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22/04/2004 - 08h04

Professora transforma bituca em papel

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BELL KRANZ
Editora do Equilíbrio

Ela é a rainha das reciclagens impossíveis. Nas suas mãos, "dindim" brasileiro que ninguém mais verá no mapa, porque já saiu de circulação, ganha valor! "Eu estou cheia de dinheiro lá na Universidade de Brasília. Tudo picado", diz ela, rindo. Sua mais recente façanha foi encontrar destino nobre para bituca de cigarro!

Thérèse Hofmann, professora de artes do Instituto de Artes da Universidade de Brasília (UnB), tem como alvo de pesquisa a produção de materiais para a área de artes, como tinta, pincéis e papel, a partir de resíduos variados. Um trabalho realizado em parceria com o Instituto de Química e o Departamento de Engenharia Florestal da universidade.

Ela também reaproveita seu conhecimento, transformando-o em ação social. Dá formação profissional para quem sai da cadeia e procura trabalho. A primeira turma formada já tem trabalho remunerado --com dinheiro não--reciclado. Leia a entrevista.

Folha - Que tipo de lixo vocês transformam em papel?
Thérèse Hofmann -
O resto da colheita de soja dá um papel muito interessante.

Folha - Vocês usam a casca da soja?
Hofmann -
Tudo o que sobra da colheita. O que é lixo não é bem lixo.

Folha - O que parece ser lixo pode virar papel?
Hofmann -
Exatamente. Resíduos da bananeira, da cana-de-açúcar. A paina, que, em Brasília, é o terror dos asmáticos, porque, na época da floração, surgem aquelas nuvens de flocos, causando problemas de respiração em um monte de gente, vira um papel fantástico.

Folha - E da bananeira, que parte é reaproveitada?
Hofmann -
Tudo. Depois que você corta o cacho, tem de cortar o pé para ela brotar de novo.

Folha - Tudo que sobra é reutilizável?
Hofmann -
É. Você corta a grama do jardim e aquilo ali pode virar papel. Sempre tem um excedente para o qual você pode dar uma outra destinação, como a gente fez com a bituca de cigarro.

Folha - Reciclagem de bituca é a última nova?
Hofmann -
Isso. A gente já fez o reaproveitamento do papel velho do Banco Central, papel-moeda, porque o dinheiro tem um tempo de utilidade e depois é incinerado. Viabilizar o reaproveitamento desse material, transformando-o em papel de novo, é alvo de patente da UnB.

Folha - E o projeto está em prática?
Hofmann -
Em Brasília, sim. A gente tem parceria com o Banco Central. Eu estou cheia de dinheiro lá na Universidade de Brasília. Tudo picado. O que você fazia até então? Incinerava. Se você joga no lixão, ele não molha, não encharca, porque possui um produto químico que dá resistência à umidade. O que fizemos foi conseguir quebrar as moléculas desse químico e viabilizar a umidificação do papel, permitindo sua reciclagem.

Folha - E a bituca?
Hofmann -
A idéia veio durante a minha aula de materiais em arte, que é uma disciplina obrigatória do curso de arte, mas optativa para os outros. Um aluno de biologia, vendo a situação da universidade, com todo mundo fumando e jogando essas bitucas em tudo quanto é lugar, perguntou: "Da bituca dá para fazer papel?". Eu falei: "Não sei, vamos experimentar". E a gente viu que dava certo. Pesquisamos na literatura, e ninguém nunca havia feito isso. Virou outra patente da UnB. E, pelos dados que me passaram, a bituca de cigarro é, senão o primeiro, o segundo índice de poluição das praias do Brasil.

Folha - E é simples a tecnologia?
Hofmann -
É ridícula, isso é que é o legal da história. Como é que nunca haviam pensado nisso antes? Acho que as grandes idéias são as mais simples. É você pegar a bituca no lixo, dar um tratamento químico nela, com um produto alcalino, que é um sabão, e ela vira celulose, porque o filtro do cigarro é feito de acetato de celulose. Com isso a gente viabiliza o reaproveitamento e a nova destinação dos cigarros contrabandeados apreendidos, em vez de incinerar todo esse material. Isso está sendo objeto de conversa com o Ministério da Justiça e a Polícia Federal.

Folha - E como é o trabalho de capacitação para os ex-presidiários?
Hofmann -
É fantástico. Existem diversas ações feitas com presos, mas não há nada com egressos da penitenciária. E o índice de reincidência criminal é muito alto, superior a 80%, segundo o Departamento Penitenciário Nacional. Eles cumprem a pena, pagam a dívida deles com a sociedade, mas não têm perspectiva real de reinserção no mercado. Brasília, que é uma cidade administrativa, tem uma demanda na parte de conservação de acervo, de organização de arquivo, de microfilmagem e não tem mão-de-obra suficiente para isso. O Ministério da Justiça paga uma bolsa para esses alunos, e eles aprendem produção artesanal de papel, encadernação comercial, pequenas restaurações, entre outros. A gente concluiu a primeira turma no final de março. Neste mês, eles vão ter trabalho remunerado para cuidar do acervo de outra instituição de ensino.

Folha - Do que vocês precisam?
Hofmann -
Recursos para ampliar esse laboratório e empresas que queiram ser parceiras nesses projetos. Esses vários projetos mostram o que é uma universidade pública neste país. Essas idéias são geradas na universidade pública. O que a gente precisa é que a sociedade comece a prestar atenção nisso e reforce e fortaleça a instituição.

Para contato com a professora: therese@unb.br
 

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