Análise: Um pacote ambicioso para a crise
FERNANDO CANZIAN
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Washington
Ao final da cúpula do G20 em Washington, os chefes de Estado concordaram em trabalhar para estimular de forma coordenada suas economias e discutir uma eventual nova regulamentação para o mercado.
O pacote anunciado é ambicioso, embora não contenha nada de muito novo ou bombástico. Seu vetor é aprofundar sistemas regulatórios e de controle de operações financeiras que já funcionam. E tentar padronizar as medidas para o maior número de países.
Embora exista uma enorme nuvem de ceticismo em relação ao progresso dessas medidas (a posição real da China em relação à regulação, por exemplo, é um mistério), elas ganharam certa relevância e apoio com a cúpula.
Para o futuro, será fundamental ainda a posição do próximo presidente dos EUA, Barack Obama, que assumirá o governo norte-americano no dia 20 de janeiro.
Se adotadas, as novas regras regulatórias afetarão diretamente os bancos, os verdadeiros 'donos da crise', e até aqui extremamente avessos a novas regulamentações.
Paralelamente à reunião do G20 em Washington, os bancos se reuniram longe dali na sexta, em Nova York. Agora descapitalizados e dependentes da ajuda estatal, eles parecem estar concordando com qualquer medida que possa mantê-los à tona.
Até aqui, o Tesouro dos EUA já injetou US$ 290 bilhões em dinheiro público em bancos privados e na seguradora AIG. E prepara aportes de outros bilhões em pelo menos mais 20 instituições com problemas.
Os rombos foram provocados pela falta de regulação e por práticas pouco ortodoxas. Como lastrear, em muitos casos, operações de financiamento imobiliário na proporção de US$ 1 tido como garantia para até US$ 35 em créditos a mutuários que sequer comprovavam sua renda.
Do encontro em Nova York, os banqueiros reunidos no IIF (Instituto de Finanças Internacionais, na sigla em inglês), que representa 390 instituições, emitiram seu próprio comunicado. Nele, os bancos não apenas assumiram "a responsabilidade pela adoção de regras frouxas que levaram à atual crise" como afirmaram que uma "reforma regulatória (...) e novas formas de diálogo entre os setores público e privado são essenciais para reforçar o funcionamento do sistema financeiro mundial".
Os banqueiros também recomendaram no documento a ampliação da participação das economias emergentes, como Brasil e China, nas decisões e na formatação de políticas de órgãos multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial.
Como sinal desses novos tempos, os países avançados também parecem ter definitivamente acolhido as grandes economias emergentes no seu clube. Se o G8 será transformado permanentemente em G20, ainda é algo a conferir.
O fato é que, em 2009, os emergentes serão responsáveis pela totalidade do crescimento mundial (já que os avançados estarão em recessão). E são eles, basicamente, quem hoje financiam, com suas reservas, os déficits do mundo desenvolvido.
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