Educação
13/06/2003 - 06h58

Mais ricos dominam universidade pública

ANTÔNIO GOIS
da Folha de S.Paulo, no Rio

Seis em cada dez estudantes de universidades públicas no Brasil pertencem à camada mais rica da população. É o que mostra um cruzamento feito pela primeira vez pelo IBGE na Síntese de Indicadores Sociais divulgada ontem.

Segundo a pesquisa, 59,9% dos estudantes de instituições públicas de ensino superior têm renda familiar per capita que os coloca entre os 20% mais ricos da população. No outro extremo, a participação dos mais pobres nas universidades públicas é quase pífia. Os 20% mais pobres ocupam apenas 3,4% do total das vagas.

Em 2001, uma pessoa em idade ativa que estava entre os 20% mais ricos da população recebia, em média, aproximadamente, R$ 1.875/mês. Entre os 20% mais pobres, a renda média era R$ 106,5.

Mesmo em um corte maior, avaliando a participação dos 60% mais pobres da população, a pesquisa mostra que os brasileiros de menor renda continuam sub-representados nas universidades públicas (17,1% dos estudantes).

A pesquisa não fez a mesma tabulação para as instituições privadas, onde estão 70% dos universitários brasileiros. Pesquisas anteriores, feitas com base na Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios) de 1999, porém, indicam que a elitização do ensino superior não é privilégio das instituições públicas.

Em 1999, segundo uma tabulação feita pelo ex-presidente do IBGE Simon Schwartzman, a participação dos 20% mais ricos no ensino superior, sem distinção entre rede pública e privada, era de 70,7% do total. Os 20% mais pobres ocupavam apenas 0,9%.

"Não há dúvida de que o ensino superior é elitista. É assim em todo lugar do mundo. O que pode ser interessante é verificar se é verdade que o perfil socioeconômico dos estudantes do setor público é semelhante ou diferente do perfil dos alunos do setor privado", afirma Schwartzman.

A tabulação feita por Schwartzman comparando o perfil de todos os estudantes universitários mostrou que a expansão desse nível de ensino na década de 90 não mudou o perfil elitista.

Outros cruzamentos do IBGE mostram que o processo de elitização começa no ensino médio, mas é acentuado na passagem para a universidade. Entre 15 e 17 anos, época em se deveria cursar o ensino médio, quase um terço (29,2%) dos adolescentes que pertencem aos 20% mais pobres da população já não estão estudando mais. Entre os 20% mais ricos, essa porcentagem é de apenas 5,4%.

A análise do perfil socioeconômico dos alunos da rede pública no ensino médio, porém, deixa claro que o filtro do vestibular torna o ensino ainda mais elitista.

Os 20% mais pobres da população, que são 3,4% nas universidades públicas, representam 11,5% das vagas de ensino médio público, contra 16,6% de participação dos jovens que se estão entre os 20% mais ricos da população brasileira e que, no ensino superior público, ocupam 59,9% das vagas.

A especialista em educação Dolores Kappel, que tabulou esses dados, chama atenção para o fato de no ensino médio público existir uma camada expressiva da população de maior renda: "Eles estão, provavelmente, matriculados em instituições federais, como escolas técnicas e colégios de aplicação das universidades públicas".

Atraso escolar

A pesquisa mostrou dados novos sobre o atraso escolar. A partir dos sete anos, a defasagem idade/ série aumenta gradualmente, sendo maior na rede pública. Ela é maior, no entanto, entre os estudantes entre 18 e 24 anos.

Apenas 26,3% dos 7,8 milhões de jovens de 18 a 24 anos que estudam frequentam universidades. Entre eles, 25% ainda estão no ensino fundamental. Para Kappel, há uma leitura positiva possível: mostra interesse entre os que já entraram ou tentam entrar no mercado em recuperar o tempo na educação. Entre os mais novos, uma das explicações para a defasagem é o trabalho infantil.
 

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