Exposição sobre evolução dos automóveis ajuda a entender era JK
JOÃO BONTURIespecial para a Folha Online
A exposição "A Evolução do Automóvel", em São Bernardo do Campo (Grande ABC paulista), é para todos que entre as décadas de 50 e 70 pensaram em descer a rua Augusta a 120 por hora, conforme cantava Ronnie Cord, um dos pioneiros do rock brasileiro, ou pararam na contramão, como num dos primeiros sucessos de Roberto Carlos. Cerca de cem carros nacionais e importados podem ser vistos até o próximo domingo (29), prazo em vias de ser prorrogado, segundo os organizadores.
João Bonturi/Folha Imagem Willys Interlagos (1965) |
Estão presentes os modelos esportivos de dois lugares como Willys Interlagos, Karmann Ghia e SP 2, que eram os sonhos dos solteiros e o terror das sogras; o Sedan VW (Fusca), e o DKW Vemag Belcar, que foram os primeiros carros de muitas famílias pequenas, nos anos 60; as peruas VW Kombi e Chevrolet Veraneio, utilizadas pelas famílias mais numerosas; o Chevrolet Opala e o Ford Galaxie, símbolos da época do "milagre brasileiro" do inicio dos anos 70. Veja galeria de fotos.
Entre as raridades nacionais estão o Presidente, modelo Democrata (1965), único sobrevivente da idéia do empresário Nelson Fernandes, em produzir um automóvel 100% nacional; o Willys Itamaraty
Executivo (1967), uma limousine que serviu aos presidentes da República, desde o marechal Castello Branco até Fernando Collor de Mello; e a bizarra Romi Isetta, um "ovo" sobre rodas, equipada com o motor das motos BMW.
Dos carros importados dos anos 60, que eram privilégio de poucos, está entre as preciosidades um Ford Mustang Fast Back. Recuando ao tempo dos bisavôs, ao lado da reluzente Jardineira Ford 1931, outros veículos impressionam como o Packard 1930, digno dos chefões mafiosos dos filmes
hollywoodianos de gangsterismo.
Entenda o momento da criação da indústria automobilística no Brasil
O suicídio de Getúlio Vargas (1954) gerou uma crise política em que três presidentes passaram pelo poder em menos de dois anos: Café Filho, vice de Getúlio; Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, e Nereu Ramos, presidente do Senado.
Em 1955, Juscelino Kubitschek, da coligação PSD-PTB, que havia sido prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais, foi eleito presidente da República com 36% dos votos em um único turno, de acordo com a Constituição de 1946. Juarez Távora, da UDN (União Democrática Nacional), obteve 30%, e Ademar de Barros, do PSP (Partido Social Progressista), alcançou 26%. A vitória apertada mostrou que só com grande habilidade política o presidente seria bem sucedido.
O tema do debate que polarizava as atenções era o desenvolvimento ligado à
industrialização. Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as exportações brasileiras acumularam saldos positivos devido ao avanço da industrialização por substituição de importações. No pós-guerra, enquanto os norte-americanos e soviéticos estavam preocupados com o início da Guerra Fria, e os europeus ocidentais, com o dinheiro do Plano Marshall, reconstruíam o que fora arrasado, a discussão brasileira sobre a fórmula para a continuidade do progresso era polarizada entre a UDN, que desejava a entrada sem restrições dos investimentos do capital estrangeiro, e o PTB, que condenava o uso desse capital.
JK optou por uma política econômica definida como nacional-desenvolvimentista, ao invés de puramente nacionalista. De espírito conciliador, essa terceira via ampliou os investimentos diretos do Estado no setor de infra-estrutura, estimulou as empresas privadas nacionais e possibilitou os investimentos do capital estrangeiro. Assim, com ênfase na industrialização, promoveu o crescimento. Para ligar esses elementos, JK usou o seu contagiante otimismo, que eletrizava quase todos os segmentos da população.
Para atingir seus objetivos, JK traçou o Programa de Metas, através do qual pretendeu cumprir o slogan da sua campanha, "50 Anos em 5" (50 anos de progresso em 5 anos de governo). O plano tinha 31 objetivos, distribuídos em 6 grupos: energia, transportes, alimentação, indústrias de base, educação e a construção de Brasília, chamada meta-síntese.
Para executá-lo criou órgãos paralelos à administração pública como a Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), para atrair investimentos ao Nordeste; a Novacap (Nova Capital), para empreender a construção de Brasília, e o Geia (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), para facilitar a instalação dessa indústria. JK também foi assessorado pelo Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), órgão subordinado ao Ministério da Educação. A importância dessas instituições reside na participação efetiva de representantes dos setores organizados da população junto ao governo. JK sempre deixou clara a sua fé na democracia.
Os resultados foram compensadores, sobretudo no setor industrial. Entre 1956 a 1961, o valor da produção industrial, descontada a inflação, cresce 80%, com altas porcentagens para as indústrias de aço (100%), mecânicas (125%), eletricidade e comunicações (380%), e de material de transporte (600%). Entre 1957 e 1961, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu 7% anualmente, correspondendo a uma taxa per capita de quase 4%. Isso foi três vezes maior do que o resto da América Latina.
O símbolo de toda essa política foi a construção de Brasília, cujo projeto foi elaborado por Oscar Niemayer e Lúcio Costa. Porém, a nova capital serviu também para desviar a atenção de outros problemas nacionais, como a reforma agrária e a reformulação do sistema universitário.
Nos dois casos, os otimistas afirmavam que a construção da nova capital produziria efeitos colaterais e provocaria a solução das questões. No setor agrário a construção de novas estradas em direção a Brasília abriria áreas anteriormente incultas e facilitaria o escoamento no ineficiente sistema de distribuição de alimentos. No âmbito educacional, a futura Universidade de Brasília serviria como modelo para a reforma do ensino em todo o país. O apelido Capital da Esperança não era em vão.
A política de JK produziu índices expressivos de crescimento, mas também foi criticada por provocar o aumento das taxas de inflação. Os sintomas do desequilíbrio financeiro apareceram porque o governo se recusou a comprometer as metas de industrialização. Embora fosse preparado o Plano de Estabilização Econômica, por Lucas Lopes e Roberto Campos, os otimistas e a esquerda o repudiaram e taxaram seus autores como lacaios do FMI (Fundo Monetário Internacional).
A essa altura, em agosto de 1959, JK não quis diminuir o brilho da sua estrela, com um programa de estabilização da moeda que exigiria sacrifícios da nação. Num ato corajoso, JK rompeu as negociações com o FMI. Assim, o progresso vibrava sob o escudo nacionalista, porém a bola era passada para frente. O próximo presidente que herdasse e resolvesse esses problemas.
O quê: A Evolução do Automóvel
Onde: Espaço Redenção, Pavilhão B, ao lado do "Poupa Tempo", na Av. Redenção 221, Centro, São Bernardo do Campo. Tel.: - 0/xx/11/4125-5517
Quando: até 29/7, das 9h às 18h
Quanto: R$ 2
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Willys Interlagos (1965)
