Pregão viva-voz é extinto na BM&F
VERENA FORNETTI
colaboração para a Folha de S.Paulo
A 20 minutos do fim do pregão na BM&FBovespa ontem, ninguém olhava para os painéis que indicavam a cotação do boi gordo, do milho ou a queda de mais de 25% em papéis negociados na Bolsa. Às 17h03, ignorando os minutos que restam de negociação, o faxineiro entra no espaço e começa a prepará-lo para a festa em homenagem aos operadores marcada para depois do pregão, o último em viva-voz. Alguns minutos mais tarde, a última negociação se inicia, e os operadores cantarolam a marcha fúnebre.
Juliano Pandolfo, 28, foi o último a fechar contratos. Comprou 20 lotes em negócios com o Ibovespa futuro (contratos com base no índice da Bolsa de São Paulo) e vendeu 10. "Amanhã estou desempregado." Depois de dez anos como operador, tem esperanças de ser readmitido em alguma corretora, mas afirma que as empresas que operam no mercado não têm capacidade para absorver todos os trabalhadores que ficaram desempregados.
O pregão viva-voz se esvaziou com a substituição da compra e venda ao vivo pela negociação eletrônica. De acordo com a Bolsa de São Paulo, 97% dos negócios na BM&F eram fechados por meio do pregão viva-voz em 2000. Em dezembro do ano passado, o percentual despencou para 7,38%.
"Não podemos ir contra uma tendência, mas demos nosso suor e sangue aqui dentro", diz Marco Aurélio, 42, demitido em março após 22 anos no pregão viva-voz. "A profissão foi extinta. Acabou", afirma Marcelo Izabo, 39, que tem 21 anos de experiência em Bolsa.
Izabo pretende continuar a carreira como autônomo, a exemplo de outros operadores. "Com a nossa experiência, podemos orientar as pessoas físicas que querem investir no mercado. Estamos acostumados a olhar as informações no Brasil e no exterior e podemos indicar qual é a hora certa de fazer negócio."
O presidente do sindicato que representa os trabalhadores no mercado de capitais, Marcio Andre Mieza, afirma que um acordo fechado com a BM&FBovespa pode estimular os operadores a continuar no mercado. Segundo ele, a instituição se comprometeu a abrir mão da taxa que cobra sobre o volume financeiro operado por, no mínimo, 18 meses. Nos próximos dois anos, os operadores de pregão também poderão fazer cursos oferecidos pela Bolsa sem pagar nada.
O operador Gilmar de Carvalho Fiori, 52, diz que a taxa cobrada pela Bolsa não é o principal custo dos operadores autônomos, que ainda precisariam pagar uma espécie de tarifa para as corretoras --algumas cobram R$ 5.000 por mês. Fiori, porém, não tem intenção de continuar no mercado e deve abandonar a carreira após 25 anos. "Mesmo se não tivesse acabado, não teria condições físicas de continuar. Estou quase surdo e meu plano é nunca mais ouvir falar sobre Bolsa."
O espaço em que funcionava o pregão viva-voz deve se transformar em atração turística quando a reforma do ambiente terminar. Depois de reformulado, será o local de eventos como concorrências públicas e IPOs (oferta inicial de ações, na sigla em inglês). No futuro, existe a possibilidade de receber computadores para que uma mesa de operações eletrônicas seja instalada no espaço.
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