está indo além das expectativas. Sabe-se bem que o governo americano se viu obrigado a intervir com altas cifras no mercado, socorrendo empresas e criando projetos públicos na tentativa de manter parte dos postos de trabalho, sem o que o cenário estaria ainda bem pior. Isso acarretou aumento do déficit público. Com a zona do euro com uma taxa de desemprego devendo chegar a 10,9% até o final de 2010. O Japão com uma estimativa de 5,7% no quarto trimestre deste ano, passando a declinar apenas a partir daí, mas, em ritmo lento, e assim por diante... Aos norte-americanos, só lhes resta ter paciência. Eles queriam o quê? Por terem consumido mais do que deviam e podiam, arrastaram a economia mundial pro buraco com seus títulos podres. Quanto ao fato dos "críticos comentarem" que "Obama não conseguiu obter concessões significativas em comércio e moedas de parceiros como a China". Neste último caso, por exemplo, também é bom lembrar que quando Bush deixou o governo, a China já era a maior detentora de títulos da dívida norte-americana e aos EUA lhes resta "dançar conforme a música". sem opinião
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Eduardo Giorgini (415) 21/11/2009 21h43
Eduardo Giorgini (415) 21/11/2009 21h43
"Obama pede paciência aos americanos na questão econômica"
Eleitorado Norte-Americano é exigente. Quase 1 ano de Obama e a popularidade esta caindo e nem precisou se envolver em escandalos de corrupção.
Parabéns aos Norte-Americanos.
[]s
Eduardo.
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Domingos Aparecido (135) 21/11/2009 09h56
Domingos Aparecido (135) 21/11/2009 09h56
RESPOSTA AO SR. CARLOS JOSÉ DOS SANTOS.
Prezado Companheiro virtual, vou fazer uma confissão: Sou Corinthiano há 60 anos, fico alegre quando o Ronaldo faz um gol, mais senti uma alegria maior ainda ao ler o seu comentário sobre esse famigerado FMI. Só acho que faltou você acrescentar em seu comentário que, hoje o Brasil tem mais de 20 milhões de pessoas (segundo o Reporter Record) morando em "CORTIÇOS" e nunca se viu na história deste país, a quantidade tão grande de vendas de carros de luxo, mansões, iates, etc. como estamos tendo agora.
Está escrito: 1Jo 2:15 - Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele.
Maranata.
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