Equilíbrio
07/07/2002 - 14h33

Artrite reumatóide atinge mais mulheres que homens

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MARILIZ PEREIRA JORGE
da Folha de S.Paulo

A maioria das pessoas nem se dá conta de que atos prosaicos como pentear o cabelo, fechar o zíper da calça ou pegar um copo de água dependem do bom desempenho dos ossos e das articulações, espécies de engrenagens do corpo. Quando o mecanismo "enferruja", as atividades mais simples podem ter sua execução comprometida até a máquina parar de trabalhar.

Há mais de cem tipos de doenças reumáticas que acometem o aparelho locomotor, algumas de forma irreversível. Uma das mais devastadoras, a artrite reumatóide (AR), tem como alvo preferencial as mulheres, numa proporção de quatro para cada homem vítima da doença.

Ainda não se conhece exatamente as causas, mas os médicos suspeitam que os hormônios desempenhem um papel importante no desenvolvimento da AR. "Acreditamos que os hormônios masculinos podem proteger os homens de alguma forma. Assim como sabemos que, em alguns casos, a doença começa a se manifestar um ano após a gravidez, que é quando a mulher passa por uma mudança hormonal grande, que pode afetar o sistema imunológico", explica o reumatologista Ronald van Vollenhoven, chefe do Karolinska Hospital, na Suécia.

O médico diz que há estudos mostrando que mulheres que fazem terapia de reposição hormonal durante o climatério e após a menopausa conseguem impedir ou abrandar o desenvolvimento da doença. A comunidade médica se divide em relação a essa crença.

A atrite reumatóide atinge cerca de 1 milhão de pessoas no Brasil. É uma doença crônica, progressiva e de prognóstico imprevisível, mas, para os médicos, o maior problema é a demora para diagnosticar e buscar tratamento.

Um estudo com 200 pacientes feito pelo Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, concluiu que, em média, o tempo entre o início dos sintomas até o começo do tratamento específico é de 4,5 anos, quando deveria ocorrer nos seis primeiros meses.

"Como a maioria dos reumatismos, a artrite reumatóide não tem cura, mas tem tratamento. Só não pode demorar. A destruição das articulações pode acontecer em poucos meses, dependendo de como a doença se manifesta", diz Geraldo Castelar, reumatologista da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

A questão genética também é um fator de risco. A dona-de-casa Misako Yamamoto, 56, diagnosticada há 11 anos, teve a avó, a mãe, a irmã e uma prima com o mesmo problema -nenhuma, porém, com efeitos tão devastadores quantos os dela.

"No começo, as dores não eram forte e eu fugia dos remédios. As opiniões dos médicos divergiam e eu sempre optava por medicações mais fracas. Acho que a doença teria sido controlada a tempo se tivesse mais informações sobre o que poderia me acontecer. Na minha família, apenas comigo a doença apareceu aguda desse jeito", diz ela.

Depois de seis anos, ela já não conseguia puxar o lençol na cama para se cobrir. "Eu tinha que usar os dentes, porque doíam os dedos, o punho, o cotovelo e o ombro." Depois disso, as limitações foram ficando cada vez maiores.

"Quando vou ao shopping, tenho que sair de cadeira de rodas, porque me canso rápido. Tenho vergonha da cadeira, dos meus dedos deformados, mas se eu ficar me escondendo não faço mais nada da vida", disse ela depois da reunião semanal do Grupasp (Grupo de Pacientes Artríticos de São Paulo), que dá apoio, orientações sobre a doença e palestras ministradas por profissionais da área.

A coordenadora do grupo, Maria Aparecida Tosta Meinberg, 70, vítima da doença desde os 56, diz que os encontros dão um novo ânimo às pessoas. "Em geral, eles chegam aqui muito mal e vêem gente que está se recuperando e levando uma vida normal", conta.

Além das medicações, indispensáveis para conter a dor e o avanço da doença, as próteses de polietileno têm dado algum alento nos casos em que a artrite reumatóide destrói por completo as articulações, condenando o movimento.

"A recuperação funcional tem sido excelente. Os melhores resultados são as próteses de quadril e joelho, mas há bons resultados até em casos de dedos", diz Rene Abdalla, traumatologista do Centro de Ortopedia e Reabilitação do Esporte do Hospital do Coração.

Na classe dos remédios que interrompem o processo inflamatório, como o Remicade (anticorpo feito em parte com proteína de camundongo), da Schering-Plough, há uma novidade que ainda espera aprovação da FDA (a agência norte-americana responsável por drogas e alimentos) -o D2E7, da Abbott, primeira droga feita totalmente com anticorpo humano, apresentada no Congresso Panamericano de Artrite Reumatóide, em Aruba, no final de junho. Se aprovado, ainda levará um ano para chegar ao mercado.

Artrite reumatóide

  • O que é
    Doença reumática em que o sistema imunológico ataca o tecido que reveste e protege as articulações. Causa inflamação e desencadeia um processo de erosão de cartilagens, ossos e ligamentos, que são destruídos com o tempo

  • Início
    A partir dos 45 anos, com predominância de três para um em mulheres

  • Sintomas
    No começo: inchaço, dor e rigidez nas articulações. Num estágio mais avançado, causa fraqueza, desconforto, fadiga, febre, perda de peso e depressão

  • Pontos fracos
    Mãos, pulsos e pés, de forma simétrica dos dois lados do corpo. Em geral, o paciente sente como se estivesse "enferrujado" durante mais de uma hora depois de acordar pela manhã. Pode afetar também tornozelos, joelhos, quadril, pescoço, ombros e cotovelos, além de outros órgãos como pulmão

    serviço
    Grupasp. R. dos Açores, 310A, Ibirapuera, tel. 5574-6438. Reuniões às terças, às 14h30.



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