Antes solitária, ioga praticada em duplas é fenômeno ocidental
FLÁVIA MANTOVANI
da Folha de S.Paulo
Originalmente uma prática solitária, a ioga realizada em duplas é um fenômeno recente e oriundo do mundo ocidental. "Na Índia, as pessoas não permitem o toque com tanta facilidade como nós. Apesar de alguns mestres mais modernos fazerem ajustes tocando o aluno, o trabalho em duplas é uma ferramenta mais ocidental, que vem se popularizando recentemente", afirma a professora de ioga Rosana Biondillo, do Shantih Yoga Studio, em São Paulo.
O primeiro livro a abordar o tema, "Double Yoga", foi lançado em 1980 pela editora Penguin (EUA). "Tive a idéia [de escrever sobre o assunto] em 1978, pensando em como as posturas ficariam bonitas em duplas. Testei com alguns amigos e eles tiveram resultados maravilhosos", disse à Folha um dos autores do livro, o professor de ioga norte-americano Ganga White, fundador da White Lotus Foundation (www.whitelotus.org).
Segundo White, apesar de a ioga individual ser mais difundida, a "partner yoga" é praticada em todo o seu país. "A idéia nunca foi substituir a prática individual, apenas oferecer uma opção agradável", esclarece. Para ele, essa modalidade ajuda a refletir sobre como lidamos com os relacionamentos. "Você pode apoiar seu parceiro, fazer posturas que não consegue sozinho... e é divertido", acrescenta.
Rosana Biondillo diz que costuma alternar os exercícios conjuntos com os individuais e que os alunos sentem mais facilidade no primeiro caso. "Um sempre ajuda o outro. Eles gostam desse contato e relatam que sentem um ganho na postura, uma maior extensão." Segundo ela, o ideal é formar pares com pessoas de peso e altura semelhantes, para evitar, por exemplo, a sobrecarga na coluna de um aluno devido ao sobrepeso de alguém.
Mas a professora afirma que não é só o benefício na parte física que deve ser valorizado. "O desenvolvimento técnico só é relevante se acompanhado do desenvolvimento ético, humano e espiritual. Os exercícios em dupla cultivam valores como cooperação, compaixão e respeito ao outro", diz, acrescentando que muitas vezes a prática em conjunto ajuda a tornar a turma de ioga mais unida.
Mariana Michelin, professora de ioga na Bio Ritmo Academia, acredita que a prática em duplas ajuda a ganhar consciência corporal. "Ser apoiado por alguém ajuda a ter mais consciência do seu alinhamento. A pessoa se equilibra em você e você serve de apoio para ela. Isso exige também desenvolver a confiança no próximo, aprender os seus limites e os dos outros", diz ela, que propõe exercícios em dupla em algumas de suas aulas e nos retiros organizados pela academia.
Os especialistas ressaltam que, antes de começar a prática conjunta, é preciso saber se os alunos estão dispostos a participar. "Tem gente que não gosta de se misturar muito, de tocar e de ser tocado nas aulas. Temos que respeitar isso", alerta Tânia Suzuki, também professora de ioga da Bio Ritmo Academia.
Para Joseph Le Page, mesmo não fazendo parte da tradição indiana, a ioga em duplas pode cumprir um papel no sentido de atingir um estado de união --conceito que é um dos significados da palavra "ioga", que vem do sânscrito. "Diferentemente do que muita gente pensa, a idéia básica na ioga não é só realizar as posturas. Trata-se de atingir um estado de união, não só consigo mesmo mas também com o mundo, com as outras pessoas. Nesse sentido, a ioga em duplas é interessante."
Acompanhe as notícias em seu celular: digite o endereço wap.folha.com.br
Leia mais
- Ioga em duplas facilita prática e valoriza a cooperação
- Livro ilustrado ensina ioga para crianças de forma lúdica
Especial

