Corte de preço de combustíveis é decisão técnica, diz Gabrielli
PEDRO DIAS LEITE
FÁTIMA FERNANDES
da Folha de S.Paulo
O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, afirmou ontem no programa "Roda Viva", da TV Cultura, que a redução no preço dos combustíveis é uma decisão técnica, sem nenhuma influência política.
"Essa é uma diferença que temos com a perspectiva futura do preço da gasolina e do diesel. O cálculo considera o câmbio futuro, o preço futuro da gasolina no mercado internacional e a possibilidade de os concorrentes da Petrobras no Brasil começarem a importar combustível", afirmou.
Depois da gravação do programa, Gabrielli também atribuiu a decisão a "uma certa estabilidade na taxa de câmbio".
Ele evitou calcular o impacto da redução da gasolina nas bombas -"não depende de nós"-, mas disse que o aumento da Cide (tributo cobrado sobre o consumo de combustíveis) deve compensar apenas "parcialmente" a queda. Logo, pode haver diminuição no preço final, em sua avaliação.
A Fecombustíveis (entidade que representa os postos de combustíveis), no entanto, estima que o preço da gasolina não deverá sofrer alteração para o consumidor (leia texto abaixo).
Gabrielli admitiu que a diminuição nos preços, especialmente do diesel, "vai ter algum impacto" no balanço da empresa, mas sem consequências negativas. "Não afeta, porque a empresa está com aumento de produção bastante grande, captou US$ 30 bilhões nos cinco primeiros meses e os investimentos estão crescendo."
Na opinião de Adriano Pires, especialista da consultoria CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura), a redução de preço "tem um viés claramente político". "O objetivo foi trazer uma boa notícia e desviar o foco da CPI da Petrobras."
De acordo com Pires, o recuo dos preços "foi surpreendente", pois ocorreu numa fase de forte aceleração das cotações internacionais do petróleo e dos derivados.
"É muito estranho. Ninguém esperava mais que a Petrobras mexesse nos preços neste ano. Ela perdeu o "timming". Tinha de mexer quando o barril do petróleo estava a US$ 40 em janeiro [ontem, o barril fechou a US$ 68,09 em Nova York]."
Já para David Zylbersztajn, presidente da ANP (Agência Nacional do Petróleo) no governo FHC, a redução de preços faz sentido. Segundo ele, a empresa perdeu ao deixar de reajustar os derivados quando houve alta do petróleo, mas agora já recuperou a perda.
Para ele, é difícil analisar a oportunidade do aumento. "Como não tem concorrência, não tem parâmetro para avaliar. O monopolista faz o que ele quiser. Quando é empresa controlada pelo governo, pode usar isso politicamente."
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