Autores criticam prazo para adaptar livros a novas normas de escrita
DEH OLIVEIRA
colaboração para a Folha Online
A determinação do MEC (Ministério da Educação) para que livros didáticos que serão utilizados nos cinco primeiros anos do ensino fundamental em 2010 sejam editados já com a nova ortografia pegou de surpresa os editores.
"A mudança conturbou. Na verdade, o problema não é a entrada em vigor, mas sim o imediatismo, a pressa", afirma José de Nicola, presidente da Abrale (Associação Brasileira dos Autores dos Livros Educativos), entidade que reúne os principais autores do país.
Apesar de o edital do MEC para a compra dos livros ter sido publicado em janeiro, somente em maio surgiu a determinação obrigando que as obras fossem redigidas com a nova ortografia. Os editores propuseram que a medida valesse só em 2012, já que em Portugal o prazo para as novas regras entrarem em vigor é de seis anos.
Segundo Nicola, por causa da exigência, o material teve de ser revisado. Inicialmente, os protótipos dos livros deveriam ser entregues para análise do ministério entre 26 de maio e 4 de julho. Devido à exigência, o prazo foi prorrogado por mais 30 dias. "Nos livros de português o trabalho é mais complicado, porque não é só revisar, tem de alterar o conteúdo, mudar o capítulo sobre acentuação, emprego do hífen", diz o presidente da Abrale.
A falta de definição em alguns pontos do acordo também dificultou o trabalho, segundo Nicola. "Enquanto não sair o dicionário da Academia Brasileira de Letras, ninguém põe a mão no fogo", afirma, se referindo ao Volp (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), previsto para ser concluído em novembro. O livro, elaborado pela Academia Brasileira de Letras, estabelece a grafia padrão para as palavras em língua portuguesa.
Na contramão
Enquanto o mercado editorial preferiu esperar uma decisão que pusesse fim ao impasse sobre o acordo, a editora Nova Geração, que também trabalha no segmento de didáticos, resolveu se antecipar. Desde o ano passado a empresa começou a atualizar os livros que edita já com as regras que entrarão em vigor a partir do ano que vem.
"Todas as nossas obras já estão em conformidade com as novas regras", orgulha-se Arnaldo Saraiva, dono da Nova Geração. O empresário defende a tese de que juridicamente o acordo vale desde que São Tomé e Príncipe ratificou o Acordo Ortográfico, completando o número de três países membro da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) exigidos para a aprovação do documento.
Saraiva afirma que chegou a cobrar das autoridades a entrada em vigor das novas regras, enviando mensagens para vários políticos. Segundo ele, só a Presidência da República respondeu. "Esse é o país do silêncio", critica.
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