Depois do Equador, Paraguai também ameaça não pagar dívida com o Brasil
da France Presse, em Assunção
O presidente do Paraguai, Fernando Lugo, pôs em dúvida hoje a legitimidade da dívida externa do Paraguai --principalmente a contraída com o Brasil na construção da hidrelétrica de Itaipu-- e anunciou sua intenção de estudá-la "exaustivamente" e, se for o caso, de impugná-la.
"Muitas das nossas dívidas já foram pagas", declarou Lugo a jornalistas de seu país, anunciando que ordenou a criação de uma equipe econômica para estudar o tema com seriedade.
Sem afirmar que seguirá os passos de seu colega equatoriano, Rafael Correa, que anunciou que não pagará a dívida contraída por seu país com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Lugo insistiu em que a dívida dos países latino-americanos tem de ser estudada com cuidado.
O presidente boliviano, Evo Morales, tomou recentemente uma decisão parecida, ao nacionalizar os campos explorados pela Petrobras no país andino.
"A questão da dúvida internacional dos países está ocupando cada vez mais espaço na agenda internacional. O Equador é um desses países, e nós também. Mesmo que a dívida do Paraguai não seja tão alta (US$ 2 bilhões), acreditamos que muitas das nossas dívidas já foram pagas", declarou.
O ex-bispo Fernando Lugo, 56, acabou com a hegemonia de 61 anos do Partido Colorado no Paraguai, 35 dos quais passados sob a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989). Ao longo da campanha presidencial, Lugo defendeu um "preço justo, de mercado, para a energia de Itaipu".
Durante as ditaduras de Stroessner, no Paraguai, e de Emilio Garrastazu Médici, no Brasil, os dois países construíram sobre o rio Paraná a gigantesca represa hidrelétrica de Itaipu, de condomínio mútuo.
O custo inicial da obra havia sido orçado em US$ 3,5 bilhões, para uma capacidade de produção de 90 milhões de megawatts hora (MWh). No entanto, a hidrelétrica deve custar ao todo US$ 61 bilhões. O fim do pagamento está previsto para 2023. Itaipu pagou à Eletrobrás e ao governo brasileiro US$ 31 bilhões até 2006.
"O Brasil subjugou o Paraguai pela força há 150 anos com a guerra da Tríplice Aliança e continuou tentando dominar esse país, corrompendo seus governantes. Para conseguir a cessão da energia paraguaia a um preço irrisório, os sucessivos governos brasileiros inundaram de dinheiro os dirigentes paraguaios, que viviam como reis, graças a Itaipu. Agora, com a chegada de Lugo no poder, essa farra acabou", afirmou o analista paraguaio Mario Elizeche.
O presidente do Paraguai declarou ainda que muitas das dívidas contraídas por seu país "não chegaram aos verdadeiros destinatários". "Se elas não chegaram a seus destinatários, elas não são legítimas", sentenciou.
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