Concurso de diplomacia exige de música a economia
ROBERTO PELLIMda Folha de S.Paulo
São mais de 2.000 concorrentes para 25 vagas, em média. A relação candidato/vaga do Instituto Rio Branco, único responsável pela formação e treinamento de diplomatas brasileiros, supera muitos dos cursos mais concorridos dos principais vestibulares.
Na seleção de 99, o índice foi de 127,75 candidatos por vaga. Em 2000, foi de 96,4. O curso mais concorrido da Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular) é publicidade e propaganda, com 70,4 concorrentes por vaga.
No entanto conseguir entrar no instituto não significa superar todas as dificuldades na carreira de diplomata. Os aprovados fazem dois anos de formação e aperfeiçoamento para exercer a carreira. Mas também têm estabilidade no emprego, cargo de 3º secretário e salário inicial líquido de R$ 3.800.
Para atingir esse "título", os candidatos fazem nove provas. A inicial, de conhecimentos gerais, elimina grande parte dos concorrentes e é imprevisível.
As provas de história, relações internacionais, geografia, inglês (oral), noções de direito e economia serão realizadas em Brasília. Para tanto, o instituto fornece passagem aérea de ida e volta e auxílio financeiro enquanto durar o exame.
Além das provas em Brasília, há também exames de inglês (escrito) e português, que podem ser feitos na capital federal ou em outras dez capitais do país.
Segundo Antonio Carlos Toze, 33, professor do Curso Itamaraty, pode cair na prova de conhecimentos gerais desde música erudita até efemérides (datas comemorativas), como os 500 anos do Descobrimento do Brasil.
De acordo com Toze, a prova exige muitos conhecimentos porque "eles (Itamaraty) consideram que o diplomata deve ter muito conhecimento na bagagem".
A chance de ser aprovado na primeira tentativa é pequena, segundo a assessoria do Rio Branco. Muitos candidatos fazem vários exames até conseguir entrar.
Os aprovados passam pelos dois anos de preparação, que envolvem palestras, cursos e um estágio de três meses -normalmente em países da América do Sul ou no México.
Terminado o período de formação, o novo diplomata começa a trabalhar no Itamaraty. A mobilidade é grande, mas existem vagas em todos os ministérios e nas áreas política (atuação nas embaixadas), econômica (na Ordem Mundial do Comércio e no Mercosul) e administrativa.
"Interesse nacional"
Para o embaixador André Amado, 54, o teste de seleção é muito difícil e seletivo, mas seu objetivo é claro: selecionar e depois habilitar diplomatas para representar o país. "É um privilégio representar a nação. O diplomata deve servir ao interesse nacional."
Amado admite que a carreira diplomática tem muito glamour, mas afirma que existem pontos negativos que não são reconhecidos. "Você fica longe de suas raízes e muda muito de país com sua família. Mas é engraçado sentar atrás da plaqueta Brasil."
De acordo com o embaixador, é importante conhecer a sociedade brasileira para poder representá-la bem em outros países.
Como o diplomata mora em outras nações, ele "exagera a brasilidade", afirma Amado. "É um orgulho para um diplomata brasileiro no exterior ver um filme nacional ser indicado ao Oscar."
Apesar das dificuldades, o embaixador André Amado anima os candidatos, pois "nunca houve desistência nos 55 anos do concurso do Rio Branco".
Segundo ele, só houve um caso de aluno que não prosseguiu na carreira diplomática após terminar o treinamento. "Mas ele concluiu o curso do instituto."
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