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17/06/2004 - 10h09

Obesidade infantil afeta uma em cada dez crianças, segundo a OMS

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KARINA KLINGER
Free-lance para a Folha de S.Paulo

A obesidade infantil já é considerada problema sério de saúde pública no mundo. Tem sido responsável por um fenômeno que assusta a comunidade médica: doenças antes exclusivas do adulto acometem também os pequenos. É cada vez mais comum encontrar crianças de dez anos com colesterol alto, hipertensão e diabetes tipo 2, principais fatores de risco para o coração. E o pior: aqueles a quem compete reverter esse quadro não enxergam o problema.

Ou seja, a máxima de que os pais têm dificuldade para ver os defeitos dos filhos vale também para o problema da obesidade. Após entrevistarem 300 crianças com sete anos de idade e os respectivos pais, pesquisadores da Universidade de Plymouth, no Reino Unido, constataram que um terço das mães e metade (57%) dos pais achavam que seus filhos obesos estavam dentro do padrão. Apenas um quarto dos pais de crianças com excesso de peso, e não obesas, conseguiram perceber a realidade. Não reconhecer o problema significa também desconhecer os riscos que ele representa para a saúde das crianças.

"Hoje os pais só percebem que a criança está acima do peso quando ela já está obesa. Por trás dessa dificuldade, há um misto de tudo --falta de atenção, falta de tempo e uma pitada de proteção excessiva", diz a endocrinologista Valéria Guimarães, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

"Muitos ainda acham que uma criança gordinha é sinal de saúde e chegam ao ambulatório de obesidade depois que o pediatra constatou níveis alterados de colesterol, glicemia e pressão arterial", diz a pediatra Maria Arlete Escrivão, responsável pelo Setor de Obesidade Infantil do Departamento de Nutrologia da Unifesp.

A situação é tão caótica --uma em cada dez crianças está obesa, segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde-- que a Sociedade Americana de Hipertensão acaba de divulgar uma nova recomendação. A partir de agora, os pediatras devem medir a pressão arterial dos pacientes maiores de quatro anos. Estudo americano mostrou que 20% das crianças, na faixa dez anos, que moram nos grandes centros urbanos estão com a pressão 12 por 8. O ideal é 11 por 7.

Engordar na infância é mais perigoso do que parece. Poucos pais sabem, mas, nos dois primeiros anos de vida e até os dez anos de idade, as células adiposas das crianças estão em multiplicação. "Isso significa que elas terão mais depósitos de gordura para serem preenchidos ao longo da vida porque têm mais células formadas para tal fim", explica Valéria Guimarães. "Se a criança é obesa com dois anos, ela tem 50% de chance de ser tornar um adulto obeso. Aos dez anos, o índice pula para 60%", diz o pediatra e nutrólogo Nataniel Viuniski, do setor de obesidade infantil da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade).

"Precisei bater muito a minha cabeça até compreender a situação. A obesidade mexe muito com o emocional das crianças, com a auto-estima delas." A declaração é da secretária Ana Paula Guidi da Silva, que, só depois do segundo filho com sobrepeso, percebeu o problema na família. Com Mateus, o filho mais velho, todo o incômodo passou despercebido. "Na adolescência, ele começou a se preocupar com o problema, tratamos e até hoje ele está bem, mas, vendo fotos, percebo que ele realmente era obeso desde bebê. Na época, não entendia que aquilo era um problema de saúde, achava que ele era uma criança bonita e saudável."

Já com o caçula, que chegou a pesar 35 kg com apenas três anos de idade, foi diferente. "Por causa do comentário das outras crianças, ele começou a se fechar e logo fomos procurar ajuda", conta a mãe. O garoto agora tem o dobro da idade (seis anos) e pesa menos (32 kg). Façanha conseguida sem milagre, mas com a redução das calorias nas refeições e com a prática de esporte.

Quando o ambulatório da Unifesp, um dos pioneiros do país, começou a atender crianças obesas, há mais de 18 anos, a procura não passava de dez crianças por semana. Hoje são 50 e com constante fila de espera. Há duas semanas, a reportagem acompanhou a chegada de um grupo novo de pacientes ao serviço de Endocrinologia do Hospital das Clínicas (SP). Em uma sala lotada, o grupo de mais de 30 crianças e pais ouviu uma palestra educativa sobre as causas da obesidade e os erros alimentares mais comuns. O que não é o suficiente. Com criança, o processo de reeducação alimentar só funciona com o aporte de uma equipe multidisciplinar.

No HC, por exemplo, o programa oferece consultas semanais com pediatras, nutricionistas e psicólogos e aulas de educação física durante seis meses.

O estudante Leonardo Santoro, 8, esperou um ano para ser atendido. Saiu da palestra animado, ao lado do pai. "Procuramos ajuda porque tive um parente que fez uma cirurgia por causa da obesidade. Não quero que ele passe por isso. Hoje ele pesa 55 kg e precisa perder 10 kg", diz o pai, o corretor Edson Cassine.

Giovanna Andrilli de Oliveira, 11, já está no programa há seis meses. Ironicamente, é filha de nutricionista, que sofre ainda mais porque conhece bem as complicações da obesidade. "Aos oito anos, ela começou a engordar e chegou a acumular 15 kg extras. Foi a troca de escola. Além de não gostar do lugar, passou a ficar em tempo integral e a consumir porcarias. Como eu trabalhava o dia inteiro, ficava difícil controlá-la", conta a mãe, Eliane Kelly Andrilli. Os avós paternos e a avó materna da garota sempre cedem aos seus pedidos e idas freqüentes a lanchonetes acabam sendo inevitáveis. A mãe até parou de trabalhar para acompanhar de perto o tratamento da filha.

Não há saída. Depende da família o sucesso dos programas de reeducação alimentar para a criança. "A família tem de aprender a comer corretamente, na hora certa, sem beliscar e sem ingerir quantidades excessivas, e a reeducação também deve integrar o currículo escolar e ser preocupação do grupo de amigos", diz o nutrólogo Mauro Fisberg, da Unifesp.

"Estamos mais saudáveis aqui em casa. Eu mesmo emagreci quatro quilos." A frase não é da criança, mas de um pai, Edinaldo, cuja mudança de hábito foi fundamental para o sucesso do tratamento do filho, Diego Clemente da Silva, 11. Por causa dos quilos extras, o garoto estava com níveis alterados de colesterol e pressão arterial.

A mãe, Josinete Ciprijo Mota, limitou o consumo de guloseimas aos fins de semana. Resultado: ele conseguiu manter o peso durante um ano, apesar de ter crescido mais de 5 cm. "Odiava salada, mas tive de aprender a gostar. Valeua pena. As pessoas deixaram de falar de mim", diz o menino.

Os pais costumam acreditar em duas idéias equivocadas. A primeira é que negar comida é como negar amor. Na verdade, os limites, inclusive na área alimentar, é que são provas de amor, diz a psicóloga Patrícia Spada, que desenvolveu uma pesquisa sobre a relação entre crianças obesas e suas mães, na Unifesp.

A segunda idéia é que, no estirão, o gordinho emagrece. "Apenas 2% do que eles ingerem vai para o crescimento. Portanto é preciso cortar os excessos", diz a endocrinologista Sandra Villares. "Muitas crianças podem, com o crescimento, estabilizar a relação do peso com a estatura. Porém, em caso de peso excessivo, teríamos de ter estaturas gigantescas para conseguir um equilíbrio", diz Fisberg.

Estar em fase de crescimento significa também que, em geral, a principal meta é manter o peso, e não necessariamente emagrecer. Para calcular se existe excesso, os médicos recorrem à tabela de IMC.

Como no adulto, a obesidade infantil tem como causas os maus hábitos (alimentação errada e sedentarismo) e predisposição genética. Quando ambos os pais são obesos, os filhos têm 80% de probabilidade de seguir o exemplo. Já quando apenas um é obeso, o risco é de 50%. "Essa herança deve ser levada em consideração e serve como um sinal de prevenção para os pais", diz Viuniski.

Ana Cristina Guedes, 3, já está se cuidando para se prevenir da ação de possíveis genes da obesidade. O pai é mais "cheinho", como diz a mãe, e "ela sempre foi grande e come bem, por isso começamos a nos preocupar", conta a geógrafa Rosana Guedes.

A pequena Ana já freqüentou spa e segue um programa de reeducação. Não emagreceu, mas teve o peso estabilizado. Disciplinada, ela inicia todas as refeições com um prato de salada.

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