Leia íntegra do bate-papo com Laura Capriglione sobre a ocupação da USP
da Folha Online
A jornalista Laura Capriglione, repórter especial da Folha, participou nesta quinta-feira de bate-papo sobre a ocupação do prédio da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) por alunos da instituição. O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes digitaram suas perguntas e respostas. Participaram do chat 295 pessoas.
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Bem-vindo ao Bate-papo com Convidados do UOL. Converse agora com o jornalista Laura Capriglione sobre a ocupação da reitoria da USP. Para enviar sua pergunta, selecione o nome do convidado no menu de participantes. É o primeiro da lista.
(04:58:33) Laura Capriglione: Boa tarde a todos! Então, podemos começar...
(05:01:05) carola: oi Laura, os ânimos estão quentes por lá hoje, né?
(05:02:06) Laura Capriglione: Carola, eu não estou lá na av. Francisco Morato... Vamos ver como termina o protesto.
(05:02:46) mario: Laura, qual a real reivindicação dos alunos?
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| A jornalista Laura Capriglione, que participou de bate-papo |
(05:04:01) Laura Capriglione: Mario, os estudantes estão contrários a uma série de decretos do governador José Serra que, segundo eles, ferem a autonomia universitária. Tb têm reivindicações de alimentação e moradia para alunos carentes.
(05:04:29) ricardo: Laura, vc acha q essa situação se extende até quando?
(05:06:40) Laura Capriglione: Ricardo, pelo que estamos vendo, o governador já sinalizou com um recuo, para resolver a crise. Agora, os estudantes, professores e funcionários terão de se reunir em assembléia para decidir o que fazer diante dessa nova situação. Uma nova assembléia está marcada para amanhã...
(05:06:49) João: Laura, você acha que o movimento está desfocado já que cada dia eles passam a reivindicar algo novo?
(05:08:20) Laura Capriglione: João, ao contrário. Desde o início, os estudantes focalizaram os decretos e as reivindicações voltadas aos estudantes carentes. Ficaram nisso. No meu modo de entender, faltava, sim, uma abertura de diálogo por parte do governador. Isso é o que começou a ocorrer hoje.
(05:08:23) maclaine: Laura, você acredita que o esclarecimento sobre os decretos publicado hoje pelo governador serao suficientes para acabar com a ocupaçao ainda esta semana?
(05:12:02) Laura Capriglione: Maclaine, são vários decretos. Um dispõe sobre contratações, outro sobre remanejamentos de gastos, outro... O que os estudantes estão dizendo é que precisam estudar a nova redação dos decretos para ver se, com isso, a autonomia estará preservada. Mas existe principalmente a questão do cansaço dos manifestantes. Afinal, já são 28 dias de invasão.
(05:12:21) Alexandre: Laura, sou quintanista de História nesta universidade. Gostaria de saber como você vê esta situação que, a meu ver, parece inédita: um egresso dos movimentos estudantis do início da ditadura é, agora, encarregado de negociar com o mesmo movimento estudantil, que o acusa de reacionário e de "colaborador das elites". Serra é tão conservador assim?
(05:14:59) Laura Capriglione: Alexandre, o que eu acho que aconteceu foi um erro grave do governador na condução da questão universitária. Você, como estudante da História, sabe que as condições do prédio de História e Geografia são precárias mesmo. Agora soma com as classes superlotadas e outros pontos. Mas a autonomia foi o fermento que fez a massa crescer...
(05:15:10) Haroldo: Como foi a visita ao "alojamento" dos alunos que esperam por uma vaga no CRUSP? Você acha que os alunos têm razão?
(05:17:39) Laura Capriglione: Haroldo, eu mesma, quando estudante da USP, fui moradora do Crusp. Nunca, durante o tempo que fiquei lá, as condições de moradia foram boas (sei que melhoraram muito de lá para cá). O problema é que tem muito mais gente entrando na USP e muito mais gente carente. Por isso, o pessoal se sujeita a morar em condições que, francamente, me deixaram constrangida. É muito precário. Triste. Parece uma cela de cadeia.
(05:17:57) Ex-uff: Laura, em algum momento os estudantes fazem autocrítica ou a ladainha é a mesma das greves e manifestações pelo país: mais recursos e autonomia. Custo por estudante, quantidade de funcionários, carga horária dos professores, há alguma posição nesse sentido?
(05:20:20) Laura Capriglione: Ex-uff, eu vi, por exemplo, vários estudantes criticando o fato de haver ex-alunos que se recusam a sair da moradia e a abrir espaço para os que estão chegando. Sim, acho que sim.
(05:20:27) João: Mas junto aos estudantes entraram os funcionários, professores, etc... Você acha que os decretos também influenciavam os salários? Esta não é uma reivindicação?
(05:22:38) Laura Capriglione: João, quando você vai para a frente da Reitoria, como eu fiz nesses dias, você vê uma paisagem humana que poderia encontrar numa praça da periferia mais pobre de São Paulo. Não parece que se trata da maior universidade da América Latina e uma das mais importantes do mundo. Isso, acho diz alguma coisa, não é?
(05:22:50) Haroldo: Laura, um dos primeiros decretos previa que a presidência do CRUESP ficaria com o prof. Pinotti quebrando uma dinâmica que vem de muito tempo, na qual os reitores fazem rodízio na presidência, o que vc acha que Serra pretendia?
(05:24:34) Laura Capriglione: Haroldo, eu já disse: acho que o Serra errou. Aliás, o próprio Paulo Renato, tucano como Serra, ex-ministro da Educação e ex-reitor da Unicamp, acha isso. Sinal da gravidade do erro.
(05:24:45) Haroldo: Laura, um jornalista da Folha disse que ali havia uma aglomeração de "maria-mijonas", "chineludos" e "filhinhos-paletó-do-papai", como vc caracteriza o movimento pelo que viu?
(05:26:52) Laura Capriglione: Haroldo, eu escrevi um texto sobre os estudantes que vi na Reitoria. Acho que tem muito estudante pobre, muito negro (como não havia na universidade na época em que estudei lá), pouca influência das organizações políticas tradicionais do Movimento Estudantil...
(05:26:59) Vanessa: Laura, você fez uma visita à ocupação? Como está a situação? Eles estão organizados, está tudo em ordem?
(05:28:31) Laura Capriglione: Vanessa, hoje, a atividade principal é a passeata que eles estão fazendo (tentativamente) até o palácio do governo. Mas nos dias "normais" a coisa é bem tranqüila, uns 300 estudantes em sistema de rodízio, mantém atividade permanente no prédio da reitoria.
(05:28:33) politécnico: Laura, o secretátio Pinotti e o próprio governador afirmam claramente que a autonomia das universidades não é ou será alterada. Eles mentem (ou mentiram) quando dizem isso?
(05:30:26) Laura Capriglione: Politécnico, o secretário Pinotti e o governador disseram claramente que a autonomia das universidades não é ou será alterada, vc tem razão. Mas não é isso o que estava escrito no texto dos decretos. Eles diziam que não mexeriam com a autonomia, ok. Mas e se vier um outro governador que queira mexer? Já está no decreto. Entendeu?
(05:30:49) Gonçalo: laura, parece-me que a sopciedade (mídia) paulistana está tratanto o proptesto da garotada da usp como se fosse coisa só de s. paulo....o desgaste, a falência e os desmandos nas Universidades estão espalhados em todo o país...o que vc acha disto?
(05:32:51) Laura Capriglione: Gonçalo, acho que você tem razão. Hoje mesmo foi divulgado o resultado do Enade (exame nacional de desempenho do aluno). Foi uma tragédia. A média nacional dos cursos avaliados é menor do que 50 (em 100 pontos possíveis). É preciso enfrentar o problema da formação superior neste país, até para podermos ter um projeto de nação.
(05:32:56) Cidadão Queine.: Senhora, o atual movimento, grosso modo, não opõe o conceito de autonomia ao de autoridade?
(05:35:17) Laura Capriglione: Cidadão Queine, legal a sua pergunta. Mas a questão a autonomia tem a ver com o fato de a universidade envolver projetos de pesquisa que duram muito tempo, e que devem estar submetidos apenas (e já é muito) a critérios científicos. Você imagina se vem um governador que (como aconteceu no Rio de Janeiro) queira ensinar, por exemplo, o criacionismo? Ou que ache que a pesquisa básica é um desperdício? É o fim da universidade...
(05:35:21) GrilleSaubestr: Esses decretos mau escritos foram a gota d'água para uma série de reinvidicações dos universitários, como voce citou, a precariedade da FFLCH, o crusp... Eu sou sou aluno da FAU e acho o Serra um babaca.. O que eu tenho medo é que os manifestantes mais radicais se manifestem por interesses partidários que vão além de uma luta por uma universidade melhor
(05:37:14) Laura Capriglione: GrilleSaubestr, acho que uma forma de os estudantes manterem o controle sobre o seu movimento é participando das assembléias e plenárias. E que a maioria se expresse.
(05:37:33) Alexandre: Laura, estive na Ocupação no sábado da última Virada Cultural. Saí de lá às 23h, dirigindo-me para o Centro, para assistir às apresentações. Às 2h30m já estava na Praça da Sé para assistir ao espetáculo que mais aguardava, o dos Racionais MC's. Me encontrava próximo do local onde eclodiu a confusão entre alguns jovens e a Polícia, que quase acaba em tragédia, como todos viram. Aquilo me provocou, de forma indelével, uma impressão que, creio, carregarei para o resto da vida: a de que se você faz parte do trinômio dos dois pês - preto e pobre - a negociação não durará mais do que dez minutos. Me recordo que, naquela noite, deixei uma Reitoria que contava (e ainda conta) com serviços plenos e sem cortes de luz, água e mesmo internet. A negociação por aqui já dura quase um mês, e na Sé durou dez minutos. Qual a diferença?
(05:41:55) Laura Capriglione: Alexandre, eu achei horroroso o que aconteceu na Virada Cultural e concordo com você que fica um travo na garganta quando a gente vê como aqueles meninos foram escorraçados da praça. Mas eu acho que a situação na USP é um pouco diferente. Veja, eles não estão quebrando nada... Não entraram em um prédio estranho --a reitoria ocupa um prédio público da universidade em que eles estudam... Isso cria uma situação um pouco diferente. Ademais, os estudantes procuraram se organizar, procuraram a solidariedade dos professores e funcionários. Isso muda muito...
(05:42:02) Sol_Azul: Os alunos, funcionarios e docentes fizeram desde o inicio e provavelmente, muito antes da ocupação, varias reinvidicaçoes diretamente à reitoraria o que vai muito além da questão "decreto serra" seria esse recuo do governador uma tatica para dividir o movimento que ganha força e ameaça envolver outras universidades Brasil a fora, ou ja deram sinais de recuo em outras pautas?
(05:43:48) Laura Capriglione: Sol_Azul, a Reitoria já concedeu vários pontos da pauta de reivindicações...
(05:43:53) Haroldo: Que saber disso: que vc foi moradora do CRUSP. Porque reina um esteriótipo de que ali vivem "chineludos" e "maria-minojas", gente desocupada e revolucionária.
(05:46:33) Laura Capriglione: Haroldo, eu morei no Crusp com um politécnico que estudava de manhã, de tarde, de noite e de madrugada. Se tinha um cara que não era desocupado e que não tinha nenhuma pretensão revolucionária era ele. Eu acho que o Crusp em que eu morei era como qualquer agrupamento humano: tinha os cabeludos e os carecas, os de esquerda e os de direita e os que não eram nada. Simples assim.
(05:46:50) zezo: Laura, vc acha que há chances de a Tropa de Choque entrar em ação para desocupar a reitoria? A que vc atribui o fato de boa parte da elite brasileira defender essa medida? Isso não revela um ranço autoritário e recusa a qualquer possibilidade da ordem vigente, tão característicos ao comportamento dela ao longo da história?
(05:48:38) Laura Capriglione: Zezo, eu acho que há, sim, chance de a tropa de choque fazer a reintegração de posse. Afinal, existe uma decisão da Justiça nesse sentido. Tomara que não aconteça... mas, chance existe sim
(05:48:43) Karla Tamarozzi: Laura, boa tarde! entrei para saber sua opinião sobre as últimas matérias da veja, gostaria de saber se vc concorda com a angulação da revista...?
(05:50:54) Laura Capriglione: Karla Tamarozzi, fico em um detalhe, ok? Eu entrei na reitoria. Vi várias comissões reunidas. Entrei nos banheiros, que estavam limpos. Vi alunos regando o jardim interno. Não vi sujeira espalhada nem senti o cheiro de nenhuma fedentina, como consta na revista.
(05:51:05) CAASO: Como a senhora viu o Decreto Declaratório publicado hoje pelo governador, será que apenas isto é suficiente para garantir a continuiadade da autonomia universitária mesmo com os decretos anteriores?
(05:52:06) Laura Capriglione: CAASO, eu precisaria reler todos os decretos, para ter uma posição mais consistente sobre o assunto. Fico devendo.
(05:52:08) GREVE JA: afinal é valida a invasão da reitoria para melhorar a universidade já que é fato os diversos problemas dela?
(05:54:30) Laura Capriglione: Greve Já, a Justiça acha que não é válida. Vários professores manifestaram-se também contrários à invasão, entre eles o diretor da FFLCH, Gabriel Cohn, de quem me lembro como um cara legal. Agora, o fato é que a invasão obrigou todo mundo a prestar atenção de novo na USP. Isso ninguém pode negar.
(05:54:31) Gabriel: Laura, vc acha que o movimento atual dos estudante tem motivações políticas como afirma Serra?
(05:58:01) Laura Capriglione: Gabriel, eu estudei na USP durante uma época de forte politização. A diferença de agora é que a maioria das lideranças dessa invasão não tem filiação partidária nenhuma (nem PT, nem PSOL, nem PSTU, nada). Eles nem sabem se são marxistas, ou anarquistas ou difusamente de esquerda. As entidades tradicionais, tipo UNE, DCE, UEE, tb ficaram para trás. Eu acho que, no fundo, todos os atos são políticos, mas esse movimento não é político no sentido mais convencional do termo.
(05:58:08) Discreto: vc não acha que está na hora de o governo impor a sua autoridade pela força? ninguém quer ceder e os interesses do Estado têm de estar acima dos direitos dos cidadãos. é o bem coletivo sobre o comum.
(05:59:28) Laura Capriglione: Discreto, eu acho que a imposição pela força é a pior forma de fazer política. Vc está vendo: começa a haver um diálogo. É auspicioso que ele aconteça. E que o fim seja pacífico. Este é o espírito universitário: o do diálogo.
(06:00:12) Laura Capriglione: Pessoal, muito obrigada pela honra de poder conversar com vocês. Até a próxima.
(06:00:17) Geovanna/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Laura Capriglione e de todos os internautas. Até o próximo!
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