Lula diz que EUA usam medidas protecionistas para recuperar economia
da Folha Online
com Efe, em Belém
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou hoje a restrição ao aço estrangeiro incluída entre as medidas do governo americano para recuperar a economia. O pacote, de US$ 819 bilhões, foi aprovado quarta-feira pela Câmara dos Representantes americana --o plano ainda deve passar pelo Senado.
"Eu li ontem que o presidente [dos Estados Unidos] Barack Obama decidiu que, nos novos investimentos deles, devem usar só aço da siderúrgica americana. Se isso for verdade, é um equívoco. O protecionismo nesse momento vai agravar a crise, não resolvê-la", disse.
"É importante que os países ricos não esqueçam nunca que foram eles que inventaram essa história de que o comércio poderia fluir livremente pelo mundo. Não é justo que agora, que eles entraram em crise, esqueçam o discurso do livre comércio e passem a ser os protecionistas que nos acusavam de ser", disse Lula no Fórum Social Mundial, em Belém.
Lula afirmou que espera que Obama tome as medidas necessárias para recuperar a economia, mas "não permita que os países pobres paguem por uma crise que não criaram".
O plano de estímulo econômico elaborado pelos americanos prevê o uso exclusivo de aço e ferro americano em projetos de infraestrutura. Sobre isso, porém, o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse hoje que "a administração está examinando essa cláusula" e pode rever a medida.
A cláusula, intitulada "Compre América", foi incluída dentro de um projeto de lei de cerca de 650 páginas. A cláusula, segundo os especialistas, prejudicaria não apenas os europeus, mas principalmente o Brasil --o maior exportador de ferro e um dos maiores exportadores de aço do mundo.
O Brasil exportou US$ 1,296 bilhão em produtos siderúrgicos para os EUA em 2007, o equivalente a 19,6% das vendas externas do setor no período, segundo o Ministério de Minas e Energia. Os números de 2008 ainda não foram fechados.
O texto prevê exceções no caso de esta disposição "ser contra o interesse público", ou se não houver aço e ferro de qualidade satisfatória suficientes, ou ainda se os recursos aos únicos produtos americanos aumentarem o custo de um projeto em mais de 25%.
Críticas
Sobre "decisões protecionistas", o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Celso Amorim, fez um apelo hoje no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), pela conclusão da Rodada Doha, e pediu ainda que os países não recorram ao "instinto protecionista", o que, segundo ele pode aniquilar os países pobres.
"Não há como evitar medidas protecionistas num sistema que não esteja progredindo, pois o instinto [em situações de crise] não é favorável ao livre comércio. É ser protecionista', afirmou. Se o mundo entra nessa vertente, os países pobres se verão prejudicados, por falta de condições de enfrentar esse nacionalismo econômico", disse Amorim.
Também em Davos, a Europa contestou a cláusula. A comissária europeia do Comércio, Catherine Ashton, manifestou preocupação. "Estamos examinando a situação. Ainda é cedo para se pronunciar sobre este texto, antes de ter sua versão final", indicou seu porta-voz, Peter Power, em Bruxelas.
"Entretanto, há uma coisa da qual estamos absolutamente certos, é que se uma lei for votada e ela proibir a venda ou a compra de produtos europeus no território americano, não poderemos ignorá-la e ficar de braços cruzados", disse Power.
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