Ensino superior passa por desigualdade e exclusão, diz Cristovam
JOÃO NOVAESEspecial para a Folha Online, em Paris
O Ministro da Educação, Cristovam Buarque, abriu hoje a 2ª Conferência Mundial do Ensino Superior, que será realizada até o dia 25, na sede da Unesco (Organização Mundial das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), em Paris. O objetivo do evento é avaliar as mudanças ocorridas no ensino superior e fazer um balanço dos resultados obtidos na primeira reunião, realizada no mesmo local, em 1998.
Recebido por uma platéia que contava com cerca de 400 especialistas de 120 países, o ministro apontou problemas e propôs soluções para dinamizar o ensino superior mundial e disse que o ensino nas universidades passa por desigualdade e exclusão.
"Em primeiro lugar, as universidades estão fazendo um produto que ficou velho, pois elas não estão em sintonia com a velocidade do conhecimento científico e tecnológico de hoje. O conhecimento adquirido na universidade virou um fluxo efêmero, e não permanente como no passado. [O conhecimento] só terá utilidade prática ao aluno em torno de 15 anos. Em pouco tempo, o que ele [o aluno] estudou já se tornou ultrapassado", afirmou.
Outro problema, para Cristovam, é que as salas de aula e as bibliotecas universitárias deixaram de ser as únicas fontes de aprendizado, especialmente após o acesso da internet, da TV e da publicação de revistas especializadas.
Aprendizado "até a morte"
Uma das propostas mais polêmicas apresentadas por Cristovam foi sobre as formas de dinamizar a universidade. Segundo ele, a durabilidade não-permanente do diploma universitário é uma opção. Com isso, o ministro disse acreditar que a universidade se tornaria uma instituição permanente na vida dos cidadãos, que passariam a se tornar "alunos até a morte".
Para o ministro, o diploma de doutorado também deve ser revisado, e possuir um período de validade, para que, entre outras coisas, os professores sejam obrigados a se atualizar por meio de exames de qualificação temporais. "Eu não me considero doutor pela vida inteira", afirmou, provocando risos da platéia.
A legitimidade do diploma, "que deixou de ser uma garantia e um passaporte para o futuro", foi outra questão problemática apontada pelo ministro. "Hoje, existem milhões de ex-estudantes com diplomas altamente qualificados que estão desempregados."
Como já havia dito anteriormente em outros discursos, Cristovam afirmou que as universidades atuais estão longe dos problemas do povo, tendo optado a servir uma elite rica.
Como exemplo, ele citou os economistas: "Há vinte anos eram [os economistas] fundamentais para a criação de empregos. Hoje são agentes do desemprego."
Propostas
Entre outras propostas, está a maior flexibilidade para a duração de cursos universitários, que não continuariam fixos como antes, especialmente em cursos de pós-graduação, considerados, por ele, muito longos.
Cristovam defendeu também uma universidade para todos, com diferentes sistemas de admissão, onde o acesso não seja determinado pelas limitações do espaço físico. Além disso, para ele, o ensino superior deveria se preocupar mais com problemas concretos da sociedade, como fome e pobreza, e não se resumir apenas aos departamentos científicos.
Sobre o financiamento das universidades, o ministro afirmou que deseja que o ensino superior continue público, mas que não exclua a possibilidade de receber recursos do setor privado. "As universidades particulares podem continuar sendo fisicamente privadas, desde que a comunidade acadêmica possa controlá-la", disse.
Apelos
Ao concluir o discurso, o ministro fez uma série de apelos, em nome do futuro do ensino superior mundial. Ele pediu aos países ricos e emergentes, incluindo o Brasil, que ajudem as universidade de países ainda mais pobres, em especial os africanos, e que se integrem mutuamente.
Cristovam também pediu para que os professores incorporem em seus métodos de ensino a utilização de novos equipamentos, especialmente os computadores.
Aos governos, que entendam a urgência de reformar suas universidades públicas, sem, contudo, "transformá-las em usinas destinadas a fabricar um conhecimento voltado para o mercado".
Por fim, o ministro propôs à Unesco que o ano de 2004 ou o de 2005 seja nomeado como o ano da universidade, e para criar um fórum de reflexão de como o ensino superior deve ser pensado no século 21.
Cristovam ainda convidou todos os presentes a participarem da Conferência Internacional sobre a Universidade do Século 21, que será realizada nos dias 25 e 26 de novembro, em Brasília, com organização do próprio MEC (Ministério da Educação).
Iraque
O discurso de Cristovam Buarque foi seguido pelo da primeira-dama do Qatar, a xeque Mozah Al Misnad, enviada especial da Unesco para o ensino básico e superior.
Ela anunciou a criação do Fundo de Assistência à Educação para o Iraque. Após a fala da primeira-dama, por meio de seu embaixador, o governo japonês anunciou o auxílio de US$ 1 milhão para o fundo.


