Para ministro português, relação romântica com idioma gera resistência a mudanças
DEH OLIVEIRA
colaboração para a Folha Online
A relação "quase física" de alguns escritores e poetas com a língua portuguesa motiva a resistência às regras do acordo ortográfico em Portugal. A opinião é do ministro da Cultura português, José Pinto Ribeiro. Segundo ele, para alguns poetas, é como se as palavras tivessem cheiro, cor, peso e volume.
Mas Pinto Ribeiro acredita que, com o tempo, o assunto será esquecido e as novas normas serão incorporadas naturalmente, como já aconteceu diante das mudanças anteriores ocorridas na ortografia. A seguir, trechos da entrevista do ministro, que esteve no Brasil no início de junho.
FOLHA ONLINE - Em Portugal, o acordo já foi aprovado pelo parlamento. O que falta agora para entrar em vigor?
JOSÉ PINTO RIBEIRO - Falta a publicação do decreto de ratificação, que é o instrumento através do qual o presidente da República dá execução à ratificação feita pelo Parlamento. Todas as leis em Portugal têm de ser promulgadas pelo presidente da República, e só depois é que são publicadas na folha oficial. É a única coisa que falta.
FOLHA ONLINE - Existe risco de ele não promulgar? E o que acontece caso isso ocorra?
RIBEIRO - O presidente da República era o primeiro-ministro quando o acordo ortográfico foi assinado e foi ratificado, em 1991. Portanto foi o governo dele quem negociou o acordo ortográfico. Não creio que seja politicamente expectável do senhor presidente da República, que nunca disse que tivesse mudado de opinião relativamente ao acordo ortográfico que ele mesmo negociou e que ele propôs a sua ratificação. Portanto, não creio que não possa ratificar.
FOLHA ONLINE - Ele tem prazo para fazer isso?
RIBEIRO - Não tem um prazo. A partir de maio, em mais ou menos dois meses acontecerá a ratificação.
FOLHA ONLINE - Em Portugal houve certa resistência ao acordo, de grupos de intelectuais inclusive. Por quê?
RIBEIRO - Há uma alteração na ortografia portuguesa, como há na ortografia do português escrito no Brasil, que perturba alguns dos escritores e poetas, que têm uma relação com a língua quase física. As pessoas que são poetas sentem que as palavras têm cheiro, cor, volume, densidade, peso. Quando a gente escreve durante anos cisne com "y" e passa a escrever sem aquilo, perturba. Fernando Pessoa disse, quando houve a reforma ortográfica de 1911: "eu vou continuar a escrever cisne com 'y' porque isso me lembra e é mais conforme com o pescoço comprido do animal".
Com certeza tudo isso é respeitável, ninguém impede que os escritores continuem a escrever como quiserem. Há umas pessoas agora que acham que isto lhes causa confusão. Pois não há problema nenhum. Também há umas pessoas que acham, politicamente, que Portugal deveria assumir uma atitude de olímpicos interesses em questão ortográfica. Acham mesmo que a questão ortográfica não é uma questão importante e, portanto, acham que nós estamos no fundo a ser regidos, dirigidos, determinados pelo Brasil, em vez de sermos determinados por nossos próprios interesses.
Nada disso é verdade. Não há mais legitimidade dos portugueses ou dos brasileiros para definir a norma, porque somos todos falantes do português. Da mesma maneira como há palavras que são diferentes entre o Porto e Lisboa e há formas de escrever que não são as mesmas, mas isso não tem problema nenhum, é normal. Portanto, aquilo que estamos a tentar fazer é unificar a grafia. Os escritores, os poetas, as pessoas são livres para escreverem como entenderem. Não tem mal nenhum, não se paga multa se escrever farmácia com "ph". Se os romancistas o quiserem fazer, ótimo. Provavelmente o que vai acontecer é que daqui a 10, 15, 30 anos, estarão todos tão habituados que escreverão todos como agora se passará a escrever.
FOLHA ONLINE - A ex-ministra da Cultura era contra o acordo? Isso dificultou a ratificação?
RIBEIRO - Quem exerceu as funções antes de mim, a professora Elisabete de Lima, não tinha uma idéia muito clara sobre esse ponto e se rendeu a uma posição que me pareceu politicamente injustificada. Ela defendia que Portugal ratificasse o segundo protocolo adicional [que reduziu para três o número de países necessários para ratificar o acordo para as regras entrarem em vigor] e, ao mesmo tempo, dissesse que o acordo entrasse em vigor só dez anos depois de nós o ratificarmos. Era como se nós fizéssemos um casamento e depois disséssemos que o casamento entrava em vigor em dez anos. Então, o melhor é não ratificar, se a gente só quer casar daqui a dez anos. Essa é uma coisa um pouco estranha.
FOLHA ONLINE - Na opinião do senhor, o que representa para a comunidade lusófona esse acordo?
RIBEIRO - A possibilidade de desenvolvermos uma política comum de língua, será afirmarmos esse modo de ser e de pensar, essa forma de equacionar os problemas no mundo todo. Representa a possibilidade de todos nós nos entendermos na análise de problemas, de fazermos e de impormos o português como língua nas organizações internacionais. Isso representa um conjunto de vantagens muito grande para a possibilidade de fazermos negócios entre nós, de nos expandirmos enquanto forma de pensar, enquanto forma de afirmação, enquanto forma de filiação. Representa evitar que as maneiras da língua portuguesa, do ponto de vista da ortografia em cada um dos Estados, se afastem uma das outras, em vez de se ancorarem e se aproximarem.
FOLHA ONLINE - Há muito problema em relação a documentos em organismos internacionais?
RIBEIRO - Havia muitos documentos oficiais que tiveram de ser feitos em duas versões porque havia uma grafia portuguesa e uma grafia brasileira. Houve relações com os EUA e com Estados dos EUA em que foi difícil, ou mesmo impossível, fazer com que o português fosse a segunda língua, enquanto nesse país havia comunidades de língua portuguesa brasileira e de portugueses. Por que diziam: qual a gente usa? Isso aconteceu, por exemplo, no Massachusetts. Houve dificuldade na dupla grafia para que o português fosse adotado como segunda língua em escolas oficiais de outros países porque discutiam qual grafia iriam adotar, a brasileira ou européia.
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