Educação
05/04/2005 - 10h29

Cotista tem nota parecida com de não-cotista na Unifesp

FÁBIO TAKAHASHI
da Folha de S. Paulo

Os vestibulandos aprovados na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) pelo sistema de cotas tiveram desempenho semelhante aos do sistema universal.

Essa é a conclusão do coordenador de ações afirmativas da universidade, Marcos Ferraz, ao analisar o balanço do processo seletivo da instituição para ingresso neste ano --o primeiro a reservar vagas a estudantes afrodescendentes ou índios.

A diferença entre a nota do último matriculado não-cotista e o último cotista foi de 10% (dez pontos em cem) em medicina, o curso mais concorrido. A instituição não divulga o valor absoluto das notas para que os alunos não saibam suas colocações.

Outro exemplo citado por Ferraz que mostra semelhança no desempenho entre os dois grupos é que tanto em medicina como em enfermagem o melhor cotista teria nota suficiente para ser aprovado no sistema universal. "Claro que há diferença no desempenho. Mas ela é pequena e, com um um pouco de ajuda, os cotistas chegarão ao final do curso no mesmo nível", afirma Ferraz.

Por "um pouco de ajuda", a universidade entende que precisa oferecer acesso ao computador e a uma bolsa de estudos. Tais conclusões foram feitas com base nos questionários socioeconômicos, respondidos pelos vestibulandos. Dos ingressantes cotistas, 62,1% afirmaram ter computador e 48,3% disseram ter acesso à internet em casa. As porcentagens dos matriculados não-cotistas são 93,3% e 88,6%, respectivamente.

Além disso, a renda familiar média mensal dos cotistas foi de R$ 1.800, ante R$ 4.000 dos não-cotistas. "O que chama a atenção é que, mesmo tão diferentes nesse aspecto [socioeconômico], os cotistas têm desempenho parecido", afirma Ferraz.

A Unifesp aumentou em 10% o número de vagas de cada curso para que fossem destinadas a alunos que cursaram o ensino médio na rede pública e que comprovassem, por meio de documentos oficiais, serem índio ou afrodescendente. Os três aprovados que se declararam índios não conseguiram comprovar tal afirmação e não puderam se matricular.

No total, a instituição ofereceu 300 vagas. Para avaliar o desempenho no vestibular, foram considerados os resultados de medicina e de enfermagem --carreiras com o maior número de vagas.

Reforma universitária

Ferraz diz que a proposta de reforma universitária do governo federal está baseada em "achismo" --o anteprojeto prevê reserva de 50% das vagas das instituições federais para alunos do ensino médio público, destinando ainda uma porcentagem fixa para afrodescendentes e índios.

"Chegamos aos 10% após três anos de estudos. Qual a base científica para se determinar 50%?", questiona. Segundo ele, se metade das vagas forem destinadas às cotas, o desempenho dos beneficiados não deverá ser parecido com o dos não-cotistas, o que pode prejudicar a qualidade de ensino.

Tal opinião não é compartilhada pelo frei Davi Santos, coordenador da Educafro, ONG que realiza pré-vestibulares para alunos negros e carentes. "A ação afirmativa não é para beneficiar os parecidos, mas sim os excluídos."

Segundo ele, mesmo que sejam aprovados alunos com notas baixas no vestibular, a qualidade de ensino não cairá. "Se você der ao pobre condições iguais, como professores e aulas, ele se sobressai à classe média."

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