Análise: Privatização do ensino público prejudica alunos e professores
LISANDRE CASTELLO BRANCOespecial para a Folha Online
A idéia e as devidas providências para que, de alguma forma, ocorra a privatização das universidades públicas datam de cerca de 20 anos atrás.
Pode-se perceber sem esforço que os professores recebem salários que os obrigam a buscar recursos suplementares fora, o que acarreta prejuízos às pesquisas e às tarefas docentes. Assim, tão logo cumprem o tempo de serviço, tratam de se aposentar para ficarem livres e poderem se dedicar a outras atividades remuneradas. Afinal, são ainda jovens para trabalhar e seguramente têm muito a oferecer.
Mas, acabam, muitas vezes com muito pesar, deixando uma carreira querida para tentar, enquanto ainda é possível, garantir uma condição de vida que a universidade há muito deixou de oferecer.
E as vagas dos aposentados permanecem sem professores (a recente greve da FFLCH da USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) ilustra bem o caso.
O projeto em curso é apenas mais um passo nesta direção. O desmentido do Ministério da Educação é um inequívoco sinal de alerta. Afinal, já fomos vítimas de situações similares em que são jogados balões de ensaio seguidos de desmentidos oficiais.
Provoca-se uma discussão, tomam-se partidos prós e contras e afinal, assistimos privatizações escandalosas cujo custo pagamos regularmente. Assim, professores e alunos têm sido sacrificados em sua vida acadêmica por um projeto que mira a privatização que ora se apresenta sob a proposta indecorosa do pagamento a posteriori a partir de um certo nível de remuneração.
E o mais lamentável deste escândalo (mais um!) é que isto vem de um governo comprometido com as causas públicas e democráticas. Procede de um ministro respeitável no conhecimento e na experiência na área da Educação.
Não acredito no desmentido. Acredito que uma ameaça muito séria está pondo em risco mais uma das instituições públicas e que é preciso encará-la corajosamente antes que seja tarde demais.
Lisandre Castello Branco, pedagoga e psicoterapeuta, é doutora e professora aposentada da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).


