Dinheiro
06/10/2008 - 14h41

Prejuízos e nacionalizações marcam crise financeira na Europa

Publicidade

da Folha Online

Prejuízos de bilhões de dólares e necessidade de intervenção governamental para evitar quebras em série em instituições financeiras, que poderiam acelerar uma recessão em escala global. Esses são os efeitos da atual crise financeira entre os bancos europeus --crise essa que tem suas raízes no mercado imobiliário dos EUA mas já se espalhou pelo mundo todo.

O mercado imobiliário dos EUA viveu um "boom" logo após a crise das empresas "pontocom", em 2001. A expansão no mercado imobiliário acabou por chegar a um nicho ainda não explorado: o de clientes "subprime", que representava um risco maior de inadimplência e que, por isso mesmo, prometia retornos mais altos.

Esses retornos atraíram instituições americanas e estrangeiras, que compraram esses títulos "subprime" das companhias hipotecárias e permitiram que uma nova quantia em dinheiro fosse emprestada, antes mesmo do primeiro empréstimo ser pago. Esse sistema gerou uma cadeia de venda de títulos.

Em um mercado financeiro cada vez mais integrado --efeito da globalização nos últimos anos--, o efeito do não-pagamento de um empréstimo na ponta (quem toma o empréstimo) gera um ciclo de não-recebimento por parte dos compradores dos títulos. Isso cria uma desconfiança generalizada que se espalha por praticamente todas as categorias de crédito. O resultado é uma relutância cada vez maior por parte das instituições financeiras em oferecer crédito, e o reflexo dessa desconfiança é a paralisia em curso nos mercados financeiros.

Muitas das instituições européias hoje beirando a falência acabaram, assim, com papéis "podres" (de resgate muito improvável, ou seja, sob sério risco de calote) em suas reservas, adquiridos de instituições americanas.

Reuters
Dominique Strauss-Kahn, do FMI, pede coordenação contra crise financeira
Dominique Strauss-Kahn, do FMI, pede coordenação contra crise financeira

Um dos primeiros passos logo no início da dança da crise foi a decisão do banco francês BNP Paribas, em agosto de 2007, de congelar cerca de 2 bilhões de euros em fundos, citando as preocupações sobre o setor de crédito "subprime" (de maior risco) nos EUA --até então, um termo que não ocupava tanto espaço no vocabulário do mercado financeiro.

A EBF (Federação Européia de Bancos, em inglês) considerou o sistema bancário europeu sólido o bastante para passar pela crise financeira e garantir as economias de seus clientes. O diretor-gerente do FMI (Fundo Monetário Internacional), Dominique Strauss-Kahn, embora não exatamente pessimista, optou pela prudência e recomendou que as instituições bancárias européias se preparassem "para o pior" dentro do contexto de crise financeira.

Ele ainda pediu coordenação para enfrentar a crise --mesmo pedido já feito pelo presidente da Comissão Européia, o órgão executivo da União Européia (UE), José Manuel Durão Barroso. Além deles, França, Alemanha, Reino Unido e Itália já se dispuseram a impedir falências bancárias, além de definirem como será essa coordenação.

Tudo isso, no entanto, ainda é incipiente, preliminar: enquanto toda a ajuda disponível não vem, os bancos continuam a sofrer os efeitos da crise. A vítima mais recente entre as instituições européias atingidas pela crise foi o banco hipotecário alemão Hypo Real Estate (HRE). O governo alemão --um dos mais avessos à idéia de elaborar um pacote, aos moldes do americano, para salvar o sistema bancário europeu--, em parceria com outros bancos privados, fecharam um pacote de 50 bilhões de euros (cerca de US$ 69 bilhões ou R$ 141,3 bilhões) para salvar o Hypo.

Além disso, a chanceler alemã, Angela Merkel, sinalizou com uma garantia do governo a todos os depósitos bancários no país, que chegam a 568 bilhões de euros (cerca de R$ 1,5 trilhão). O governo alemão tenta, assim, se mobilizar para tentar evitar que a crise financeira se transforme em uma crise econômica.

Crise econômica é o que pode já estar às portas da França e da Irlanda. Previsões do Insee (Instituto de Estatística da França) divulgadas na sexta-feira (3) mostraram que o PIB (Produto Interno Bruto) do país terá queda de 0,1% no terceiro e no quarto trimestres, depois de ter retrocedido 0,3% no segundo. Dois trimestres consecutivos de retração do PIB indicam recessão.

Phil Noble/Reuters
Reino Unido confirmou a estatização do banco britânico Bradford & Bingley
Reino Unido confirmou a estatização do banco britânico Bradford & Bingley

A Irlanda, por sua vez, já detém o duvidoso título de primeiro país da zona do euro a entrar em recessão : o PIB do país no segundo trimestre teve uma contração de 0,5%, depois de uma contração de 0,3% no primeiro. O banco central irlandês já previu também que a recessão no país, a primeira que a Irlanda sofre em 25 anos, deve durar dois anos. Mesmo assim, ou talvez por causa disso, o governo irá garantir durante os próximos dois anos todos os depósitos bancários dos seis grandes bancos nacionais para "salvaguardar o sistema financeiro irlandês".

O suíço UBS, um dos primeiros e dos mais atingidos pelos efeitos da crise, teve no segundo trimestre deste ano um prejuízo de US$ 328,45 milhões, ligado ao setor de créditos "subprime" e já cortou 6.000 empregos desde o ano passado.

Raiz

A raiz dos problemas europeus tem em comum com a dos americanos as ligações com o mercado imobiliário: o alemão Hypo é um banco de hipotecas. No Reino Unido, o Northern Rock, uma das principais instituições hipotecárias do país, foi nacionalizado neste ano. Na Irlanda, que está em recessão, analistas vinham alertando para o estouro da bolha imobiliária no país, acarretada pela desaceleração no setor de construção civil.

O governo britânico já anunciou um pacote de investimentos e cortes de impostos para estimular o mercado imobiliário. Os preços dos imóveis no Reino Unido caíram cerca de 10,5%, segundo a Nationwide Building Society.

O governo britânico tenta evitar que a previsão da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) se concretize: a organização informou que a economia do Reino Unido deve registrar contrações de 0,3% e 0,4% nos dois últimos trimestres do ano, respectivamente --o que significaria mais uma das grandes economias mundiais no território da recessão.

O britânico Bradford & Bingley (B&B), uma das grandes operadoras de hipotecas do país, também foi nacionalizado, com parte de suas operações vendida ao espanhol Santander.

Bélgica, França e Luxemburgo também se uniram para salvar o banco franco-belga Dexia, com uma injeção de US$ 9,2 bilhões. O grupo bancário e de seguros belgo-holandês Fortis também se viu em meio a problemas causados perla crise. As ações do banco já caíram mais de 70% neste ano. Autoridades financeiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo anunciaram a nacionalização de parte do grupo, colocando cerca de US$ 18 bilhões para evitar o colapso da instituição.

No mercado de trabalho europeu no segundo trimestre, o número de postos de trabalho na zona do euro cresceu apenas 0,2% ritmo mais lento desde 2006. Os dados mais recentes sobre a produção industrial na região, referentes a julho, mostram uma queda de 1,7%; além disso, o dado de junho foi revisado para baixo --queda de 0,2% sobre maio e de 0,8% sobre junho do ano passado (as divulgações anteriores eram de estabilidade e queda de 0,5%, respectivamente).

A OCDE espera um crescimento de 1,3% para a zona do euro neste ano, contra 1,7% na projeção anterior. A economia da região se contraiu em 0,2% no segundo trimestre de 2008, em comparação aos primeiros três meses do ano.

Ação

Os governos dos quatro países europeus do G8 (Alemanha, França, Itália e Reino Unido) chegaram a um acordo para processar os responsáveis de bancos que precisem de ajudas públicas. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e dos primeiros-ministros do Reino Unido, Gordon Brown, e da Itália, Silvio Berlusconi, apelaram para uma "cúpula internacional o mais breve possível com os Estados mais interessados na reforma do sistema financeiro mundial".

A reforma que pretendem ver efetuada envolve a regulamentação de todas as instituições envolvidas com o sistema financeiro, e não só os bancos; uma modificação das normas contábeis para evitar bolhas especulativas; um controle político mais presente das instituições internacionais encarregadas de regular os mercados para garantir a coerência de suas ações; e a criação, em tempos de crise, de um grupo de trabalho entre supervisores do mercado, bancos centrais e Ministérios de Finanças.

Para Merkel, as propostas são "uma contribuição à confiança no sistema financeiro"; Brown, por sua vez, destacou que "a liquidez será assegurada para preservar a estabilidade e a confiança" do sistema bancário.

Comentários dos leitores
Cassio Tavares (532) 07/11/2009 22h14
Cassio Tavares (532) 07/11/2009 22h14
Marcos Hundsdofer, me desculpe se escrevi seu nome errado por ser um nome não muito comum a nós brasileiros. Mas o assunto é outro. Voce diz que a educação é fundamental para o desenvolvimento do país, qualquer que ele seja. Concordo plenamente. Acontece que o Brasil foi governado por 8 anos por um senhor que disse assim : ESQUEÇAM DE TUDO QUE ESCREVI. E aí. Um cidadão que fez curso superior, sabe falar, ingles, frances, polones, noruegues, chines, japones, paquistanes, mas não sabe portugues. É que ele fez uma confusão tão grande que no fim não sabia nem portugues. Como podemos ter uma educação de qualidade se o mais alto mandatário diz que é para botar fogo em tudo que escreveu e que vai um dia ( que Deus o tenha, apezar de ateu ) morre de uma doença rara : dor de cotovelo ou a conhecida, inveja.
E como tratar bem os aposentados se ele disse assim :
ESSES APOSENTADOS SÃO TODOS UNS VAGABUNDOS. Não tentem consertar o que ele disse porque senão a emenda vai ficar pior que o soneto.
sem opinião
avalie fechar
Cassio Tavares (532) 07/11/2009 20h03
Cassio Tavares (532) 07/11/2009 20h03
Antonio Gonçalves, obrigado seus elogios até porque aqui eu só divulgo dados e verdades irrefutáveis tomando por base aqueles já publicados pelo próprio governo anterior. Verdades são verdades e continuaram sendo verdades quer queiram ou não os que aqui me criticam. Para mim não faz a menor diferença. Se quizerem botar aí 100 vezes uma 1 estrelinha para mim, não estou nem aí. Eu admiro muito o Presidente Lula e tenho motivos de sobra para isso, até porque não votei nele nas eleições de 2.002 mas com muito orgulho coloquei meu no atual presidente em 2.006. pena que ele não pode se candidatar novamente em 2.010 até porque ele é um democrata que disse por várias vezes que para ele não existia essa hipótese, ao contrário do tão badalado presidente da Colombia Alvaro Uribe, que " arrancou " um 3° mandato no congresso daquele país, que só ele, e os " mui democratas " de lá sabem como. O curioso é que a Colombia é o maior produtor e exportador de cocaina do mundo. Será que há alguma ligação entre esses 2 fatos ? 2 opiniões
avalie fechar
celso assis (60) 07/11/2009 15h32
celso assis (60) 07/11/2009 15h32
COMO EU JÁ ESCREVI, ERROS AO DIGITAR É UMA COISA, AGORA ESCREVER TOTALMENTE ERRADO É INADIMISSIVEL.
VOLTEM PARA O CURSO BÁSICO SRS, ANTES DE TENTAREM CRITICAREM OU ELOGIAREM ALGUEM, E TB TENTEM FICAR CALMINHOS, POIS VCS SABEM QUE SUAS BOQUINHAS ESTÃO PARA TERMINAR
2 opiniões
avalie fechar
Comente esta reportagem Veja todos os comentários (4259)
Termos e condições
 

FolhaShop

Digite produto
ou marca