Branding cultural: aposta na liberdade
ANDRÉ PALHANO
Aos 33 anos, Grupo Corpo prepara nova sede, sem espaços fechados ou divisórias; espontaneidade e disciplina são o modelo da companhia de dança
Constituído em 1975, em Belo Horizonte, o Grupo Corpo é reconhecido no mundo todo. Nestes 33 anos de apresentações, soube flertar com o sucesso e criar uma identidade, uma marca própria, única. Jamais perdeu a espontaneidade e o foco -faz sempre algo inventivo para surpreender o espectador. Paulo Pederneiras, um dos criadores do grupo, conta em entrevista à Folha que a liberdade de atuação de seus integrantes é uma das chaves para a bem-sucedida carreira da companhia.
Folha - O Grupo Corpo é uma referência da dança contemporânea no Brasil e no exterior. Como chegaram a esse patamar?
Paulo Pederneiras - O segredo de nosso sucesso é exatamente a falta de segredo. Temos uma liberdade muito grande, e muita tranqüilidade, em todas as etapas de nosso trabalho, desde o processo de criação até as estruturas administrativas. Todo mundo participa de tudo. A nova sede do grupo, que ficará pronta no ano que vem, não tem escritórios fechados, nem divisórias. Haverá somente uma grande mesa, de 20 metros de comprimento, na qual cada um ocupará um espaço. Com todo mundo circulando o tempo todo, interferindo e dando palpites, a coisa acontece mais naturalmente. Como sempre foi.
Folha - Como a companhia conseguiu criar uma identidade tão forte?
Pederneiras - Rodrigo Pederneiras, meu irmão e responsável pelas coreografias, tem uma linguagem particular. Essa identidade, no entanto, só pôde ser conquistada com a continuidade do trabalho e com muito esforço por parte de todos os envolvidos. Hoje, temos uma linguagem reconhecida no mundo todo. As pessoas assistem a um espetáculo e já sabem que é do Grupo Corpo.
Folha - O vínculo com a cultura nacional é uma escolha estratégica ou aconteceu naturalmente?
Pederneiras - Não se trata de escolha, mas sim da honestidade de nosso trabalho, que tem a ver com não fazer coisas falsas. Somos brasileiros, vivemos aqui, moramos aqui, e é muito mais honesto fazer e falar das coisas que conhecemos. Não dá para fazer uma coisa "alemã" ou "francesa". Claro que existe influência, viajamos muito pelo mundo, mas nossa raiz é aqui. Isso não quer dizer, ao mesmo tempo, que fizemos a escolha de criar uma dança brasileira, ou de carregar a bandeira do país, essa nunca foi a nossa intenção.
Folha - Como superar as dificuldades que aparecem em trabalhos com tanto tempo de estrada?
Pederneiras - Já tivemos muitas dificuldades, sobretudo depois de nosso espetáculo de estréia, "Maria, Maria", de 1976, um recorde de produção local. Pode parecer estranho, mas é muito difícil sair de um sucesso, ainda mais naquela época, em que não existiam leis de patrocínio cultural. Hoje, temos patrocinadores, e nosso sucesso no exterior, onde fazemos cerca de 60% das apresentações, ajuda bastante nesse sentido. De qualquer forma, procuramos resolver as dificuldades de modo natural. Parti-cularmente, detesto reuniões, faz anos que não sentamos para discutir problemas. Certa disciplina e uma agenda acertada com antecedência são valiosas.
Folha - O sucesso não acaba se tornando uma obrigação, a de continuar sendo bem-sucedido?
Pederneiras - Felizmente, não sentimos esse peso. Vemos o nosso sucesso como reconhecimento, aquilo que o artista sempre busca, mas não como algo que nos obrigue a manter o mesmo nível de sucesso. Isso atrapalha a espontaneidade, o nosso jeito de inventar as coisas. O que fazemos é simplesmente tentar surpreender a nós mesmos, sempre que possível. Até agora, temos conseguido.
"É MUITO MAIS HONESTO FAZER E FALAR DAS COISAS QUE CONHECEMOS"
Paulo Pederneiras, um dos criadores do Grupo Corpo


