Especialistas em asma alertam para uso de corticóides inaláveis
IARA BIDERMAN
Colaboração para a Folha de S.Paulo
As alergias respiratórias de Luís Ventura Corazza Genioli, 6, vêm do berço. As primeiras crises de asma, conta a mãe, a advogada Valéria Ventura Genioli, 38, começaram quando o garoto tinha um ano. "Eu e meu marido sofremos com alergias. Ele teve bronquite asmática na infância, eu tenho rinite e sinusite."
Por conta desse histórico, Valéria tomou todos os cuidados ambientais recomendados quando o filho nasceu. O quarto de Lucas nunca teve cortinas ou tapetes e bichos de pelúcia foram vetados. Mesmo assim, as crises vieram e, com elas, o sufoco de ter de levar o filho ao pronto-socorro para inalações. E também as visitas constantes aos consultórios pediátricos, para tentar solucionar o problema.
Embora não se fale em cura para a asma --uma doença inflamatória crônica dos brônquios--, há, atualmente, tratamentos considerados bastante eficazes. Segundo o Consenso Brasileiro no Manejo da Asma, o tratamento recomendado é o uso de medicamentos inaláveis da classe dos corticóides, explica Wellington Borges, presidente do departamento científico de alergia e imunologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria). É o que Lucas começou a fazer quando tinha quatro anos. Até agora, tem dado resultados. "Nos dois últimos anos não precisei correr ao pronto-socorro para "apagar incêndio'", diz Valéria.
É um tratamento profilático, feito continuamente e por longo prazo. "Não adianta tratar só na hora da crise. Precisamos controlar a doença, e a melhor forma, além dos cuidados ambientais, é com esses corticóides inaláveis, muito eficazes como antiinflamatórios e com pouquíssimos efeitos colaterais", afirma Bernardo Kiertsman, chefe do serviço de pneumologia pediátrica da faculdade de medicina da Santa Casa de São Paulo.
A forma inalável é responsável pela diminuição dos efeitos colaterais observados com corticóides, já que as doses administradas são muito menores do que as utilizadas no medicamento oral, assim como é bem menor a absorção da substância pelo organismo. "É óbvio que existem efeitos colaterais, mas, em comparação com o corticóide sistêmico [oral] eles são muito menores", diz Márcia Carvalho Mallozi, coordenadora do ambulatório de alergia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).
Um dos efeitos possíveis que costumam causar preocupação nos pais é o atraso no crescimento da criança. Mas as pesquisas apontam que esse atraso ocorre apenas no primeiro ano de uso do medicamento e, com o passar dos anos, a criança medicada atinge os parâmetros esperados para sua curva individual de crescimento. "Outra possibilidade, se a inalação é oral, é a colonização de fungos na garganta", diz Borges. Conseqüências como osteopenia (diminuição da densidade mineral dos ossos) podem ocorrer, mas são muito raras, afirma Mallozi.
Para Kiertsman, "são muito piores os efeitos da doença do que os possíveis de ocorrer com o medicamento". Embora a maioria dos casos de asma tenha cura espontânea, desaparecendo até o início da adolescência, a doença não tratada pode causar lesões pulmonares que, na vida adulta, aumentam o risco de problemas como a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica). Na infância, crises agudas de asma são causa freqüente de internações hospitalares.
A asma não controlada também afeta significativamente a qualidade de vida da criança. Beatriz Mayara Gomes Nunes, 8, diz que fica muito nervosa quando tem uma crise. "Não consigo respirar, não durmo, não posso ir à escola", conta. Ela começou a fazer duas inalações com corticóides por dia e, após seis meses sem crises, suspendeu a medicação. Mas, com a chegada deste inverno, teve uma nova crise, que a fez voltar ao consultório médico para avaliar a retomada do tratamento.
Maria Jussara Fernandes Fontes, professora-adjunta da faculdade de medicina da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e pneumologista pediátrica, considera o tratamento com corticóides inaláveis um enorme avanço, mas acha que, atualmente, há um exagero nas prescrições. "Há uma tendência em sempre receitar esse tratamento, mas não é bem assim. Não é a solução para todo mundo. Tem de ser bem indicado e bem acompanhado. O medicamento pode trazer efeitos indesejáveis, mesmo que esses sejam menores dos que os do remédio oral", diz.
Fontes acredita que alguns riscos potenciais ainda precisam ser mais estudados. Ela cita, como exemplo, o impacto na glândula adrenal causado por corticóides. A adrenal interfere em várias funções do organismo, incluindo as responsáveis pela resistência a infecções.
As maiores preocupações de Fontes são relacionadas ao uso de doses mais altas, por tempo muito prolongado, e a prescrição para crianças muito pequenas, de até dois anos. "Nessa faixa etária, há vários fatores que fazem a criança chiar. Os pais podem achar que é asma, mas nem sempre é. O diagnóstico e o acompanhamento são fundamentais."
Borges, da SBP, diz que o tratamento com corticóide inalável não é usado em casos de asma leve e intermitente. Também não é comum prescrevê-lo para menores de dois anos, que ainda não têm o organismo totalmente amadurecido e podem ter reações mais severas ao medicamento.
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