Recessão atinge economias europeias e recuperação só deve chegar no fim do ano
da Folha Online
A crise financeira que, tendo começado nos EUA em 2007, já jogou a economia mundial à beira da recessão --a previsão do FMI (Fundo Monetário Internacional) para a economia global neste ano é de crescimento de 0,5%; o Fundo considera que um crescimento menor que 3% indica recessão global--, atingiu de forma intensa as economias europeias. Os trilhões já mobilizados por diversos governos europeus para tentar evitar a crise de pouco adiantaram, e a situação no continente piora continuamente.
Para este ano, a previsão da Comissão Europeia (órgão Executivo do bloco) é de uma retração de 1,8% no PIB (Produto Interno Bruto) conjunto dos países-membros da União Europeia (UE). Para a zona do euro, o FMI (Fundo Monetário Internacional) projeta um aprofundamento da recessão antes de uma lenta recuperação, que só deve começar no fim deste ano --a região teve retração de 0,2% no período, após uma queda também de 0,2% um trimestre antes, segundo a Eurostat.
A UE como um todo vem conseguindo evitar a recessão: a Eurostat --a agência europeia de estatísticas-- informou no mês passado, que o bloco teve queda de 0,2% no terceiro trimestre, mas ficou estável no segundo.
A economia irlandesa foi a primeira na zona do euro a entrar em recessão em decorrência da crise, em setembro do ano passado. Foi também o primeiro país da zona do euro a se ver nessa situação. À da Irlanda, outras recessões se seguiram.
No último dia 23, o ONS (Escritório Nacional de Estatísticas) informou que, no quarto trimestre do ano passado, o PIB (Produto Interno Bruto) britânico caiu 1,5% em comparação com o trimestre anterior --período também marcado por um índice negativo.
No último dia 14, o Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha anunciou uma previsão de queda entre 1,5% e 2% do PIB alemão no quarto trimestre de 2008. Se confirmada, a queda será a maior para um trimestre desde 1990. No ano passado como um todo, a economia alemã cresceu 1,3%, muito inferior à expansão em 2007, quando o PIB cresceu 2,5%. Para este ano, o governo projeta uma queda de 2,25%, enquanto o FMI prevê queda de 2,5%. Em 2010, o governo projeta um crescimento de 0,1%.
A economia da Espanha, por sua vez, passa por um processo intenso de deterioração. Na semana passada, o Banco da Espanha (BC do país) informou que a economia entrou em recessão, com uma contração de 1,1% no trimestre passado, na comparação com o terceiro --quando também houve queda, de 0,2%, em relação a um trimestre antes. O primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, disse que a crise no país deve durar até o fim deste ano. O FMI prevê uma contração de ao menos 1% neste ano na economia espanhola.
Todos esses problemas têm sua raiz na crise que começou no mercado de hipotecas dos EUA.
A origem
A economia americana caiu em recessão em 2001, após o estouro da bolha das empresas "pontocom". O Federal Reserve (Fed, o BC americano) promoveu uma série de cortes de juros, e a taxa chegou a 1% ao ano em 2003, ficando nesse patamar até junho de 2004. Com um ano de juros baixos, a demanda por imóveis cresceu, devido ao barateamento das hipotecas.
As companhias hipotecárias passaram então a explorar o segmento de clientes "subprime" --que contém um risco maior que o de clientes com classificação melhor de crédito, mas compensado por taxas de retorno mais altas. Os papéis de dívidas hipotecárias atraíram gestores de fundos e bancos, que compraram esses títulos hipotecários e permitiram que uma nova quantia em dinheiro fosse emprestada, antes mesmo do pagamento do primeiro empréstimo. Um outro gestor, interessado no alto retorno envolvido com esse tipo de papel, comprou o título adquirido pelo primeiro, e assim por diante, gerou uma cadeia de venda de títulos.
Em 2006, o mercado imobiliário já dava sinais de saturação, com preços e estoques altos de casas. Paralelamente a isso, os juros vinham subindo para conter o aquecimento da economia americana e chegaram a 5,25%. Juros mais altos encareceram as hipotecas, dificultaram os pagamentos de prestações e elevaram a inadimplência. Esse crescimento da inadimplência levou o banco francês BNP Paribas a congelar em 2007 resgates em três fundos, alegando dificuldades de avaliar os valores dos investimentos ligados a essas hipotecas de risco.
Isso deu origem a uma série de problemas no mercado financeiro, que levaram à quebra do banco americano Lehman Brothers. Com esse episódio, a crise, que já tinha uma ano, ganhou um novo fôlego e acelerou a deterioração da economia mundial.
Medidas
O BCE (Banco Central Europeu) reduziu no mês passado sua taxa de juros para 2% ao ano, o menor nível desde junho de 2003. O Banco da Inglaterra (BC britânico) também reduziu sua taxa básica de juros, para 1,5%, menor nível desde a criação da autoridade monetária britânica, em 1694.
Os cortes de juros parecem de pouca valia, dada a situação de desgaste a que chegaram as economias europeias. Mesmo os EUA esgotaram a arma dos juros para reverter o cenário de crise --a taxa do Federal Reserve (Fed, o BC americano) está em uma margem de variação de zero a 0,25%, a menor da história da instituição. Mesmo assim, o banco avalia que "uma recuperação gradual na atividade econômica deve começar mais à frente neste ano, mas os riscos de baixa para esse cenário são significativos".
Além da tentativa de estimular as economias europeias com juros baixos, governos da região adotam pacotes de estímulo na expectativa de que, assim, o fluxo de crédito volte ao normal e a atividade econômica ganhe impulso.
Em janeiro, o governo alemão aprovou um pacote de 50 bilhões de euros (cerca de US$ 65 bilhões) e um orçamento adicional para custear a ajuda, como forma de combater a crise. Além da Alemanha, o governo britânico já anunciou um segundo pacote (sem valor determinado ainda) para o setor bancário --em outubro de 2008,já havia sido anunciada uma ajuda de cerca de US$ 55 bilhões. A primeira ajuda levou à nacionalização parcial de bancos como o RBS e o Lloyds TSB/HBOS.
Ameaça ao euro
O investidor George Soros disse ao jornal austríaco "Der Standard" que a crise é uma ameaça a existência do euro, e a UE precisa dar "passos firmes" para retirar os papéis de risco, ligados a hipotecas "subprime", do mercado. Segundo Soros disse caso a UE não participe dos planos de retirar os ativos tóxicos do mercado, "o euro pode não sobreviver à crise", disse.
Ele disse também, no Fórum Econômico Mundial deste ano, em Davos (Suíça), que é necessário que os governos intervenham para resgatar os bancos em dificuldade, já que o setor privado não pode fazê-lo. Para ele, o tamanho da crise é "significativamente maior" que a dos anos 30.
No encerramento do Fórum Econômico Mundial, o fundador da organização, Klaus Schwab, disse que o encontro deste ano foi o mais pessimista de toda a história. A ministra da Economia, Finanças e Emprego da França, Christine Lagarde, disse, por sua vez, que a onda de pessimismo acentuará o nacionalismo, especialmente entre os desenvolvidos.

