Após 51 dias, estudantes desocupam prédio da reitoria da USP
CLAYTON FREITAS
da Folha Online
Ao som de "Prá não dizer que não falei das flores", do cantor Geraldo Vandré, letra ícone de luta contra a ditadura no Brasil, estudantes e servidores que ocupavam o prédio da reitoria da USP (Universidade de São Paulo) desde o dia 3 de maio, saíram do local e promoveram uma "limpeza" nas calçadas com baldes de água e uma mangueira.
Eles decidiram desocupar o local durante assembléia realizada a quinta-feira (21), com a presença de cerca de 300 alunos. No ato os alunos aprovaram uma contraposta feita pela direção da universidade formulada com base nas reivindicações feitas por eles.
A saída começou a ser feita no prazo combinado com a direção da universidade, a partir das 16h de hoje, no entanto só foi concluída por volta das 19h30. Durante esse período houve um impasse entre os servidores, alunos e a reitoria.
Os alunos exigiam a assinatura do documento por parte da reitora Suely Vilela e condicionavam a retirada total do prédio somente após verem o Termo de Compromisso assinado. Por outro lado, a reitora só queria assinar o papel quando tivesse a informação de que os alunos tinham desocupado o prédio.
Um grupo de servidores e alunos foi recebido por Vilela no prédio do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), local onde a reitora trabalha desde a ocupação do prédio da reitoria pelos alunos. O gabinete de Suely fica dentro do prédio invadido pelos estudantes.
Devido a isso, teve início a um entra e sai do local que durou até por volta das 19h. Em meio a idas e vindas, alunos e servidores saíam do prédio carregando colchões, bicicletas, roupas, alimentos e pertences pessoais.
Foi necessária a presença do chefe de gabinete da reitoria, Alberto Carlos Amadio, para avaliar a situação do local e informar, por telefone, a reitora Suely Vilela sobre as condições do prédio. O contato foi feito, mas um novo empecilho foi colocado pelos alunos que insistiam na ocupação: precisavam se reunir para autorizar os demais a assinar o documento em nome da ocupação. Após ser informada a respeito da situação do local, ela assinou o documento e a comissão se dirigiu até a reitoria ocupada.
O grupo adentrou o local levando em suas mãos uma cópia do documento. Entre eles estavam os professores István Jancsó, do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros) e Luis Renato Martins da ECA (Escola de Comunicação e Artes da USP), dois dos cinco integrantes do grupo de "facilitadores" que auxiliou na formulação dos documentos para os estudantes e servidores.
Tumulto e festa
Após verem o documento, cerca de 500 estudantes e servidores que estavam dentro do prédio começaram a sair. Depois da lavagem da calçada, outro grupo tirou a lona preta que cobria a entrada principal ao prédio. Eles programaram uma saída conjunta do local.
No momento em que o rádio do carro de som que estava na rua defronte ao prédio tocava músicas de Raul Seixas, tambores ecoavam dentro do prédio da reitoria e o grupo saiu empunhando cartazes com dizeres como "Vejam o realismo, fizemos o impossível", "Mães estamos bem", "Desocupamos a reitoria para ocupar a USP", e uma bandeira do Estado de São Paulo com uma inscrição vermelha "Livre".
Eles alternavam gritos de "Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil" com exigências de saída da imprensa pelos locais por onde passavam. Alguns ficaram irritados e empurravam os jornalistas. Depois do tumulto, eles se reuniram na rua defronte ao prédio ocupado e alguns se abraçavam e outros, choravam. Enquanto a música tocava, o locutor do carro de som convidava os alunos para outra ocupação, só que nas mesas do bar improvisado no C.A. (Centro Acadêmico) da ECA (Escola de Comunicação e Artes) da USP, onde uma festa estava programada.
Diálogo
Em uma nota de seis linhas de extensão a reitoria da USP comunicou de forma seca e direta que "hoje, dia 22/06/07, no início da noite, as dependências do prédio da Administração Central foram desocupadas e, em decorrência, entregues os termos de compromisso firmados com os funcionários e estudantes".
A nota cita ainda que universidade, apesar das dificuldades encontradas, conseguiu superar
os entraves por meio do diálogo.
A reportagem enviou uma lista de nove perguntas à reitora Suely Vilela. Sua assessoria informou que ela não teria condições de responder as perguntas nesta sexta e nem precisou quando a docente iria ter disponibilidade para conceder a entrevista ou responder as perguntas formuladas.
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