Dinheiro
06/10/2008 - 15h04

Crise de confiança se sobrepõe a pacote dos EUA e arrasa mercados

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DEISE DE OLIVEIRA
da Folha Online

O colapso dos mercados financeiros nesta segunda-feira tem uma única explicação, segundo analistas: crise de confiança. E diante disso, nem mesmo a aprovação do tão esperado pacote de US$ 700 bilhões para socorrer os bancos dos Estados Unidos conseguiu acalmar os investidores.

"A queda dos mercados se chama crise de confiança [no sistema financeiro]. A expectativa é que houvesse uma melhora nesta segunda-feira, após a aprovação do pacote dos Estados Unidos na sexta-feira, apesar da queda dos mercados naquele dia. Mas hoje, mesmo notícias boas passam a ser mal encaradas. O investidor começa a ver pêlo em ovo", explica Jason Freitas Vieira, economista-chefe da Uptrend Consultoria Econômica (ouça podcast com o economista).

Entenda a evolução da crise que atinge a economia dos EUA

Sebastião Moreira/Efe
Investidor deve evitar a Bolsa de Valores; ouça entrevista com economista
Investidor deve evitar a Bolsa de Valores; ouça entrevista com economista

Com a crise de confiança instaurada, mesmo notícias que, em tese, seriam positivas para a recuperação dos mercados, não têm esse efeito. Por exemplo, a informação da compra de um banco por outro, que deveria funcionar como um sinal de rearranjo saudável do sistema, desperta dúvidas sobre qual será o próximo banco a ter problemas. O mercado está contaminado pelo medo.

E nesse cenário, os mercados emergentes são os que mais sofrem. O temor ao risco afasta os investidores de mercados menos maduros. A Bovespa chegou a ter o pregão interrompido por duas vezes nesta segunda-feira, após registrar quedas superiores a 10% e 15%, respectivamente.

"A Bovespa sofre com a aversão ao risco. Os mercados emergentes apresentam mais riscos que o mercado americano. E a Bovespa está muito ligada a commodities que, com a perspectiva de recessão e menor demanda, passam por uma correção de preços [queda], após forte alta nos últimos meses. Os papéis de Vale e Petrobras, por exemplo, acabam sendo castigados", diz o analista Fausto Gouveia, da Alpes Corretora,

Ele pondera também que a ajuda de US$ 700 bilhões ao sistema financeiro dos Estados Unidos --que totaliza US$ 850 bilhões com a redução de impostos estabelecida do projeto-- não é suficiente para sanar o sistema financeiro.

"Mesmo com a ajuda de US$ 850 bilhões, não dá pra dizer que é um valor capaz de resolver o problema. Fala-se que só as gigantes hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac necessitam de US$ 15 trilhões para sanear suas dívidas. E é um mercado [dos EUA] alavancado por si só, com Bolsa subindo, pessoas no mercado de derivativo e com grande temor de liquidez nos grandes bancos. Todos os fatores derivam dessa questão [falta de liquidez, ou seja, de dinheiro em circulação]", avalia Gouveia.

Segundo o economista Fábio Fonseca, professor do Ibmec-RJ, o impacto da ajuda financeira americana não terá resultado no prazo de dois meses (ouça o podcast com o professor).

"O que nós estamos observando, desde a semana passada, é a aterrissagem dessa crise na economia real. As empresas compram e vendem a prazo --quer uma para a outras, quer para o consumidor final. Elas precisam de crédito e as instituições financeiras estão sem recursos", explica.

Ação e reação

As ajudas financeiras também são percebidas pelo mercado como uma iniciativa que "vai cobrir um lado e destampar outro". "Toda ajuda tem uma reação. As ajudas estão vindo, mas o dinheiro vai faltar em algum outro lugar ou pode gerar inflação. Se está tirando dinheiro público, vai faltar para infra-estrutura", adverte Gouveia, da Alpes Corretora.

O reflexo desses movimentos, diz o analista, é a desaceleração da economia mundial, diante da qual ninguém ganha. Nem o Brasil, em plena fase de pujança econômica, com a descoberta da camada pré-sal pela Petrobras e o crescimento do PIB brasileiro acima do esperado.

"Se o mundo ficasse mais pobre, poderíamos equacionar alguns problemas. No cenário de quebradeira, ninguém ganha. Se fosse crise passageira ou momentânea, se soubéssemos o que está acontecendo. Mas não se sabe o fim. Pela magnitude do problema, é difícil o Brasil levar vantagem. E o principal ponto de crescimento do Brasil é commodity, que vai ter valor menor nos próximos anos", alerta Gouveia.

Antídoto

Para que os mercados se acalmem, o analista diagnostica dados mais positivos e consistentes sobre a economia dos Estados Unidos.

"Precisamos de números de produção e resultados de empresas mais limpos. Está tudo muito ruim, com dados de empregos e de imóveis. Tem de ter essa melhora. Mas isso não vai ocorrer em uma semana, ou em um mês. Tem de reduzir volatilidade e voltar a trabalhar dentro de normalidade", diz Gouveia.

Mas e o que é normalidade para os dias de hoje? Segundo o analista da Alpes Corretora, não é o patamar dos quase 74 mil pontos registrados pelo Ibovespa --principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo-- há pouco mais de quatro meses. Em 20 de maio deste ano, o índice atingiu o recorde de 73.516 pontos.

"Vale garimpar ações no mercado que ficaram baratas e voltar a olhar para a Bolsa como o investimento de longo prazo. Mas é complicado vender [promover] Bolsa depois de quase quatro meses com queda de 10%", afirma.

Comentários dos leitores
Guilherme Lemmi (225) 23/11/2009 14h48
Guilherme Lemmi (225) 23/11/2009 14h48
Sobre a reportagem "Livre mercado é melhor modelo econômico apesar da crise, dizem bilionários", interessante, a Folha deveria perguntar para o 1 bilhao de pessoas que passam fome no mundo, se eles concordam com essa opinião.
Ah, esqueci, essas pessoas só passam fome porque nao tiveram a 'tenacidade' para vencer na vida....
sem opinião
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JOSE MOTTA (48) 23/11/2009 13h53
JOSE MOTTA (48) 23/11/2009 13h53
ISSO É PRIMEIRO MUNDO. POVO POLITIZADO,MAS PERIMERISSIMO MUINDO SÃO ALGUS PAISES EUROPEUS E CANADÁ. ESTAMOS LONGE DE CHEGAR LÁ. sem opinião
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Eduardo Giorgini (419) 23/11/2009 10h16
Eduardo Giorgini (419) 23/11/2009 10h16
Bom dia!
Bem, essa forma de analise discordo. O que Obama fez em relação à crise foi a única opção e não devido a possíveis competências.
Isso acontece no Brasil tambem. Dizem que foi Lula que salvou o Brasil da crise, mas o que ele fez foi nada além de manter a inércia da política brasileira e com um pouco de sorte, deu certo de a crise não pegar tão forte.
Só que ao contrário do Brasil, o eleitorado Norte Americano exige mais, ainda mais depois do desastre de Bush.
Um presidente so quebra um país de for um ditador, caso contrário, setores da sociedade ajudam na tomada de decisões e o setor privado segura as pontas (que é o que acontece nos Estados Unidos e tambem no Brasil)
Inclusive hoje, um presidente não "pesa" tanto na condução de uma boa política de governo.
[]s
Eduardo.
13 opiniões
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