Melhor da América Latina, Chile aposta em avaliação de professores
FÁBIO TAKAHASHI
Enviado especial da Folha a Buenos Aires
Melhor país da América Latina em exames internacionais de aprendizagem na educação básica, o Chile tem seus alunos em período integral, currículo organizado e escolas com boa infra-estrutura. Seus pontos fortes, porém, são a formação e a avaliação dos professores, afirma a ministra da Educação chilena, Mónica Jimenez.
O sistema prevê exames permanentes aos 80 mil docentes e os que não melhoram podem até ser excluídos da rede. E a partir deste ano o processo começa já para os estudantes recém-graduados nos cursos de formação de professores.
Outra característica do sistema educacional chileno é seu financiamento: há escolas particulares que recebem subsídio do governo federal (50% das matrículas) e ainda podem cobrar mensalidade; as municipais, que também recebem dinheiro do Estado (42% da rede); e as particulares sem recursos estatais (8%).
O sistema, que existe desde 1982, deverá sofrer uma alteração neste ano. O governo pretende criar órgãos para fiscalizar tanto o dinheiro público investido nas escolas particulares quanto a qualidade desses estabelecimentos.
A mudança está prevista na Lei Geral da Educação, que sofre fortes críticas dos estudantes do ensino médio, que entendem que não podem haver instituições privadas na educação --o movimento começou em 2006 e ficou conhecido como "marcha dos pingüins", por conta do uniforme que os alunos usam.
Abaixo, a entrevista concedida por Jimenez, 68, a jornalistas brasileiros durante o seminário do Unicef que discute o ensino médio, em Buenos Aires. Ela explicou detalhes do sistema educacional chileno, que investe 7% do PIB (Produto Interno Bruto) em educação e teve média 438 em ciências no último exame do Pisa (os números brasileiros são, respectivamente, 4% e 390).
FOLHA - O Chile é tido como um exemplo de educação na América Latina. O modelo com escolas subsidiadas pelo Estado é o responsável por essa melhora?
MÓNICA JIMENEZ - O que houve foi uma política pública sustentada desde os anos 1990 em função da educação. O país tem feito grandes investimentos, com melhora na remuneração dos professores, em infra-estrutura, em equipamentos e se aumentou a jornada escolar; 90% das crianças estão oito horas no colégio, de todos os setores, inclusive a educação média. Isso significa que as crianças têm alimentação completa na escola. Estamos distribuindo mil calorias diárias, a 2,5 milhões dos 3 milhões dos nossos alunos. Eles recebem 57 livros escolares, lápis, borracha, estão sendo examinados medicamente, com atenção dentária, e todos os que precisam ganham óculos.
Toda essas políticas são as que contribuem para melhorar a qualidade da educação. Há colégios particulares subsidiados que são muito destacados. E também há municipais fantásticos. Ou seja, temos os três modelos de educação que coexistem. Os nossos exames internos mostram que as únicas variáveis que se correlacionam com o êxito escolar são a qualidade dos professores e a situação sócioeconômica das crianças. Uma criança que sempre teve professores de excelência tem bom resultado. Por isso, a política para formar melhor os professores é a mais importante. E avaliamos muito os professores.
FOLHA - O que o Chile faz para capacitar melhor os professores e o que acontece com os que vão mal nas avaliações?
JIMENEZ - Os professores não queriam ser avaliados. Começamos isso há dez anos. Todo professores que são declarados de excelência recebem incentivos econômico, parte para ele e parte para a escola. Recebem computadores e oportunidades especiais de capacitação fora do país. Aos que se saem mal, damos um ano para que melhorem, mandamos ele de novo para a universidade e pagamos os salários. Neste período, o professor fica fora da sala de aula. Se pela terceira vez ele se sai mal, tem de deixar o sistema. Isso é raro, mas já ocorreu, 20 perderam o emprego até hoje.
Agora começamos com uma estratégia firme para a formação de professores. Porque nos países que vão muito bem, eles escolhem como professores os melhores alunos do ensino médio. Isso se faz na Finlândia, Coréia, Cingapura. Estamos longe disso. Depois você precisa ter remuneração que seja parecida à dada a medicina, direito. Também estamos longe disso. Depois tem que ter universidades que formem um professor tão bem como se forma um médico. Também estamos longe.
Mas, como os dois primeiros pontos são muito difíceis, partimos para as universidades. Faremos um exame em novembro para todos os que estão saindo da universidade. Será o mesmo exame que aplicamos aos professores. E cada um receberá uma carta mostrando a ele quanto sabe do que deveria saber. Isso vai permitir que se faça um plano de melhoramento individual, que é importante. Ao mesmo tempo, a universidade vai ver o resultado desse grupo que se formou e terá que fazer um plano de melhora para a instituição. Vamos dar recursos e assessoria.
FOLHA - De todas as mudanças feitas no Chile, qual a sra. acredita que o Brasil poderia implementar?
JIMENEZ - Acredito muito no esforço que estamos fazendo na educação infantil. Deve-se valorizá-la, junto com a leitura e a escrita. Mas mesmo no Chile as crianças estão demorando muito para ler e escrever. As crianças têm de aprender logo aos sete anos. Esse deveria ser um programa essencial para a América Latina: a leitura mais cedo. E também tem de fazer o fortalecimento das operações básicas matemáticas.
FOLHA - Os professores reclamam de terem de seguir um currículo?
JIMENEZ - No Chile há um currículo nacional comum há dez anos [no Brasil, há apenas diretrizes curriculares, que cada rede pode decidir como aplicá-la]. E fizemos mapas de aprendizagem, ou seja, mostramos o que os alunos devem aprender a cada série. Temos um exame que diz quanto ele aprendeu e quanto não aprendeu. É um conjunto, temos currículo, mapa de aprendizagem e avaliação. Os professores reclamam porque dizem que a educação não é só aprendizagem de conhecimentos, dizem que a educação é muito mais que isso. É claro que é, mas também é isso.
FOLHA - Quais são as mudanças que o Chile pretende implementar com a Lei Geral da Educação [que deverá ser votada em novembro]?
JIMENEZ - Atualmente, há três tipos de estabelecimentos. Os particulares pagos, que representam uma porcentagem pequena, os públicos municipalizados e os particulares subsidiados, que recebem dinheiro do Estado, mas são de propriedade de fundações, incorporações e pessoas.
Se se quer fazer algo com qualidade, é difícil ter lucro [as escolas recebem US$ 110 ao mês por aluno]. Mas há um conjunto de estabelecimentos educacionais que, sacrificando a qualidade, tem conseguido lucros. Por isso é tão importante a Lei Geral da Educação, que vem a regular esta situação, criando a superintendência de educação, um órgão que pretende, entre outras coisas, controlar o lucro. Queremos que os estabelecimentos sejam administrados somente por pessoa jurídica com finalidade apenas para a educação. Por que isso é tão importante? Porque atualmente, como isso não está exigido em lei, qualquer um que tem um colégio recebe o dinheiro do Estado. Se possui, por exemplo, uma plantação de goiabas, pode usar o dinheiro para fertilizar sua produção. O uso do dinheiro necessita de um ente regulador.
Além disso, estamos criando uma agência de qualidade. O Chile já não está na etapa de atendimento. O que temos de fazer agora é qualidade, com eqüidade. Estamos criando padrões de qualidade para os estudantes, para cada série. O aprendizado será medido por uma prova nacional. Ou seja, quando o pai vai matricular seu filho, a escola pode dizer: esse é o mapa do que ele vai aprender neste ano.
FOLHA - Como será esse acompanhamento? E o que ocorrerá com as escolas que não cumprirem as metas?
JIMENEZ - Haverá sanções. A agência vai classificar as escolas em quatro níveis. Os que estão muito bem terão mais autonomia, mas os que estão mal terão de apresentar seus planos de melhoramento. Se depois de um período não houver a melhora, a proposta é que sejam quatro anos, a escola pode ser fechada ou pode ser nomeado um administrador profissional.
FOLHA - Por que há tantos protestos contra a Lei Geral da Educação?
JIMENEZ - Alguns querem que se acabe essa situação de particulares subsidiados. Querem que tudo seja público. Eles consideram que o que estamos fazendo é um aperfeiçoamento, mas não uma mudança radical.
FOLHA - Por que não se pode acabar com o subsídio a escolas particulares?
JIMENEZ - Porque a Constituição não permite, e o Chile é um país dividido em duas metades políticas. Para fazer uma mudança legal, precisa mudar o Parlamento. E ocorre que a Concertação [grupo política que governa o país desde o fim da ditadura, em 1990] não é maioria. Ela só pode fazer acordos. Acho que um setor importante da Concertação gostaria de acabar com o financiamento compartilhado.
FOLHA - Como a sra. avalia a importância da educação média (antigo colegial) ser obrigatória? O Brasil deveria implementá-la?
JIMENEZ - A educação obrigatória no ensino médio é importante, o Brasil deveria implementá-la [Chile e Argentina já fizeram]. Mas isso significa uma mudança muito grande. A sociedade tem de querer a obrigatoriedade, criar condições familiares para que o jovem vá à escola e não trabalhe. Não se pode fazer apenas uma simples declaração.
O jornalista FÁBIO TAKAHASHI viajou a convite do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância)


