Equilíbrio
19/02/2002 - 07h15

Paulistano casa menos e, quando casa, gasta mais

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JANAINA FIDALGO
da Folha Online

Em 20 anos, o número de casamentos realizados na cidade de São Paulo caiu quase 28%. Em 1980, aconteceram 66.373 uniões civis, enquanto em 2000, ocorreram 47.932 uniões oficiais, segundo dados da Fundação Seade. Os gastos para quem assume o compromisso, no entanto, são cada vez maiores.

As cerimônias religiosas também diminuíram. Em 1997, último ano em que há informações registradas sobre os matrimônios na cidade de São Paulo, aconteceram 13.914 casamentos. Vinte anos antes, em 1977, houve 44.640 celebrações -uma redução de mais de 68%, de acordo com a Arquidiocese paulistana.

Se as uniões oficiais diminuíram, o mesmo não se pode dizer dos gastos daqueles que ainda decidem se casar no civil e no religioso. O setor movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano no Brasil, levando-se em consideração as despesas com cerimônia, festa para convidados e roupas.

"O casamento sempre foi tradicional. Da festa à cerimônia religiosa", diz José Luiz de Carvalho Cesar, que organiza a Expo Noivas & Casais, feira que expõe produtos de setores ligados ao casamento, que acontece anualmente em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

A administradora de empresas Paula Santos Mangone, 28, que casou em junho do ano passado na igreja Sagrado Coração de Jesus, avalia em R$ 50 mil as despesas com a cerimônia.

"Era um sonho que eu tinha, mas se fosse hoje eu não faria metade do que eu fiz. Faria uma coisa bem mais simples, tanto pelas preocupações que tive quanto pela questão financeira", disse.

Mudanças

A redução no número de cerimônias religiosas realizadas na Igreja Católica, para a professora de antropologia da PUC (Pontifícia Universidade Católica) Terezinha Bernardo, 55, se deve à crise financeira. "Há um problema de dinheiro. Como casar é caro, o número de cerimônias diminui", disse a antropóloga.

Segundo Terezinha, isto acontece mesmo apesar de a cerimônia de casamento da Igreja Católica seja popular e atraia pessoas de outras religiões. "As pessoas vão ao espiritismo, à umbanda e ao candomblé, mas na hora de casar procuram a Igreja Católica", disse. "A Católica tem um ritual público, que tem valor importante para as famílias."

A professora aponta uma mudança nos valores sociais do casamento e da família como causa da queda no número de uniões civis. "O casamento não aparece mais como eterno. Se não é mais eterno, fica a pergunta: você vai casar para se divorciar e ter mais trabalho? Hoje uma família composta apenas pela mãe e pelos filhos não é mais motivo de vergonha", afirmou.

De acordo com a antropóloga, uma maioria pensa que "a união dura enquanto é boa". Nas camadas média e alta da sociedade, a lei de separação dos bens também influencia na hora de optar pela união civil.

"Outro ponto é o grupo ao qual o casal pertence. Para muitos jovens, casar tanto no civil quanto no religioso é careta. Estamos saindo do pensamento religioso e normativo para um pensamento mais progressista e moderno", afirmou a antropóloga.

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