Brasil deve aproveitar para mudar com a crise, dizem colunistas da Folha
da Folha Online
O Brasil deve fazer da crise financeira internacional uma oportunidade para mudar, segundo alguns dos principais colunistas de economia da Folha em debate na noite desta quarta-feira (22). Eles divergem quanto às condições e às direções, mas apontam para novas perspectivas para o governo e o mercado.
Participaram do encontro os economistas Alexandre Schwartsman, economista-chefe para América Latina do Banco Santander; Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista-chefe da Quest Investimentos e ex-presidente do BNDES (governo FHC); Paulo Rabello de Castro, vice-presidente do Instituto Atlântico e chairman da SR Rating, classificadora de riscos; e Yoshiaki Nakano, diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas e ex-secretário da Fazenda do Estado de São Paulo (governo Mario Covas). O mediador foi o também colunista do jornal, Vinicius Torres Freire.
Veja, neste videocast, como foi o evento.
Para Nakano, o período de crise, "em que o Brasil passa por um momento de contração da economia", deve apontar para uma perspectiva de longo prazo, com o país se voltando "para dentro". "O Brasil sempre pensou que para crescer precisa de dinheiro do exterior. A experiência de maior parte dos países mostra que financiamento se faz a longo prazo, com poupança doméstica", disse.
Paulo Rabello de Castro classificou a crise financeira internacional como um "momento histórico" e de "tamanho extraordinário". Mas, segundo ele, o Brasil não tem os mesmos problemas dos Estados Unidos e, portanto, não precisa dos mesmos remédios.
"Se o Brasil continuar querendo copiar a crise, vamos mesmo fazer a capitalização dos bancos. Não tivemos tempo de tomar o porre deles, e ficamos zonzos. O sistema financeiro [brasileiro] é altamente blindado. Jamais seria preciso a noticia da MP [que permite à Caixa e ao Banco do Brasil comprar participação em instituições financeiras públicas e privadas]. É óbvio que de tanto imitar o porre dos outros, vamos ficar zonzos", advertiu.
Para Alexandre Schwartsman, ainda que não exista uma crise sistêmica nos bancos, a injeção de dinheiro nas instituições financeiras é uma forma de evitar que a crise de confiança se alastre. "Se o cenário de crédito atual se reproduzir em 49 semanas, teremos uma grande recessão. Mas o problema de crédito está mais ligado à liquidez do que à solvência. Não vejo problema sistêmico nos bancos brasileiros, mas de liquidez. A compra de carteiras está começando a funcionar [fomentada por uma medida do BC]. A falta de Liquidez é muito menor. Não dá para achar que a situação vá demorar muito tempo", avalia Schwartsman.
Já Rabello de Castro tem duas hipóteses para o destino do Brasil com a crise. "Os remédios trilionários recentemente usados pelos BCs estão, no geral, equivocados ['por não saber quem está na outra ponta'] e serão a razão do aumento e da extensão e o sofrimento da crise. E o Brasil tem duas chances. Uma continuar como está, ou como sempre esteve. Outra, que o Brasil tem chance de mudar".
Uma das mudanças a ser incorporada pelo governo a partir da crise financeira, segundo Mendonça de Barros, diz respeito à política monetária do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central. Ele alertou para a queda das importações --especialmente de máquinas e bens de consumo--, com prejuízo aos investimentos.
"Vamos ter descontinuidade em oferta de crédito por vários meses, que vai levar à quebra de muita gente, com liquidação de estoque, que compromete muita coisa, como o emprego. Se sou o BC, não vou correr o risco. O BC tem de parar [de aumentar a taxa de juros]. Não tem de ser uma decisão definitiva. Mas acho que, por responsabilidade, pararia e observaria o que vai acontecer", disse o economista.
"O ideal é que a política monetária fosse neutra. E que a política fiscal, sim [fosse severa]. (...) As cartas do Brasil embaralharam. E é uma oportunidade para sair melhor, mais produtivo, institucionalmente melhor preparado, com a reforma tributária, previdenciária. Eu ainda almejo ver isso. Estamos na contramão disso, pelas noticias desta semana. A crise possibilitou isso tudo. Poderíamos nos orgulhar de ter tantos trunfos na crise. Mas precisa enxergar", disse Rabello de Castro.
Gasto público
Ele convocou o governo a fazer sua parte e reduzir o gasto público. "Brasília tem de entender que é preciso colocar o orçamento no lixo. Não pode pensar em demanda, sem pensar no governo. Governo tem de ser solidário na crise. Governo tem de mudar, cortar gasto publico, que cresce tanto. Só crescer menos, já é cortar muito", acrescentou.
Nakano também apresentou argumentos para o governo reduzir a taxa básica de juros, a Selic.
"No quadro que estamos vivendo, as restrições são tamanhas que o BC vai fazer baixar a taxa de juros e ter câmbio mais depreciado e mais competitivo. Em um quadro com contração do crédito, o problema de risco inflacionário está afastado. Haverá repasse, mas vai ser momentâneo. Neste contexto, BC vai ser obrigado a diminuir a taxa", afirmou Nakano. Ele advertiu para um problema sério de oferta de crédito no curto prazo, mas avaliou que o país pode sair da crise --que calcula durar dois anos-- "retomando crescimento de forma acelerada".
Já Alexandre Schwartsman, economista-chefe para América Latina do Banco Santander, vê reduzida a capacidade de o governo mudar a política monetária, com a melhora da oferta de crédito. "A taxa de juros é questão de diagnóstico sobre o crédito. Sou mais otimista em relação ao crédito. Concretamente é um problema que vamos resolver em semanas [o crédito]", avaliou. "O problema de inflação vai se colocar e acredito que vai ter aperto monetário para passar por esse período de dificuldade".
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Veja o que aconteceu hj com Dubai. Há outros vários.
Também acho que a palavra "quebrar"é muito forte, e de fato não deve acontecer. Aliás quem alertou sobre isso hj foi a OMC.
Tudo isso reforça o que venho escrevendo por aqui há algum tempo...tem muita gente eufórica, achando que tá tudo índo bem, que 2010 vai ser uma beleza e ao meu ver não vai ser não. Esse estória de o Brasil se achar uma ilha de prosperidade enquanto o mundo ainda estremeçe é muita arrogancia e merece cuidados extremos.
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A argumentação acima não quer dizer obviamente que os EUA não terão que fazer um ajuste fiscal em algum momento do futuro. Em algumas economias menores e sem moeda de reserva (p.ex. Reino Unido), esse ajuste terá que vir mais cedo (provavelmente após a próxima eleição geral em maio de 2010).
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