Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
21/06/2001 - 11h29

Cafés filosóficos alimentam debates sobre cotidiano

Publicidade

da Folha de S.Paulo

Quando conheceu os cafés filosóficos, a comerciante paulista Denise Pini, 50, havia acabado de se separar do marido, com quem viveu por 14 anos. "Pensei em fazer terapia porque me sentia vazia. Mas sabia que o que eu buscava não era exatamente o que a psicoterapia oferecia.

Passei muito tempo voltada para o casamento e, quando me separei, eu me senti fora do mundo. Não conseguia entender o que rolava, os novos códigos. Queria adequar-me ao que estava acontecendo", conta.

Denise frequenta o Café Filosófico da Livraria Cultura desde que foi criado, em 97. Conheceu por intermédio de uma amiga, assídua frequentadora."Fui ao primeiro, mas não pensava que iria voltar.

Surpreendi-me quando vi que os assuntos debatidos -amizade, ética, desejo, globalização- eram tão ligados ao meu cotidiano."

Um dos encontros que mais a marcaram teve como tema a mentira. "O assunto mexeu comigo porque tive uma formação muito rígida, mentira para mim era um horror. Vivia em Penápolis (interior de SP), meus pais eram super-religiosos, fui até "filha de Maria". Cresci achando que mentir era injustificável, e isso atrapalhou muito meu casamento. Meu ex-marido era maravilhoso, mas era chegado numa mentirinha, e eu tinha uma dificuldade enorme de aceitar qualquer deslize.

No debate, aprendi que, em vários momentos na história da humanidade, a mentira foi usada como sobrevivência. Isso me levou a questionar tudo o que pensava, enxerguei o outro lado da questão", diz.


Dona de um brechó na Vila Madalena, Denise nunca havia estudado filosofia. "Fiz curso normal e, na faculdade, estudei letras. Sentia falta de uma formação intelectual mais sólida, interessei-me pelos cafés também para tentar suprir essa lacuna." No seu corre-corre diário, sobra pouco tempo para refletir sobre a vida. "Nos cafés, consegui achar esse tempo para mim."

Levantar idéias, em vez de ferro
O médico-homeopata Mozart Cabral, 42, nunca havia estudado filosofia formalmente: cursou o científico na escola e fez engenharia química antes de optar pela medicina. Mas é autodidata desde os 17 anos, quando fez da filosofia parte integrante de seu cotidiano. "Nasci e cresci em Gravatá (interior de Pernambuco) e, apesar de ser uma cidade sem muitos recursos, apaixonei-me por filosofia."

Muito antes de os cafés filosóficos pipocarem pelo mundo, Cabral e um punhado de amigos se reuniam na praça da cidade depois das aulas para discutir surrealismo (um deles era apaixonado por pintura), Nietzsche e até textos da Bíblia. "Tinha adolescente que gostava de levantar ferro, a gente preferia levantar idéias", filosofa.

"Começamos questionando religião, a veracidade dos milagres. O que a gente queria era compreender melhor o mundo, a origem das idéias." Hoje, Cabral classifica a filosofia como seu alimento intelectual. "Nem a religião nem a ciência, que é muito técnica, me dão respostas satisfatórias".

Mas é cético sobre as chances de a filosofia se popularizar. "As pessoas precisam de tempo livre para chegar em casa e, em vez de ligar a TV, abrir um livro. E hoje ninguém tem tempo."

Leia também:

  • Conheça alguns cafés filosóficos no Brasil
  • Filosofia e história ajudam a entender cotidiano e comportamento

  •  

    Publicidade

    Publicidade

    Publicidade


     

    Smart TV Smart TV Diversas ofertas a partir de R$ 856,11

    Notebook Notebook Trabalhe, estude, jogue, a partir de R$ 769,00

    Celulares | Tênis | Mais...

    Voltar ao topo da página