Educação
04/06/2003 - 10h15

Análise: Privatização do ensino público prejudica alunos e professores

LISANDRE CASTELLO BRANCO
especial para a Folha Online

A idéia e as devidas providências para que, de alguma forma, ocorra a privatização das universidades públicas datam de cerca de 20 anos atrás.

Pode-se perceber sem esforço que os professores recebem salários que os obrigam a buscar recursos suplementares fora, o que acarreta prejuízos às pesquisas e às tarefas docentes. Assim, tão logo cumprem o tempo de serviço, tratam de se aposentar para ficarem livres e poderem se dedicar a outras atividades remuneradas. Afinal, são ainda jovens para trabalhar e seguramente têm muito a oferecer.

Mas, acabam, muitas vezes com muito pesar, deixando uma carreira querida para tentar, enquanto ainda é possível, garantir uma condição de vida que a universidade há muito deixou de oferecer.

E as vagas dos aposentados permanecem sem professores (a recente greve da FFLCH da USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo) ilustra bem o caso.

O projeto em curso é apenas mais um passo nesta direção. O desmentido do Ministério da Educação é um inequívoco sinal de alerta. Afinal, já fomos vítimas de situações similares em que são jogados balões de ensaio seguidos de desmentidos oficiais.

Provoca-se uma discussão, tomam-se partidos prós e contras e afinal, assistimos privatizações escandalosas cujo custo pagamos regularmente. Assim, professores e alunos têm sido sacrificados em sua vida acadêmica por um projeto que mira a privatização que ora se apresenta sob a proposta indecorosa do pagamento a posteriori a partir de um certo nível de remuneração.

E o mais lamentável deste escândalo (mais um!) é que isto vem de um governo comprometido com as causas públicas e democráticas. Procede de um ministro respeitável no conhecimento e na experiência na área da Educação.

Não acredito no desmentido. Acredito que uma ameaça muito séria está pondo em risco mais uma das instituições públicas e que é preciso encará-la corajosamente antes que seja tarde demais.

Lisandre Castello Branco, pedagoga e psicoterapeuta, é doutora e professora aposentada da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo).

 

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